31.7.24

A Gaffe e as mulheres com gatos


É tão bom poder observar sem as interferências do costume, sem o burburinho banal que é livre e que rasteja nos dias a que chamam úteis e em que são obrigadas a outros ataques bem menos perigosos, o modo de caçar das mulheres em que a crueldade desalmada inclui o maior desprezo pelas vítimas.

Felinas na caçada.

Nelas o desejo de agarrar irrompe como labareda. Com o tempo aprendem a controlar a área atingida e a circunscrever, a delimitar, o perímetro de ataque. Desta forma, nunca os terrenos limítrofes acabam calcinados. Os seus planos de ataque contemplam cirurgias de topo e estratégias quase cínicas de tão geladas, quase impudicas de tão calculadas.

Esta aprendizagem leva menos tempo do que se esperaria. Aprendem depressa a esperar de garras recolhidas, contra o vento, aninhadas no desespero que é querer rasgar a vítima, mas a perceber que nem sempre é tempo de gamos tontos, distraídos, de pescoço inclinado e limpo, de jugular à vista. Assimilam esta aprendizagem com a perícia dos sobredotados e as emboscadas são agora antecâmaras de festim seguro.
Há, no entanto, uma ligeira lacuna neste caçar certeiro e implacável. Nem sempre detectam o milésimo de segundo em que se pode e se deve desferir o golpe derrubando o corpo que resistirá se perdida essa ínfima fracção de tempo imprescindível ao ataque. Chegam muitas vezes extenuadas ao fim da luta. Com a vítima nas garras, o sabor da carne nos caninos, mas já quase sem fome. Entediadas.
Se as caçadas são certeiras, violentas apenas porque deixam em ruínas as almas apanhadas, é só porque a perícia do ataque resulta do pressentir do momento em que a vítima se distrai, desvia, deriva, afasta e se entrega imprudente ao outro lado do perigo, àquele que confunde com um lugar seguro. Então saltam e mordem a jugular, matando.

Espreitam. Espiam. Esperam.

Há sempre uma imperceptível faísca incolor nos olhos do que se quer. Dura uma fracção de tempo indefinida e de tão breve é quase imperceptível, mas as mulheres percebem que a conseguem ver a trucidar o céu daqueles que sabem degolar. Quando a vislumbram, levantam a pata de garras distendidas e abocanham a presa.

São predadoras de topo, carnívoras muitas vezes sebentas e sempre sedentas. Rasgam de forma idêntica os tendões às vítimas e abandonam sempre os corações.
Existe apenas uma diferença entre elas no modo de caçar: Umas atacam ao pressentir a distracção ténue da presa, enquanto outras a imolam no exacto e infinitesimal instante em que a vigilância entrevê o perigo.

São mulheres - com gatos - de quem J.D. Vance tem medo. 

Normalmente a solidão agrada-lhes como um lugar sem dor.

A Gaffe pormenorizada


As dúvidas dos homens - as mais íntimas, as mais físicas, as mais susceptíveis de palpação, - são amiúde presas apenas por pormenores, porque reconhecem que as grandes sedutoras sabem que muitas vezes não importa a paisagem inteira, mas que é fulcral a minúscula papoila que lhe entrega a cor.

30.7.24

A Gaffe de galochas


A Gaffe usa galochas.

Pretas, justas à barriguinha da perna, com uma ligação perfeita aos jeans - de cor uniforme, não vá parecer que andou nas obras -, e camisa muito masculina, larga, com um xadrez de inspiração escocesa, com um nó na cinta.
A Gaffe usa galochas para visitar os pobrezinhos e os mais desfavorecidos que vivem na lama e no esterco.

Nas visitas aos sem-abrigo, a Gaffe acrescenta um agasalho muito discreto, de caxemira de cor sóbria e respeitosa e botas de campanha. Os jeans são os mesmos, para não parecer que se varia muito e frisar que não são apenas eles, os pobres, que insistem em dizer que a moda é só aquilo que nos fica bem. Às vezes um tailleur vintage, ou um simples cobertor Galliano - mesmo um de 2010 -, que nos assenta na perfeição, é o que basta para nos actualizar olipicamente.

Atenção: Os sem-abrigo só existem de noite e não fica nada mal acrescentar ao outfit um capacete com uma pilha incorporada.


Nada é mais agradável do que saber que Macron comunga deste elegante saber estar, observando as suas oportunas posições que nos revelam que, tal como a Gaffe, monsieur le président calça muitas vezes botas e enfia umas calças muito práticas, prontificando-se desta forma a calcar o cocó que os sem-abrigo fazem na rua nos seus momentos mais globalizantes que os aproximam da cultura mais rude dos indianos. 
A Gaffe fica contente ao perceber que se poderia a qualquer momento cruzar Macron nestas visitas purificadoras, muito jeitosas, muito Olimpíadas 2024 e que nos deixam livres para optarmos por um guarda-roupa mais descomprometido e relaxante, contrário ao que tantas vezes nos é imposto pelas convenções sociais e que nos faz parecer saídas das fotografias de um século passado. O lazer que nos traz a possibilidade de usarmos o mais descomplexado, o mais jovial e descontraído, é muito descurado neste país que também esquece, paradoxalmente, que uma mulher de saia travada dificilmente cumpre o seu dever, como nos alerta o amigo americano. Como é evidente, a Gaffe concorda. Uma saia travada prende imensos movimentos - muitas vezes os melhores - e é também desaconselhada quando a mulher assiste a uma tourada, depois de cumpridos os seus deveres domésticos. Uma rapariga senta-se naqueles estrados muito baixos, fica indecorosa e é evidente que pode causar alguma distracção na testosterona da arena. Uma saia travada é muito mais indicada a uma noite de fado, depois de cumpridos os nossos deveres domésticos - nunca é exagero repetir.

É uma alegria ver que Macron se une a esta rapariga esperta e à bondosíssima Jonet na corrida aos pobrezinhos! Finalmente dois países europeus - do melhor que há -, têm a hipótese de se orgulhar de um trio saído de uma opereta, com um guarda-roupa irrepreensível e capaz de fazer desandar e desaparecer das cidades olímpicas umas centenas de sem-abrigo desagradáveis que destoam na abertura - tão inclusiva e tão tudo, tudo, tudo, todos, todos  todos, até a bichice -, das olimpíadas em Paris no ano de 2024.

Só é de lamentar que não tenha acontecido o mesmo às ratazanas das margens do Sena. As piquenas ficaram. 

29.7.24

A Gaffe de um velho

 

A Gaffe lavadinha


Raparigas!
Se a vossa ambição for só encontrar um homem com uma vida sexual marcada apenas pelo espírito de missão, procurem-no numa qualquer lavandaria comunitária.

Aí, pelo menos, tereis duas certezas: a de que, o que encontrais, é um trabalhador esforçado e a de que esporadicamente se lava.


Nota  Não! Jamais fornecerei o endereço da lavandaria da imagem e, caso a encontrem sem eu ter dito nada, fiquem a saber que o menino já está reservado.


A Gaffe guterrista

É evidente que fiquei bastante agradada ao ver Guterres de boa saúde a defender a sua candidatura a Secretário-Geral das Nações Unidas.

Esta rapariga confessa que é pouco dada a orgulhos bacocos. Experimentou uma pitadita deste nobre sentimento ao assistir à intrincada inovação eleitoral e pelo facto de Guterres ter sido eleito o candidato mais capaz e que retirou em braços Ban Ki-moon que esteve a dormir na poltrona durante demasiados anos.
Isolado no meio de uma data de candidatos de leste que oscilavam e confundiam outros valores que mais alto se levantavam, ao lado de um outro que não respondia a estratégias geopolíticas dignas de relevo e enquadrado por mais um que a Inglaterra não conseguia engolir, Guterres foi a tabuinha certa numa inundação que teve como afogados principais a Alemanha e a sua titubeante Kristalina que parecia desconhecer o já adivinhado conflito uncraniano, tão ocupada que se encontrava a tentar falar inglês sem deixar de pensar em alemão.
Aliando-se a este cenário, o facto de Guterres se ter revelado indiscutivelmente o melhor candidato - o que prova que um líder desastrado de um partido, um ex-primeiro-ministro medíocre e de tanga, mergulhado num pântano político que não consegue drenar, pode aspirar com o tempo à competência - tornou quase obrigatória a sua eleição e em consequência as manifestações de orgulho pindérico que caracteriza o provincianismo português.

A eleição pontual do mérito e da competência, meus queridos, não é contagiosa. Não se transforma em epidemia e não faz dum conterrâneo eleito a encarnação ou o símbolo de um país, assim como não permite, sobretudo neste caso, que a diplomacia portuguesa desate aos gritos reivindicando um pedacinho das folhas de louro que emolduram o triste, mas valoroso, penteado do Secretário-Geral da ONU.

Continuamos por cá muito pobrezinhos.

Empolamos a alegria, dilatamos o peito, inchamos o ego, ampliamos o orgulho e exultamos - mesmo não sabendo muito bem porquê, ou apenas porque o mérito tem as cores da nossa bandeira -, mas sempre caseiramente à espera de meter a cunha, fazendo lembrar a criaturinha patética que esbraceja em defesa da globalização do arco-íris, da defesa do carrapato do Cazaquistão e do gorila na bruma, da harmonia planetária e da comunhão sem preconceitos entre povos, mas que no aconchego do lar e da sua mesquinhez rancorosa não resiste, à laia de exemplos ou de brisas na tarde, a chamar cenourita a uma ruiva - ou a considerar que uma prostituta que se soltou das esquinas e dos cantos degradados da vida que teve, tem de passar a ser mais dócil, porque existe gente de respeito que faz o favor de a aceitar agora - como se o epíteto, o beliscão lasso que tenta cravar ininterruptamente, não representasse apenas a tristeza da sua permanente crespa, baça e descolorada, ou que uma decisão alheia tivesse de passar pelo seu crivo raquítico para se assumir de pleno direito.
Usamos de modo anfetamínico o mérito dos outros acreditando orgulhosos que dele partilhamos, que nele nos revemos, que ele nos encarna, apenas porque não conseguimos vislumbrar a nossa vacuidade e a nossa mediocridade desfraldada.

Vestimo-nos de Batman e rabiscamos obscenidades nos WC da vida.

No entanto, Guterres é fácil de menorizar, de minimizar, de subvalorizar, assim como foi fácil para - em tempos que já lá vão - esta rapariga pouco inteligente, embarcar ela também na canoa do rasteiro e do idiota.

A Gaffe pede perdão ao Secretário-geral da ONU e não pode deixar de se orgulhar, verdadeiramente, da inteligência, da dignidade, da coragem, do recato e da nobreza com que Guterres prova que o planeta só tem que aprender com líderes destes e que nem sempre o prémio Nobel da Paz é devidamente atribuído.

28.7.24

A Gaffe bellucciana

É curiosa a insistência com que alguns homens debatem os actuais padrões de beleza feminina levando quase à exaustão a matéria em apreço, com uma preocupação exacerbada digna de lesados em primeira instância pela indução publicitária da irrealidade no imaginário da gentalha.

Massacram o debate, acotovelam a polémica, incendeiam conceitos, trituram discussões e apoderam-se do tema como se deles fosse o dano mais directo.

O mais irritante é acharem que erguendo repetidamente o contraste todo inflamado do corpo de rua versus corpo de passerelles, com uma força que supera em muito a nossa, nos vão salvar do despenhadeiro que o corpo do real nos vai mostrando como inevitável destino.

Insistem. Publicam tagarelices. Voltam a publicar dias depois matéria igual. Citam parcerias, pares, parelhas e paradas onde se diz o que repete embora com mais ou menos brilho. Cravam-se nas costas do tema e, de pena magra ou gorda, alta ou baixa, depenam o já sem réstia de penugem e regressam logo que podem e com o mesmo viço ao já estafado. Tornam-se peritos na matéria. Falam por nós, em nós, de nós, preocupam-se connosco e mostram pelo caminho as fotos dos crimes cometidos contra nós.

Esta obcecação pelo modo como o conceito de beleza feminina em vigor nos causa dano, esta obsessão por nos chamar a atenção para os perigos existentes nas ilusões estéticas que nos são vendidas, levam a suspeitar que lhes interessa muito menos o tema do que as fotos que o ilustram. Abnegados, altruístas e justificados, vão espreitando anorécticas e obesas, altas e baixas, gorduchas e as que nem por isso, loiras e morenas, raquíticas ou lutadoras de sumo, aproveitando para, pelo meio, dar uma vistinha de olhos a Monica Bellucci ou passar os olhinhos pelas maminhas de Alessandra Ambrósio comparando-as com as de Fafá de Belém.

Aborrecem. Irritam e depois causam fastio.

Pelo caminho esquecem que, há já bastante tempo, o tema pode ser conjugado também no masculino e que os abdominais bronzeados que nos são enfiados pelos olhos dentro – abençoados fotógrafos - estão a uma distância de anos-luz de ginásios das suas barriguinhas brancas e peludas.

Nós sabemos. O tempo vai-nos ensinando a ser como Móises. Não imaginam as águas que conseguimos separar.
Embora correndo o risco de se cometer um erro crasso e nada BCBG, apetece dizer-lhes baixinho:

- Ide todos bardamerda, queridos. Considerarmos o nosso corpo perfeito ou imperfeito, tem pouco ou nada a ver convosco.

 

Agora, se me dão licença, vou procurar alguém que tenha a maçada de enfiar uma Barbie pelas goelas abaixo destes juízes-do-feminino, sim?


(Ou pelas goelas acima, se a Barbie entrar por outro lado.)


27.7.24

A Gaffe e um guerreiro



Desde tempos imemoriais que o cabelo feminino é tido como sinónimo de sensualidade, muitas vezes de luxúria, outras vezes de condenação, várias outras de encarnação de inocência e de representação simbólica de virginais predicados. A atracção irremediável deste elemento que origina as mais incontidas paixões, expressou-se nos mais consagrados romances e declamada poesia.

O cabelo é uma arma, impossível de refrear se Dalila for, de novo, uma traição inesperada.

Uma rapariga esperta reconhece que não é só no interior da sua cabecinha que reside um dos maiores afrodisíacos de sempre. O cabelo é um dos principais e magníficos entrelaçados que enformam o ninho ou a armadilha que acolhe ou amarra a força viril dos guerreiros invencíveis.

Sansão é apenas a narrativa de um mito que convém ser alterado.
A lâmina que lhe decepou toda a pujança, nada mais era do que um fio de cabelo de Dalila.

A Gaffe ondulada


A Gaffe tem uma amiga com um cabelo estupendo.

O mais moderno, o mais famoso, o mais competente e mais badalado dos cabelereiros deste país seria capaz de cortar um dedo, ou empenhar aquilo que os rapazes costumam apostar, para adquirir a capacidade técnica de fazer acordar uma cliente com o ondulado absolutamente vintage, divinamente anos 50, com que a sua querida amiga natural e naturalmente se levanta todas as manhãs.
A Gaffe acredita mesmo que os magníficos e hollywoodescos cuidadores das cabeleiras das divinas vamps de outrora desatariam aos gritos e aos saltos mal percebessem que o que lhes levava horas a conseguir, a esta rapariga leva o tempo de mergulhar os dedos na sua sedosa e brilhante e ondulada e magnífica juba.

Acontece que um desses facínoras detentores de um poder mal estudado e demasiado subvalrizado, convenceu a pobre amiga a experientar aquilo a que chama, se o espanto não a atraiçoa, um alisamento japonês.

A Gaffe não faz ideia se o nome desta operação está ligado ao facto do nosso cabelo ficar com a textura das cabeleiras orientais, lisas, pesadas, sedosas e luminosas, ou se tem a ver com o facto de a nossa carteira ficar tão lisa e plana como a nuca dos queridos japoneses.
O facto é que a tragédia aconteceu e vai durar. O alisamento japonês é coisa para semestres de duração e só o corte radical daquela lisura impessoal poderá fazer com que renasça das cinzas o ondulado fantástico agora cilindrado.

A pobre amiga perdeu o que a tornava única em nome de uma imagem lisa e luzidía, capaz de atravessar toda uma humidade mexicana sem ameçar sequer uma sombra de onda mais traquina.
Perdeu-se personalidade, garra e marca. Ganhou-se um brilho liso, quase diamantino, bastante agradável para quem se contenta com zircões.

O drama, diz a Gaffe, é que normalmente nós, mulheres, esquecemos que somos um todo planeado ao milímetro e nada nosso é exagero ou erro de casting. Esquecemos demasiado depressa que aquilo que tantas vezes consideramos falhas ou defeitos, são somente as pequenas memórias que deixamos nos homens que valem a pena ser vividos.
Os homens que não interessam, aqueles que podemos ignorar, esquecer ou tornar invisíveis, acabam normalmente casados com umas mamas de silicone e ignoram completamente que estão casados com a mulher toda.

26.7.24

A Gaffe feminista


O desprezo votado por alguma imprensa misógina obrigou o feminismo a ser relegado como emanação ultrapassada e retrógrada de um passado fantoche em que se queimavam soutiens e se exigia o direito de voto para as pobres criaturas a quem só muito recentemente a Igreja Santa reconheceu possuírem alma.

A reinvenção e a reestruturação de um universo menos patriarcal, em que se verifique uma organização de comunidades, sistemas políticos, espirituais, sociais e societais, são absolutamente necessárias.
A visão hierárquica masculina e os seus consequentes sistemas de organização esmagadoramente patriarcais, entraram em colapso e, por muito que se apele ao que de feminino o homem retém, serão as mulheres a adquirir as competências, as capacidades e as aptidões, para de forma vigorosa encetarem a mudança.

São as mulheres a derradeira esperança. O grande recurso intocado do mundo, a metade da população que pode reformular a equação humana.

Rapazes, saiam da frente.


A Gaffe olímpica


É certo e sabido que o desporto produz atletas excelentes que nos regalam os olhos e nos deixam a salivar.

É tudo tão bonito - em todos os sentidos e formatos - que se torna difícil escolher uma imagem que mereça destaque. Ficamos sideradas com tudo aquilo que vemos mergulhar, esbracejar, correr e saltar, pular e rodopiar no estádios, rampas ou piscinas. Um corrupio nunca visto tão juntinho de grandes e valentes rapagões.
Um fotógrafo, se quiser ser mais original, não se pode limitar a captar as imagens que todos os outros coleguinhas facilmente apanharam já também. É apontar a objectiva para qualquer lado onde se agitam os atletas e rapidamente se faz uma brilhante fotografia de nos fazer levantar do sofá com as pernas tortas ou flectidas.


Exactamente por isto, escolhi uma de Rhys Howden, captada por Mark Nolan, mas a verdade é que o pólo aquático ficava muito mais interessante com este rapaz na equipa australiana.
Apesar de não o favorecer muito e da presente e reduzida reprodução não fazer justiça ao ar malandro do rosto atleta, a fotografia, mostrando-o no momento que antecede a entrada em competição, é um achado e consegue captar a expressão quase irónica de quem se sabe observado e gosta de se sentir olhado sem o reconhecer de forma aberta.
As texturas que o envolvem são incríveis e a luz faz delas um cenário próximo daqueles onde  - fala o estereótipo - se moviam os gladiadores antes da entrada na arena para o confronto com os outros leões.

Não é o repouso do guerreiro. É o momento exacto que antecede a luta e apesar de poder escapar facilmente do catálogo que reúne as fotos habituais neste tipo de evento, é sem sombra de dúvida uma fotografia olímpica de um semideus que espera medalhas.

25.7.24

A Gafe nada careca


A tolice é dos carecas que elas gostam mais que se ouve esporadicamente, para além de ser uma das mais deselegantes frases que se conseguem rapar, revela uma ignorância confrangedora do gosto feminino e um implícito, embora camuflado, desprezo da capacidade de discernimento da mulher aliada a uma espécie de vanglória do macho dominador.

A careca surge tratada como um símbolo da masculinidade incontornável, contrastando com a juba leonina dos que hesitam. Transformada em sublimado falo, o bazófia careca mostra a sua virilidade subjugadora.

Normalmente, a frase vem apensa a homens cuja maior ambição consiste em deixar crescer as sobrancelhas para depois pentearem até que tapem a nuca. Se em simultâneo as pintam de preto asa de corvo, há orgasmos pela certa.

A careca é apenas mais um penteado, meus queridos. Claramente o mais prático, mas tão exigente como qualquer outro. Se for voluntária, não desresponsabiliza o portador permitindo-lhe frases imbecis como a que se reproduz. Se vier com os genes, será sempre apreciada de acordo como o resto da encomenda.

Fotografia - Daniel Fleur

A Gaffe conta outra vez


Tentei há imenso tempo, uma aproximação presunçosa e mais ou menos freudiana às histórias de fadas.

Recupero o que na altura foi escrito, pois que nada se alterou e porque encontrei ilustrações extraordinárias que quero muito mostrar.

Na altura usei apenas O Capuchinho Vermelho e A Bela Adormecida que são, sem hipótese de contradição, duas obras com direito a figurar nas estantes da memória de todas as crianças. Não fiz, nem pretendo fazer por estar longe de ser capaz, uma análise exaustiva das obras. Aflorei apenas o aspecto que ilustra de certo modo o que sempre pensei acerca do assunto.

O primeiro conto fala de uma menina que, usando um capuz encarnado, deverá no seu passeio pelo bosque, passar a ter cuidado com o lobo que a espreita com intuitos devoradores. Numa primeira e quase imediata aproximação, descobrimos a cor do capuchinho que, segundo uma data considerável de analistas, representa a menarca, a primeira menstruação de uma jovem. A rapariga, fértil, deverá cuidar da sua segurança e do afastamento do possível agressor e/ou desflorador, aqui transformado em lobo cujas características estão desenhadas de modo a ser considerado fatal. A lição possível é dada de modo eficaz e o aviso subliminar fica registado. A menstruação, metaforicamente encapuzada, é sinal claro, vermelho, para que a jovem menina passe a observar os sinais de perigo vindos do bosque. Uma agressão não pode, ainda hoje, ser evitada usando o medo do lobo que espreita?

É também curiosa a quantidade de sangue que se derrama nestes dois contos - mas não exclusiva destes. O sangue metafórico do capuz e o sangue provindo da picada que adormece a Bela. Desta feita, no caso da Princesa catatónica, ser picada é ser desflorada. Há um elemento perfurador, o fuso, que penetra na carne da jovem que tinha atingido a idade em que se tornaria normal uma iniciação sexual. Como castigo, a adolescente adormece e terá de ser o Escolhido a tentar reanimá-la com um beijo após ultrapassar uma série de provas que demonstram que é o merecedor. O feitiço é imposto pela bruxa - interessante também esta dualidade entre bruxa/fada, fada madrinha/feiticeira, que está muito próxima da imagem da mãe, criatura benévola versus criatura malfazeja - e é quebrado por imposição - permissão? - de uma fada com a condição de ser um corajoso, garboso e aprovado jovem a reanimar a princesa picada e ensanguentada. Neste caso, o beijo poderá ser leve e pueril, ao contrário do da Branca de Neve que será obrigatoriamente mais profundo de forma a retirar da garganta o pedaço de maçã envenenada. Muitas vezes ignorada ou dispensada esta característica contribui de modo decisivo para a perenidade e a intemporalidade da história.

Estes dois exemplos, mostrados de forma simplificada e incompetente, dizem dos modos sublimados de abordar o sexo nas histórias para as crianças, transmitindo noções e conceitos que se enraízam no inconsciente colectivo e estão directamente relacionados com os chamados arquétipos da humanidade. Não são exageros de mentes sórdidas capazes de encontrar, de modo freudiano, o sexo nos anjos. Até porque são raros - se é que há alguns - os contos onde os querubins se tornam personagens dignas de eternidade oral ou escrita. Por não terem sexo, acabam não contáveis.

A minha aproximação, pecando por defeito, é necessariamente curta e restrita e está apoiada nos mais básicos alicerces do corpo construtor da clássica narrativa infantil susceptível de atravessar gerações sem modificações na sua estrutura essencial. Carece de maior desenvolvimento que não tem lugar aqui e deveria, logicamente, ser aliada a outras que com esta fornecem o estatuto de obra maior ao que é contado.

Importantíssimos são, entre outros e a este propósito, os texto de  Ana Gerschenfeld e de Jamshid J. Tehrani.

A violência, a morte, a crueldade, a disfunção - sobretudo no âmbito familiar - e o universo do fantasioso povoado por ogres, fadas, duendes e bruxas, são pilares quase totalmente ausentes na literatura infantil da actualidade que oferece à criança uma planície asséptica, afastada e purificada, repetindo e retratando um quotidiano aparentemente inocente, clarificado e isento de implícitas referências aos arquétipos edificadores e organizadores do inconsciente colectivo.

Mas o importante é rever:











Uma das inúmeras exigências feitas a uma obra destinada a crianças é a da utilização de signos, se quisermos de significantes e de significados, numa prática sócio-semiótica progressiva, susceptíveis de se assimilarem com facilidade pelo destinatário cuja inteligência abstracta ainda é incipiente.
Fáceis de ser assimilados, não significa nem justifica de todo um uso limitado de vocábulos simples ou, muito menos, a utilização de uma espécie de linguagem débil, assumindo-se que é nesta restrição forçada que a leitura se processa com maior facilidade numa obra infantil.

A dificuldade do tradutor que tentava com algum desespero encontrar no francês o vocábulo próximo - mas não equivalente - da portuguesa crónica, é absolutamente desprovida de senso. A palavra crónica, dizia-se, não pertencia ao normal e usual, quotidiano, universo infantil e como tal deveria ser substituída por uma outra mais acessível, mas que gerava alguma dificuldade em achar.
Esta posição é exemplo de uma certa anomalia na definição e na avaliação dos objectivos da literatura infantil actual. O uso de uma linguagem apurada e exigente que recorre a signos, fonemas, vozes, termos e sons, eventualmente afastados do universo da criança, não é de forma nenhuma um handicap tornando-se, pelo contrário, uma mais-valia. Entrega à criança a possibilidade da descoberta, processamento e desenvolvimento da língua e da sua capacidade de a interpretar e, em última análise, de a amar.

Ao contrário da, por exemplo, esmagadora maioria da literatura infanto-juvenil editada em Espanha, que tem como um dos seus critério de selecção a qualidade e riqueza vocabular, a portuguesa actual, é, salvo raríssimas excepções, de uma enorme pobreza nesta área - não falamos sequer da Inglesa com uma tradição de apuro, exigência e qualidade invejáveis.
Escreve-se para minúsculas entidades desprovidas de inteligência, incapazes de raciocínios ligeiramente mais elaborados e um pouco mais que idiotas ou imbecis. Escreve-se procurando o mais incipiente do vocábulo, a mais simplificada das imagens e a mais irrelevante das frases. Escreve-se quase exclusivamente com um intuito moralizador - compreendido numa abordagem diacrónica - muitas vezes preconceituoso e demasiadas vezes canhestro, como se fosse esse, ainda hoje, o objectivo primordial da literatura para a infância. Escreve-se para formar leitores sem se ter em conta que não é uma avalanche de edições pouco criteriosas que os formará, nem a ausência do factor surpresa de uma voz, impulsionador da procura e da descoberta externa à obra, paraliterária ou metaliterária, que os desenvolverá.

Escreve-se pobre em Portugal, para pobrezinhos.

23.7.24

A Gaffe receita


Segundo uma especialista as mezinhas coleccionadas pela avó e que descobrimos encadernadas em sépia no sótão da nossa infância revisitada, às vezes oferecem os resultados que prometem.

Beber um copo com água tépida onde diluímos uma colher de chá de mel e uma colher de chá de canela em pó, meia hora antes do pequeno-almoço e meia hora antes de deitar, faz com que a nossa pele, a médio prazo, irradie luz e adquira a textura do veludo.

A Gaffe experimentou uma primeira vez e aconselha, em alternativa, o vapor de água de uma banheira com testosterona a flutuar.
Sem horário.

22.7.24

A Gaffe amorosa


Dos verbos mais gastos que usamos, aquele que parece ser o corroído é o gostar.

Colhemo-lo por todos os cantos e esquinas da vida. Surge espontâneo e bravo como pequenas violetas selvagens, perfumadas e aguerridas. Fornece-nos o minúsculo conforto que nos protege quando à volta se multiplicam os cardos. Entrega-nos a sensação de pertença e de pequenas cumplicidades essenciais à solidão que tanto nos arrasa. Ensina-nos a sorrir devagarinho. Solta-nos o coração, deixando-o sem fronteiras férreas que o limitam e sussurra-nos promessas de voos simples, mas felizes.

É um verbo tranquilo e seguro, sobretudo quando conjugado no presente. É quase um verbo infantil. Um verbo de brincar. Um verbo que deveria ser conjugado apenas por crianças, porque apenas elas o deixam cristalino, perene e sentido do modo exacto e acreditado eterno.

Gostar é o carrossel colorido de uma infância, o doce de avelã da nossa avó, a pulseira de cordel atada à esperança, o sol a bater brando numa manhã de janelas acordadas, o aroma da terra molhada depois da canícula, as histórias de fadas e de monstros no colo da ama ou a carteirinha que não dá com tudo e que abriga apenas um sonho minúsculo.

Gostar é a almofada onde se pode encostar o nosso mais pequeno coração - e temos tantos!

É um verbo deslumbrante, mas exíguo. Rola na nossa mão como um berlinde.

O globo inteiro e sem medida está no verbo amar.

A Gaffe e as "Fashion Trends"

 



A Gaffe é informada que aquilo a que os especialistas chamam Fashion Trends - para os mais pindéricos, tendências de moda -, não passa basicamente de uma operação relativamente complicada que reúne instruções de algumas fontes, nomeadamente sociológicas, antropológicas, societais, sociais e sobretudo industrias, que orientam e manipulam de forma inteligente a população que querem tornar alvo.

Esta rapariga não se cansa a desenvolver o assunto, apesar de lhe parecer bastante interessante tentar compreender, para que lado vira o vento e qual a tralha em stock que se é obrigado a impingir, custe o que custar, usem-se as armas que forem necessárias.

Seria reconfortante compreender, por exemplo, como é que uma paleta apresentada reúne as cores imprescindíveis a quem se quer usável e visível. Reconfortante, mas não imprescindível, que nestas coisas muitas vezes a inteligência está adormecida nos domínios aveludados e fofinhos das mentes criativas.
Acontece que, para lá das colorações, há, acompanhando-as, agrupamentos de linhas, formas, inspirações, geometrias, volumes e mais uma parafernália de conceitos que são traçados para conjugar o que parece evidente ao especialista e que transforma em boi aquele que olham para este palácio.
Determinada cor, em determinada estação, servirá determinada tendência a que atribuem um nome, simples ou rebuscado, mas sempre coadjuvante. O verde-macieira - o nome da cor é de importância capital e quanto mais indecifrável, melhor - estará portanto apenso à orchard-trend, por exemplo.

O interessante é que estas malabaristas operações trazem incómodos constantes no seio de tanta inventividade.

Cada um destes grupos serve tipos bem definidos de consumidores. Assim, uma mulher cuja profissão a obriga a permanecer na direcção executiva de um país, tem um nicho, uma tendência, um quadro, um universo, especialmente pensado para a servir e a fazer consumir e que é naturalmente diferente daquele que o vizinho tresloucado com alguma propensão para fumar o que tolda o papagaio e faz tombar o gato.

Há sempre, e mais uma vez como exemplo, uma vertente digamos que étnica, ou estadual, como se queira, nesta aparente variedade. Padrões inspirados nos usados pelas texanas, formas desenhadas pelas californianas, acessórios baseados nos habitualmente pendentes nas raparigas em NY ou volumes antárcticos que nos lembram o gelo de Amundsen.

Sejamos práticas. Exageremos.

Ficaremos definitivamente fashion, estaremos sem sombra de dúvida a seguir uma das propostas, seja em qualquer ano ou eleição, se surripiarmos um dos slogans que nos mostram. Pode ser um de uma tribo qualquer - nestas coisas com glamour deixa de interessar o nome da origem - desde que suficientemente grande e majestoso para que nenhum fashion adviser coloque hesitação ou torça no que quer que seja. Escolher, por exemplo:

 
É evidente que, para o usar com alguma elegância, salvaguardando-nos da americana fonética - neste caso específico muito propensa a trumpalhada -, temos de ter o cérebro em condições de desfilar e sermos comedidas para evitar interpretações e internamentos compulsivos.

21.7.24

A Gaffe laureola

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo dos espelhos, para sulcar no curvar do corpo, a mais pequena folha do loureiro.

Fotografia - Gerardo Vizmanos

A Gaffe num pulso com pulseiras


A mulher tem o cabelo amarelo-torrado, preso na nuca por um gancho de plástico.É aos caracóis forçados por um ferro quente. Ondula no vestido justo, preto, com lantejoulas no decote vasto e tenta o equilíbrio nos sapatos com uma rampa de cortiça na sola e tiras que lhe apertam o peito do pé. Chocalha de pulseiras reluzentes.

Não tenho histórias para esta mulher. Procuro-as no que ouço e que vem do chocalhar das bugigangas, mas não há enredos nos pulsos. Há um chocalhar de círculos parecidos com os da vida.

A mulher de cabelo amarelo-torrado não respeita os acordos das ruas, não sabe escrever como dizem que é devido, tem a história toda contada nas rodas ao monte nos pulsos. Chocalham nos pulsos os elos sobrepostos da mulher de cabelo amarelo-torrado por um ferro quente.

Da vida ou das pulseiras, tanto faz.
Imagem - karen Turner   

20.7.24

A Gaffe de Bordalo

empre me causou algum desconforto a imagem que Bordalo criou para representar o povo. Ao contrário de toda a restante obra do artista, que me encanta ao ponto de a procurar como uma desalmada, o Zé Povinho - tantas vezes grosseiro, finório, saloiamente esperto, crítico mordaz, bebedolas, bobo ácido e disforme, injustiçado e consciente da lama que sabe escondida nos que seguram o poder -, sempre me causou alguma repulsa. Estou longe de simpatizar com a personagem, embora reconheça que acabou, não apenas uma criação de Bordalo, mas propriedade e símbolo de toda uma colectividade.

Ensina-me um amigo que Bordalo foi buscar Mayeux, o francês corcunda, lúbrico, disforme, de aspecto amacacado, criado em 1829 - outros dirão 1832, por Traviés -, que, também ele, encarnou como criação e encarnação de um povo.

Mayeux é um bobo acidental, melancólico, bêbado e chorão que gesticula, grita e perora. É um anão atrevido que Musset descreve na perfeição. Um enfant du siècle cuja fisionomia não pode ser alterada, porque defraudaria o público. Serve de exutório colectivo e assume um papel de projecção a todo o imaginário da Monarquia de Julho. É a caricatura do sublime louco, do palhaço grave, do bobo sério que joga com um aspecto simiesco, relacionando o homem com o animal. É próximo de Quasimodo ou da marioneta de Polichinelo. É a caricatura e é o caricaturista. É ridículo e tem o privilégio de dizer a verdade. É a primeira tomada de palavra colectiva que comenta a actualidade tornando-se polissémico, encarnando a figura do rei ou do povo de Paris. É o herói da palavra popular, o único que exprime a inquietação e a perturbação. É aquele que faz troça e de quem se troça, inaugurando a utilização do clown inglês na cultura francesa.
Robert Macaire apaga-o do imaginário francês criando Pera, o seu sucessor. Outros provocarão o seu desaparecimento definitivo, até o vermos transformado em Zé Povinho, já adaptado à paisagem portuguesa.

É curioso! Quando no pó remexemos, encontramos desilusões que nos reduzem ao pouco que somos ou que compramos numa barraquita de praia que traz areia colada e que mesmo alguma da simbologia que acreditamos que nos identifica é apenas um produto do que já foi dos outros.

Imagem - Norman Rockwell, 1926

19.7.24

A Gaffe laçada

No corpete de Maria Antonieta, Rainha dos franceses, existiam laços que, pecaminosos, tinham nomes consequentes das posições que ocupavam no tecido e nas varetas que sufocavam Sua Majestade.

As fitas que no lugar dos mamilos da Rainha se laçavam, eram os pequenos contentamentos e aquelas que desciam ao encontro do início do púbis, sem o tocar, apenas aflorando o caminho doce que a ele chega, a chave da felicidade.


Os laços e os nós são, na lingerie, a essência da feminilidade, imprescindíveis no jogo de sedução e do prazer e contribui de forma decisiva para que sejamos donas do universo em que o erotismo deixa marca.
São o modo como tecemos a teia e o primeiro vibrar anunciador da queda da presa.

Maria Antonieta, Rainha decapitada por uma França já perdida, reconhecia o poderoso apelo das laçadas mais íntimas. Sejamos pois absolutas soberanas no reino onde sabemos dominar.

Fotografias - Tina Patni 

A Gaffe dúbia


A Gaffe ouve condenar as mulheres que têm duas caras.

Um disparate!

Não há nada errado em termos duas caras, desde que uma delas seja desumanamente bela.

 

Na foto - Leni Riefenstahl, 1998

18.7.24

A Gaffe da lamúria


A Gaffe diverte-se imenso quando ouve um rapazinho bramindo ofendido que agora não se pode fazer nada a uma mulher.

Meus queridos, quando é que vos foi permitido fazer tudo?
ilustração - Celia Calle

A Gaffe por condecorar


Tive o mais embaraçoso dos pesadelos de que há memória.
Descontraída e etérea, no aconchego das minhas mais íntimas e prosaicas tarefas, leio a revistinha onde é fotografada a aventura de Leonor de Espanha por terras onde falta o salero e abunda a condecoração e descubro de súbito que estou sentada a fazer xixi numa sanita daquelas casinhas IKEA.

Duas princesas, sendo que a de Borbón y Ortiz foi condecorada pelo presidente com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo que distingue destacados serviços prestados ao país no exercício de funções de soberania, mas que nesta altura é apenas um beijo e um abraço à nossa amizade para sempre.

Estes afectos movem presidentes.

A Gaffe admite que abraços e beijos conduziram a uma dúvida daninha que roeu a imagem que esta rapariga esperta guardava, ainda que esbatida, do senhor presidente.

O povo que o senhor presidente beija e abraça e diz defender, responde positivamente à carência de popularidade do senhor presidente, mas não é um povo carente. É um povo desesperado, espoliado, só, isolado, queimado, na miséria, sem apoio e com uma estrutura administrativa cravejada de burocracia, mas que encontra dentro da desgraça o velhíssimo espírito português - ou alma lusa, como vos aprouver e seja lá o que isso for -, com força para plantar todos os pinhais de caravelas de coragem.

O afecto dado, arregaçado e babado, à princesa menina que o senhor presidente dos afectos condecora, transforma-se numa macacada pacóvia que atinge demasiados espaços do apelidado universo português reduzindo-o a uma sanita daquelas casinhas IKEA, a uma amorfa cambada de cretinos parolos, sem critérios que não sejam os dominados pelo livrinho de autógrafos e pelo poster moncoso, foleiro e palerma, colado a força de saliva na parede da mediocridade.

Na fotografia -Barbara Dobbins por Edward Clark, 1951

17.7.24

A Gaffe do petiz


Tenho um amigo muito querido que me diz que Cupido é um débil mental pronto a disparar o que não controla, sem nenhum sentido de orientação, sem a mais pequena réstia de bom senso e sempre disposto a alçar a patinha nas nossas pobres almas atingidas.

Suponho que tem razão.

Às vezes o Amor é como um miúdo tonto que fica preso nas teias e telas do Império. Basta a rispidez da vida para que desate a chorar e se desfaça.

Acredito, no entanto, que esperamos sem interrupção que este doidivanas nos surja de repente e que nos faça sentir o que no mais perdido de nós desejamos sempre: as coisas mais simples, mais claras, mais límpidas, essenciais e únicas, como terra, água, ar, noite, dia, casa, árvore, pássaro, livro, um cão e, apertado num jeans, um rabo lindo de nos fazer cair para o lado comovidas.

Cupido torna-se admirável sempre que nos agarra a mão e nos entrega a sensação de eternidade em troca de nada e nos faz sentir que somos, desde o princípio, naturalmente capazes da indiferença, mas que amar exige uma árdua aprendizagem.

A Gaffe "não sabe nadar yo"


A Gaffe já passou férias num país africano encantador e embora não tivesse visitado os bairros mais pobrezinhos - pois que o Hotel distava horrores desses lugares e não se encontraram guias com bom aspecto -, está em condições de confirmar que os africanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova de nojentos.

A Gaffe fica sempre estarrecida quando vê aqueles africanos acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

A Gaffe está decidida.

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença -, e Ventura para equilibrar e assim ladeada por estes extremos extremosos, para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa.

Os três, unidos como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres africanos pretos também não. A Mortágua é só par contrariar. 

É um sacrifício que nos fica bem.

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os africanos uns dos outros.

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

A igualdade.

São todos iguais e esse é o detalhe que confunde as criaturas!

É assim que as pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.
As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?

A Gaffe tem conversado imenso com a senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de a acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá.

16.7.24

A Gaffe pin-up



Toda a rapariga esperta traz as garras recolhidas. É um tigrezinho sonolento à espera que o vento descontente lhe pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas secas onde preguiçoso se alonga a ronronar. Mas, embora sabendo que nada se abra mais por engano do que a boca, nós, raparigas, somos realmente tagarelas - e mesmo assim, não conseguimos dizer tudo o que sabemos.

Talvez por isso fosse interessante esquecer, a demência que grassa no que a Gaffe rabiscou ontem e que parece saído da converseta de um grupinho de esgrouviadas liderado pela mais reguila, mas a Gaffe admite que se deixou levar pela pretensão de augurar um futuro de desilusão. Podia ter sido uma avalanche de palabrotas bem interessante se reportasse à contaminação sublimada do poder do estereótipo pelo tabloide e se abordasse o significado do encontro entre vedetismo e mito. Mas a Gaffe não anda com paciência, por isso acabou por não dizer absolutamente nada que valha a pena ser dito - o que é frequente.

Adaptando a máxima do filósofo, cuidado com a fúria de um homem paciente, ao estado de irritabilidade que assolou a Gaffe, poder-se-á afirmar que urge acautelar as portas de uma rapariga mimada, snob e abespinhada. Geralmente, embora esperta, escolhe bater com elas, até escacar as maçanetas, ou estalar em fúrias contra Trump, a ter de enfrentar as dunas dos diálogos mais solares.

No entanto, a Gaffe sempre considerou que que numa discussão acalorada, sendo portadora da razão, se irrita e desanca o oponente com a força dos argumentos certos gritada alto e bom som, há sempre quem diga muito de mansinho e com uma benevolência paternalista própria de idiotas:

- Perdeste a razão quando gritaste.

Nada mais incorrecto.

A razão, se a temos, resiste a tudo quanto é berro, gesto, beijo ou birra e fica, se já lá estiver, do nosso lado mesmo que pelo ar chovam os chinelos.
É bom que este facto fique bem assente ou teremos de lançar fogo ao primeiro traste que vier dizer que se a Gaffe desatar aos berros, perde a razão toda, mesmo quando a tem bem segura.

A razão é como a sardinha numa lota. Tanto se apregoa aos gritos, como se mostra fresca e muda na canastra. Em ambos os casos não se transforma em chispe.

Pese embora o alvoroço de ontem, a Gaffe é naturalmente fútil.


A Gaffe não é miúda de grandes e eruditos ensaios e por não preencher os parâmetros exigidos para ser introduzida nos círculos mais famosos, fica aberta a possibilidade de se transformar em pin-up idiota, recortada em papel e em poses divertidas e marotas. Uma pin-up de cartaz e somente isso.
Às vezes a vacuidade é abençoada. Nós, que apenas somos raparigas espertas, acabamos por parecer loiras de anedota tonta e patética, mas é a futilidade consciente que nos permite falar ao mesmo tempo do baile de Cortez e do corte de uma saia Valentino.

É tão bom ser fútil e palrar acerca de tralha inútil!
Dizer, por exemplo, à boca cheia, que as cores do Verão 2025 são definitivamente e de todo o amarelo mostarda e o lilás dramático.
Com o amarelo mostarda a Gaffe passa bem. É fácil identificar a cor comparando-a com as nódoas que os petizes trazem do McDonald's. Agora o lilás dramático é já qualquer coisa que faz alguma confusão. Não se sabe exactamente ao que nos conduz o dramático que vem colado ao lilás.
Não é a primeira vez que a Gaffe lê nas revistas da especialidade referências a cores que seriam identificáveis de imediato se não viessem com apêndices que as limitam a determinadas emoções ou estados ou qualquer outra coisa parecida.
A Gaffe já se encantou com a saia vermelho ópera, com o casaco azul emotivo e já tropeçou com a carteira um preto nostalgia.
Temos de admitir que desta forma uma rapariga fica alterada e acaba por fazer figura de imbecil - sofisticada, mas imbecil - quando entra numa loja do melhor, na Baixa, e declara a meio do atendimento que adora aquele fabuloso soutien de renda, mas que o prefere em branco entusiasmado ou, em alternativa, em azul melancólico.
Estas pequenas armadilhas podem fazer todo o sentido no linguarejar dos grandes costureiros, mas não são, de todo, práticas e arruínam a reputação de qualquer rapariga esperta que acaba por ser vista como uma totó oxigenada, ou loiro açucareiro, com a mania que é íntima do Dior.

Basta!

O mundo seria tão mais simples e feliz se não existisse aquele laranja vomitado.

15.7.24

A Gaffe "trumpolineira"


É uma tontice lançar perdigotos contra o atendado a Donald Trump declarando que este estilhaço acaba de lhe entregar a vitória. O senhor tem ao seu lado fanáticos suficientes para vencer - mesmo com a orelha completa.

Afro-americanos, gays, emigrantes nacionalizados - eu entrei, mas tu já não entras, carago! - latino-americanos, donas-de-casa desesperadas, mulheres saídas dos formigueiro de gente de todos os lados e cores e muito mais que não se diz por ser chocante - decidiram há muito dar mais crédito a um criminoso com ditos alarves iguais ao penteado, do que a um senhor com séculos de corrimãos, esquinas, vãos, escadarias, alçapões, caves e corredores políticos, com um cabeleireiro que também não é exactamente o mais apropriado.

É evidente que é negada indulgência a Biden. A implacabilidade com que são abanados e achincalhados os seus assustadores erros crassos no desastre de um debate, contrasta com uma espécie de benevolência, um tudo ou nada cúmplice, com que se ouvem mais uma vez os petardos misóginos, racistas, machistas e xenófobos do rival, mas existem neste saco mais uma vez os picotados que ajudam a adivinhar o resultado desta eleição - democrática, sublinha-se.
Trump, já com experiência política, continua a cuspir uma verborreia populista, fanfarrona, mentirosa e temerária que encontra eco num país que - diz o humorista - não existe, o que existe é publicidade, enquanto Biden arrasta consigo os pés, as pernas e um mandato de inoperante imobilidade, tempo e cargos mais do que suficientes, para alterar os slogans das oligarquias.

É claro, dizem os entendidos, que a economia americana, ao contrário do apregoado pelo republicano, cresce de modo saudável, que a taxa de desemprego diminuiu significativamente e que Biden não conseguiu cumprir parte significativa do que havia prometido porque esbarrou contra mecanismos institucionais e constitucionais - democráticos - que muitas vezes travam o bom senso e a possibilidade de se ver instalada a noção clássica de democracia. São estes mesmos mecanismos, institucionais, constitucionais - democráticos, mas agora corrompidos - que provavelmente deixarão de poder travar os surtos psicóticos do futuro ocupante da Sala Oval.

A vitória de Trump é um facto incontornável e é irritante ver passar a torrente de indignação digital generalizada e inútil, erguendo as trevas de um holocausto nuclear, temendo as fogueiras da Inquisição, da xenofobia, da homofobia, do machismo ou do obscurantismo sexual, escurecendo com muros de vergonhas pagas pelos mexicanos ou transformando Putin num Maquiavel de pacotilha, capaz de erguer a Rússia como uma potência planetária, manipuladora dos destinos dos povos e dso países.

Chocarmo-nos com esta eleição de um psicopata é o mesmo que criticar o plástico de Melania Trump, a decoração do apartamento do eleito pelo povo americano ou discursar como os comentadores dos Jornais das Nove que já conhecem o resultado desta eleição, mas que continuam a debater as evidências porque que são fáceis de enfiar no rabo dos que as ouvem.

É tragicómico.

Trump é já o novo Presidente dos Estados Unidos da América.


 fotografia de David Fenton - Marcha contra Hubert Humphrey, NY - 09 de Outubro 1968


Nota de rodapé - Entretanto a nova primeira-dama reage condoída, referindo-se ao perturbado responsável pelo atentado:

Um monstro que considera o meu marido uma máquina política desumana tentou extinguir a paixão de Donald, o riso, a criatividade, o amor pela música e a inspiração.

Stormy Daniels

(perdão, Melania Trump)



A primeira-dama prova outra vez que não vale a pena casar por alguns tostões. Embora sejam o aborrecimento e o dinheiro que mais casamentos fazem depois do amor, não é de todo aconselhada a via das finanças. Pedi-los emprestados sai sempre mais barato. É injusto chibatar a senhora apenas porque percebeu que se tinha a possibilidade de viajar em primeira não podia permitir que outra o fizesse.
Melania possui uma espécie menor de elegância - a forçada. É uma mulher elegante à força. Desde que se mantenha calada, sem se mover muito, de perninhas juntas e mãos cruzadas, disfarça a total ausência de carisma e de charme - características essenciais à elegância genuína - e é palerma rasgar-lhe os maravilhosos D&G que usa para pedir ao marido que lhe benza o terço.

Melania não causa dano. Não sabe. É bonita e basta.
Mais uma vez, meu Gentilíssimo Cavalheiro, encontro em si um lugar onde me posso sentar e ficar pelo tempo contado dentro, a ouvir falar das coisas que me falham, porque me faz acreditar que há sempre um lugar perto de lareiras, de clareiras, aninhado num sofá florido, embrulhado numa manta da Serra, de carapins tricotados pela avó, enquanto chove e troveja nas varandas deslumbrantes do sossego. Obrigada.