31.7.22

A Gaffe desperdiçada


Conheci há alguns anos um rapaz deslumbrante.

A sensação que tive quando o conheci - passava ele por Paris numa fugida - manteve-se quando me convidou para jantar: claridade. O homem parece ter luz e consegue que nos sintamos contagiados pela luminosidade que esbanja.

Uma rapariga esperta, mas com tendência para beber mais do que deve, não pode ficar incólume a mais de dois metros de músculos - os peitorais do rapaz ficaram ao nível dos meus olhos e a paisagem que avistei fez com que sentisse que já tinha bebido mais do que podia para, como diz o povo mais dos picos, segurar os sherpas. Loiro, mas com a vantagem de facilmente bronzear por ser uma mistura genética de nórdicos magníficos e de latinos fabulosos; de perigosíssimos olhos azuis acinzentados; covinhas nas bochechas; um sorriso que pode provocar catástrofes ecológicas ao derreter os icebergs e uns jeans coçados e apertados no rabinho que por si só nos destrói por dentro e nos arrasa a concentração. De fazer tresloucar de desejo a Madre Teresa.

O homem é, ainda por cima, inusitadamente culto e inteligente.

Falou-me da sua enorme paixão pela pintura flamenga, da obra de Rachmaninov para piano e dos seus desencontros com os pensadores marxistas.
Uma tontura.
Acabei por me sentir ainda mais pequerrucha, o que equivale a dizer que os meus olhos deixaram de bater nos peitorais do rapaz para se fixarem em sítios menos próprios.


O Douro, que é uma das regiões mais deslumbrantes da Europa, perde todo o fascínio ao lado daquele aglomerado de beleza masculina.
Este semideus urbano, culto e sofisticado, gentil, cosmopolita, viajado e aventureiro, é reconhecidamente promíscuo. Não resiste a mais leve brisa da paixão que dos corpos se escapa mal os olhos pousam no seu andar descuidado ou no seu rabo digno de figurar nos catálogos do MET.
Como seria de esperar, os meus caracóis encarapinharam mal revi este exemplar tocado pelo divino. Morria já ali, aos pés do olhar sedutor daquele que preenche todas as fantasias, das mais puras às mais escabrosas, de todas as raparigas com dois dedos de testa e muitos mais de inconfessáveis efabulações.

Como sabemos, nós, raparigas já escaldadas pela realidade crua e dura que destrói qualquer ilusão mais trabalhada, um homem que reúne as características que descrevo, tem de ter esqueletos escondidos algures.

No caso do meu anfitrião, o pretenso esqueleto – e que esqueleto! - é um mulato espantoso, de nos fazer desmaiar ofuscadas e todas corroídas de inveja, que me foi apresentado no final do jantar.
Às vezes fico a pensar com os meus pequenos alfinetes e bonitos broches, se Deus quando fez aqueles dois, não tinha a pomba por perto a esbardalhar-lhe o discernimento.
Então não nos vai deixar, a nós que somos giras, agarradas apenas à bebida, sem poder sequer provar um bocadinho do céu?!

Os caracóis voltaram ao normal - já que a dona nunca mais se endireitou -, quando me conformei com a realidade. O rapaz tinha namorado - o O final é para manter - e que o namorado era, como se tal fosse possível, um mulato de saxofone à tiracolo, desmesuradamente belo, que rivalizava em sedução com o causador da minha mais entristecida frustração.

Creio que neste embate a confiança que depositava nas minhas avaliações relativas à orientação sexual dos semideuses ficou comprometida.
Não que me cruze assiduamente com diamantes com quilates difíceis de contabilizar, mas os zircões que por mim passam deixam um rasto de suspeita no elenco da minha pequena e reduzida colecção de orientações sexuais conhecidas.
É evidente que uma rapariga esperta não desata destrambelhada a catalogar tudo o que lhe passa pela frente. É maçador e dá uma trabalheira idiota, para além de ocupar imenso espaço necessário para assuntos de real interesse, mas convém rabiscar no nosso moleskine interior que nunca há bela sem senão e que normalmente o senão, por ínfimo que seja, impede a realização dos nossos projectos mais ousados.

Perante as montanhas intransponíveis ou diante dos mais irrisórios contratempos que na nossa frente entravam o percurso, o ideal é relativizar os danos e com os ingredientes que nos são oferecidos, apaziguar a voracidade implacável daquilo que mais queremos.

No caso presente, o prazer das horas passadas a trespassar o mundo, nele viajando sem sair do sítio, guiada por um loiro ofuscante ao som de um mulato saxofone, acabou por me gravar na memória o grafite que vi há muito tempo, numa parede baça algures em Londres e a que na altura só achei piada:

 


My sexual orientation?


A LOT!


30.7.22

A Gaffe caminhante

Daniel Serva   
Há uma grande probabilidade dos presidentes dos Estados Unidos morrerem podres num rancho qualquer na Califórnia ou no Texas. Isto, claro, se ninguém se lembrar de os assassinar primeiro no meio da peça ou no centro da avenida.

É certo e sabido.

A morte de G. Ford - no seu rancho californiano, evidentemente -, e as passeatas que por aqui faço com a minha avó, recordaram-me, não o famigerado e infeliz presidente que sofreu a desgraça de substituir o escabroso Nixon e padecer do fracasso vietnamita, mas - sofra-se a confusa miscelânea presidencial -, Mrs. Nancy Reagan.

Uma mulher nunca é demasiado magra.

Esta máxima, elaborada pela cowgirl que casou com o homem que achava que as árvores eram causadoras de danos ambientais, pode ser considerada pretexto para os gigantescos passeios de início de Primavera com que, pela tarde de fim-de-semana, eu e a minha avó queimamos calorias.

Esguia, delicada, delgada e subtil, a minha avó jamais poderá amaldiçoar as suas inexistentes gorduras, flácidas rotundidades ou circular corpulência, mas a fogueira que insiste em atear nestes passeios tem como único objectivo o calor cúmplice, exclusivo, que se cria entre ambas.
Diz-mo enquanto encosto a cabeça ao seu braço, pendurado nele que me envolve.

Descubro que há diversos e distintos modos das pessoas que mais amo caminharem comigo.

Prendo o meu corpo à minha avó como serena trepadeira, mimada, terna e doce, com a certeza de que o muro é bem sólido e que posso deixar que as folhas se espraiem sem medo ou queixume.
A minha mãe, namoriscando, tomba presa no meu pulso, como uma breve e minúscula pulseira de oiro batida pelo sol.
O meu pai caminha comigo como se eu fosse um alfinete de gravata: dispensável, mas que se quer mostrar, porque se ama.
A minha irmã leva-me com ela, mas nunca vem comigo.
A minha prima pendura no meu braço o seu corrosivo humor, a sua indomável inquietude e a sua irresistível obstinação e rebeldia e transforma-se na mais aventurosa das cúmplices, na mais destemida aliada. 
O meu irmão é bem maior que eu. Caminha comigo e sei sempre onde piso. É como ter um mapa e uma bússola, sextante e astrolábio. Sabemos onde fica a estrela certa.

Mas só o meu avô sabia caminhar sorrindo devagar toda a jornada. 


29.7.22

A Gaffe toda bélica


Pensava esta rapariga tonta que - por muito que esperneassem as passerelles -, as levi's 501 seriam sempre a cara dos rabos bem feitos.

No entanto, a Gaffe aplaude o direito que temos a dar o dito por não dito ou, pelo menos, a corrigir a mão.

Há rabiosques presos noutras paragens que, de tão irrepreensíveis e exemplares, nos fazem tombar deslumbradas em qualquer lado, mesmo sujeitas a apanhar com um camião pela frente e esbardanhar a maquilhagem.

Como diria a avó - a Gaffe nunca chegou a entender por completo o alcance deste aforismo, - os homens não se medem pelas calças que usam, mas pelo que são, lá dentro

Posto isto, são um choque, a polícia de choque e as legiões de brutamontes que desarmam qualquer uma.

A Gaffe está escandalizada.

Aonde estão os polícias pachorrentos, bonacheirões, gorduchos, fofos, que ajudavam velhinhas a atravessar, que paravam de bloco de notas debaixo do braço cruzado só para nos deixar passar, que escondiam o casse-tête com a barriga e que tinham um apito lustroso com que arbitravam os jogos da pequenada?!

Andam aonde os militares finguelas, franzinos e frágeis, que povoaram a nossa liberdade?!


Os actuais são matulões hirtos e firmes como barras de ferro; umas cavalgaduras mal-encaradas; com fardas que ficam um mimo naqueles rabos; com queixos quadrados e másculos; olhos de lince, lábios de mosto, quem faz um filho falo com gosto; peitorais talhados em mármore; coxas de embondeiro; armas por tudo quanto é canto - e os recantos que eles têm! -; sempre prontos a disparar e dispostos a torturar, a espancar e a insultar a gente pobre que, como é sabido, não tem princípios, não olha a meios e que no fim, é bom de ver, acaba como o Lula: grelhada.


Acrescentando a estas ameaças, é certo que se olharmos para o lado, o que vemos pode ser belicamente assustador, mas tudo se perdoa se o que temos pela frente é uma belíssima promessa de lides mais prazenteiras.

Uma canseira ...

A Gaffe KATRAPUMBA

Convenceram-me e eu fui.

Não devia.

Empurram as minhas razões para dentro de uma t-shirt com um passarito estampado e enfiaram as minhas desculpas numas calças largas de algodão fresco desmazelado.

Arrastaram-me.

Devia ter fugido no momento em que se distraíram a escolher o KATRAPUMBA. Havia algumas variantes e o tempo dispensado à atenta selecção permitia escapar pelas frinchas da concentração alheia, se conseguisse desatar a correr. Infelizmente não corro, nem atrás do autocarro.

A aula provavelmente era de Zumba, mas podia ser de Kizomba, Bumba, Rumba, Tumba, ou mesmo um ritual primitivo de celebração das divindades pagãs, todas juntas, melífluas e trovejantes.

À minha volta apenas mamas desarvoradas, a balançar mesmo apertadas; uma senhora que se espancava com as dela; um homem que segurava as dele enquanto deixava o resto oscilar; pernas e pés pelo ar, a ameaçar disparar as sapatilhas; gente a abanar, a pinchar, aos pulos; pilas todas contentes aos saltos prontas a atingir os olhos dos parceiros; rabos ensandecidos mascarados de Zorro; fios dentais nos dentes de trás e TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA, a música que só de ouvir já emagrece.

No estrado, uma jovem, tão jovem, que jovem era, vestida de wonder-woman, com um micro encastrado e mamilos de fora do fato protector, tentava sobrepor-se àquela sublevação de incendiados, incentivando as filas tresloucadas.

- ‘BORA LÁ, PESSOAL! UM-DOIS-TRÊS PARA FRENTE! TRÊS-DOIS-UM, LATERAL!!!

Estarrecida, enfiada cá atrás, entre uma senhora desfeita em banha, quase frita, quase a asfixiar e prontinha a sofrer uma apoplexia, e um balde de suor que tinha sido um cavalheiro, tentava manter a sanidade, abanando o rabiosque e protegendo as maminhas, no espaço que me cabia em sorte.

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA-TUMBA-TUMBA...

- ‘BORA LÁ, PÊSSUAU! TUDO JÓIA? NUM DÁ MOLEEEEZA, NÂUUU!

A mulher é brasileira.

Não! Ela explica.

- NÃO QUERO OFENDER OS BRAZUCAS DA MINHA AULA! SOU ASSIM. DE VEZ EM QUANDO É ISTO! PRONÚNCIA BRASILEIRA PARA DAR FORÇA. TAMBÉM FAÇO A DE VIJEU E A DO PUARTUUUU!!!!

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA…

E finaliza:

- EU SOU COMO O EÇA E OS SEUS HOMÓNIMOS. ‘BORA LÁ, PESSOAL!

KATRAPUMBA.

O que me salvou foi a Tinoco que terminou a aula. Para acalmar que a moça é pacata.

28.7.22

A Gaffe perde o vício


Todas as raparigas espertas sabem como é fácil tombar perante o charme indiscreto de um sacana que lhes vai, cedo ou tarde, arrancar o coração para o levar à boca, mordendo o que de ingénuo existiu nos seus ventrículos ou o que de ilusório restou nas suas aurículas magoadas.

O patife sedutor é sempre um pesadelo que desejamos ter. Um conflito de interesses entre o coração e a razão. Por norma escolhemos ocultar a segunda para não impedir o primeiro de saborear inconsciente e tonto os frutos envenenados que estão ao seu dispor.
O reconhecimento do patife que queremos que nos seduza, mesmo sabendo que esta sedução é o primeiro passo que é dado em direcção ao nada, é dificultada pela cegueira momentânea que nos atinge, pelo fumo denso do cigarro malandro, pela vontade descontrolada de corrermos riscos e pela atracção que sentimos pela velocidade com que se move a roda que nos vai triturar. Somos como um passageiro passeando lento pela gare onde espera o rotineiro comboio que o levará à terra e que é quase sugado pela deslocação de ar quando por ele passa o TGV. Se não parar a tempo, se não se aperceber do perigo, será catapultado para outras paragens pregado ao focinho do monstro que passa.

Somos aspiradas, sugadas, sorvidas e deixamos que o sopro atraente do Inferno na boca deste homem nos transforme em cinza o coração.

É evidente que nos vamos apercebendo do previsível resultado deste encontro maldito. Adivinhamos a sorte que nos coube em sorte e o consorte que nos deu o fado.
A brasa do cigarro sacana nos lábios do homem que nos vai queimar é quase sempre bem visível no escuro em que se pode tornar a nossa vida. Basta que a vejamos antes da noite e que arranquemos da boca do patife o que lhe resta, transformando o infractor no cinzeiro onde se abandona a cinza do nosso desejo satisfeito.

Ultrapassando o famigerado em casa de ferreiro, espeto de pau e tendo em conta que quem com ferros mata, com ferros morre, para sacana, sacana e meio ou olho por olho, dente por dente ou ainda e já a bastar cá se fazem, cá se pagam, a Gaffe enrola os ditados populares e incendeia a extremidade oposta à que lhe permite a passa, no enganador que foi usado e que agora não é mais do que uma ponta apagada do passado num cinzeiro qualquer já esquecido.

A Gaffe da pilita


A Gaffe decidiu reencontrar-se com Lídia Jorge.

A implicância que sentia tinha origem na imaturidade com que abriu uma das suas obras num cais de Verão adolescente e sem murmúrios.
Percorre com o dedo os volumes sossegados, abre o sorteado, procura-lhe um parágrafo e abandona-o sem desperto interesse. Volta a abrir uma página ao acaso e sobressalta-se.

Lídia Jorge chama à pilinha de um dos seus heróis espingarda de carne.


Yourcenar, em tempos idos, chamou-lhe canhão. Admite-se que a poderosa belga use uma artilharia mais pesada - afinal conviveu com imperadores -, mas não é admissível que se chame à pilinha seja de quem for espingarda de carne. É tão tolo como lhe chamar pirilau que lembra de imediato pó de talco e creme para assaduras.

Há que encontrar uma certa dignidade neste baptismo tão íntimo.

A Gaffe não acredita que dar à pilinha um nome familiar resulte. Chamar-lhe Adalberto ou Zézinho não convence ninguém e corre-se o risco de ver o primo afastado e de quem não gostamos acorrer ao nosso chamamento. Eventualmente a pilinha do primo não se chamará assim. Chamar-lhe Bernardette ou Lourdes apesar de evocar o Moulin Rouge pode parecer também que nos vamos pôr a rezar logo que ela chegue, dada a conotação religiosa apensa aos nomes das senhoras.

Atribuir à pilinha nomes de objectos, apesar de ser um interessante exercício de associação, pode levar a desilusões deprimentes. Chamar-lhe martelo tem força, mas pode-se acabar com um de S. João e a subvalorizar os pregos. Mastro é bastante visual, mas existe sempre o risco de termos o casco a meter água.

Não adianta muito o uso de vernáculas denominações. Não particularizam. As generalizações são sempre falhas de imaginação e excluem todos os pormenores identificativos de personalidades mais originais.

A Gaffe sugere que o nome da pilinha seja escolhido pelo par. O duo terá com certeza o cuidado de evitar conexões demasiado bélicas e harmonizará a escolha de modo a que faça pendant com outros atributos, reconhecendo que chamar à pilinha espingarda de carne é sempre um tiro pela culatra.

27.7.22

A Gaffe num pombal

Robert Collett - zoologista 

Há pombos por todo o lado. Há bandos deles nos centros das cidades que se transformam em manadas quando comem.
Não gosto de pombos. De olhos redondos e sinistros, com as cabeças que se inclinam num perfil quase ameaçador quando nos miram e com aquele arrulhar asmático medonho.

Vi uma vez um pombo a ser estraçalhado por uma gaivota. Cheguei a pensar que aquele massacre e o debater silencioso com que o animal era apunhalado sucessivamente, me faria solidária com a vítima, mas não. Fiquei a detestar também gaivotas.

Hoje vi, a caminho daqui, um homem numa praça rodeado de pombos. Tinha-os nos braços, nas mãos, nos ombros e um a debicar-lhe a cabeça. Não sei que idade tinha. Não sou boa a atribuir velhices. Estava na casa dos setenta. Dizer-se que se está na casa de qualquer idade, é razoável e minimiza o erro de avaliação das rugas.
O homem trazia nos bolsos pedaços de pão que esfarelava e oferecia. Os pombos cobriam-no e esvoaçavam largando um cheiro húmido e morno, nauseabundo.
O que me impressionou foi a seriedade com que tudo aquilo decorria. O homem olhava as pessoas que passavam com uma solenidade deslocada. Havia uma espécie de orgulho naquela exibição patética de poder. Um quase exibicionismo circense de domador de feras. Uma poética miserável colada à atitude demasiado séria e compenetrada do acto de dar migalhas a pombos numa praça repleta de gente indiferente.

Lembrei-me da gaivota que tinha visto a matar o pombo e percebi que naquele homem havia uma crueldade parecida. Ambos, homem e gaivota, exerciam o mais ínfimo dos poderes, a mais enviesada das tiranias. Tinham, nas mãos e no bico, a capacidade que os tornava sérios, de reter, controlar ou aniquilar o voo dos outros. Um alimentando-o, outra dele a alimentar-se.

A Gaffe sitiada

Armindo Lopes
Este rio é um homem nu em desleixo premeditado, pousado na terra como se estendido numa cama de opalas.

Este é o rio que me prende, que me deixa de olhos atados e que me sussurra as razões das minhas algemas-socalcos.

Este é o rio do adeus vagaroso, porque lentas devem ser aqui as partidas para que a memória retenha e resguarde todos os momentos em que o granito, a água e o ferro nos entram na alma que percorre as vielas do sonho, mesmo as que sabemos não passar de cinza.

Há lugares onde ficamos presos para sempre. Como se quiséssemos ou como se fosse esse o nosso fado. Como importasse muito ter um chão, um céu ou uma árvore.

Há lugares onde acordamos sempre por mais longe que seja a nossa terra agora.

Há lugares imutáveis dentro dos nossos olhos, cegos nos caminhos que não temos.

Há lugares onde a água corre e onde morrem árvores e nascem depois árvores que vão depois morrer por onde passa a água.

São os lugares que nos estancaram o peito no instante em que soubemos que o nosso chão, as nuvens e as árvores que morrem por onde a água escorre, são apenas os braços dos abraços que perdemos.

Vamos por dentro.

26.7.22

A Gaffe para turista ver


Porto - João Bernardino

Num tempo que já lá vai, descíamos - a minha Avó e eu minúscula -, os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias de séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

Entro na Disneylândia!

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.
Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.
A reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 Não há portuenses a viver na Baixa do Porto. Há Hostels
Business is business, mas tem de haver mais vidas.

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.


A Gaffe e um "pas de deux"

Gaston Bogaert - Entre chien et loup
Há uma expressão francesa que me agrada imenso:

Entre le chien et le loup

É crepuscular. Define o período de tempo em que a tarde declina, resistindo ao avanço da noite. Dura alguns minutos e torna os gatos menos coloridos e pardos os olhos das ruivas.
Se esmagarmos o tempo de duração deste momento, o contido na expressão é ajustado às mulheres inteligentes, aquando das suas incursões pelas savanas das avenidas.
Há um espaço ínfimo, uns segundos imprescindíveis, um bater de garra recolhida, no instante em que elas percebem que podem atacar a jugular dos outros.
É indispensável que a vítima não tenha a mínima noção do decurso do instante. É necessário que não entenda que a ternura, o canino enternecimento, a macia mansidão, brandura, benigno olhar em suavidade emersa, é já lampejo cru de sanguinária fera.

Não há nada melhor e de eficácia garantida do que armadilhar a tarde que vai ganhando sombras.

22.7.22

A Gaffe aracnofóbica

Stephen Mackey
Matei uma aranha.

Pequena, mas gorducha, presa por um fio ao meu sapato.
Ainda pensei salvar a pobre colocando-a em lugar seguro, mas imaginei-a adulta, gigantesca, gorda, peluda, de pernas musculadas, olhos negros, fixos, e quelíceras ameaçadoras, pousada na minha almofada à espera do meu acordar e de me ver esbardalhada no tecto, aos gritos.

Matei-a.

Depois senti remorsos e um ligeiro receio oriental de karmas pouco lisonjeiros, mas o assassínio estava cometido e há muito que deixou de haver hipóteses de se repetir o episódio de Lázaro.

Como se diz no Douro: andar, que se faz tarde.

Este macabro episódio faz-me saltar à ideia a forma como por vezes aniquilamos os inícios, sobretudo os que se esboçam quando encontramos alguém significativo pelos caminhos que resguardamos dos outros.
Normalmente receamos o estado adulto de uma relação que implica uma serenidade e confiança que nos habitua ao silêncio mútuo sem qualquer constrangimento ou então temos medo que envelheça, eternamente adolescente, massacrando-nos os dias com emoções que os estudiosos dizem ser primárias e que identificamos como ciúmes, posse ou desconfiança com alicerces no inseguro, na instabilidade emocional ou na imaturidade pura e dura.
O nosso coração tem o desagradável vício de bater afastado da lógica e, já o disse imensas vezes, quando o amor se levanta, a razão fica de joelhos.
O receio de ficarmos em coma induzido, sem qualquer controlo da vida que deixamos entretanto de sentir como nossa, porque acaba pertença do indivíduo que detém a máquina sem conhecer os ditames do nosso Testamento Vital, provoca a agressão ao que começamos a experimentar. Temos medo, não só de sofrer a anulação do que somos, mas também de sentir que a certeza do fim está implícita em tudo o que tem começo.
Estes receios, aliados a tantos outros que estão apensos a cada um de nós, não sendo comuns à multidão, transformam-se no sapato que esmaga a gentil aranha ainda bebé.
A fera peluda e negra que imaginamos pousada nas travesseiras com que almofadamos a vida é por antecipação morta ou, quando surge presa ao sapato de gente com um coração melhor que o meu, deportada, ainda que apenas ameaça imaginária.

Somos quase sempre cagarolas. Sentimentalmente aracnofóbicos.

No entanto, e para se vingar, a vida entrega-nos o paradoxo de ao mesmo tempo desejarmos que a dura nudez da razão ilumine a ténue teia do irreal que vai prendendo os nomes que esvoaçam nos nossos corações.

21.7.22

A Gaffe e os homens feios


Tenho um amigo, de uma beleza invejável, cruzamento, demoníaco de belo, de genes latinos com nórdicos, que num dia chuvoso já passado, perante babadas criaturas de todas as espécies - lembro-me que havia um cão hipnotizado pelos olhos cinzentos do rapaz -, desfiou num murmúrio vagamente melancólico, uma das mais extraordinárias frases que eu já ouvi:

- Deve ser bom amar um homem feio.

O dito ficou a remoer a minha pobre alma de menina e moça, suavizando, apesar de tudo, o redemoinho infernal que me provocava a visão esplendorosa daquela criatura.

Hoje, mais crescida e mais serena, longe da perturbadora imagem do belo rapagão, consigo, ainda que de modo inábil, entender o alcance daquela espécie de confissão tristonha.
Creio que deve ser realmente compensador amar um homem feio - desde que não seja o Mário Crespo.
Admito, como toda a rapariga esperta que se preza, não ser a fealdade um dos esteios que suportam a certeza de que o homem nos será fiel ou mais amante. A nossa segurança, autoconfiança, convicção, inteligência, lingerie ou a nossa capacidade de manter ao longe a concorrência, nem que seja ameaçando com garfos ferrugentos os olhos das rivais, são, entre tantos, alguns mais eficazes instrumentos para que se cumpra o estipulado.

Há, no entanto, o fascinante efeito Cyrano.

As armas do meu melancólico amigo de dias mais chuvosos, estão de tal forma visíveis e palpáveis - enfim, sonhar não custa -, que mesmo que fossemos amadas por ele, sentiríamos em simultâneo que esse amor tinha uma raiz cravada no nosso desejo ensurdecedor de exactamente … sermos amadas por ele.
É que sermos amadas pelo que é belo, faz-nos sentir ainda mais sublimes, mas deixa a repugnante baba da incerteza nos vidros quebradiços das nossas almas pequeninas.

Amar um homem feio deve ser bom. Aceito, porque o que se esconde no amor é muito mais do que aquilo que mora nos olhos cinzentos azulados daquela beleza estonteante que num dia chuvoso lamentou o fado e creio que, quando nos apaixonamos por uma criatura feia, nos deitamos na cama que ela nos ajuda a fazer, desde a escolha das traves às dobras dos lençóis.

A solidez das paredes do quarto já é outra questão, porque amar, dizem, é como ter dinheiro. Não traz forçosamente a felicidade como apêndice.
Seja como for, a Gaffe, rapariga fútil, desalmada, oca, tonta e irresponsável, mesmo suspeitando que o dinheiro - e o amor - não a faz necessariamente feliz, prefere soluçar dentro de um Bentley.

A Gaffe por entre os dedos

Mark Heine

No tempo das areias, já lá vão vinte anos, Agosto era passado em casa da minha avó.

Um Agosto inteiro às vezes de nortada, com noites repletas de frio e de ligeira chuva.
As famílias largavam os adolescentes e a minha querida Luzia era arrastada para nos cuidar.
Chegávamos aos poucos. Como salpicos de ondas.
Primeiro a Rosário e seu o irmão que já perdeu o nome na minha memória. Tinha o cabelo cortado à rapazinho e olhos pretos. Altiva e elegante como uma gazela.
Depois, o Jorge, o meu primeiro amor de tarde friorenta, quando todos corriam pela praia molhada por uma véspera de chuvisco.
O Francisco, nadador e bravo, olímpico rapaz das ondas e do sal, que trazia a irmã, Sónia dos cabelos loiros, um pardal traquina.
O Pedro a rugir como a ameaça dos vulcões.
Os meus irmãos chegavam com os mais velhos, no centro de Agosto.
E num Agosto qualquer chegou o João. De calças de linho branco, eterno descalço, e camisolas de algodão gigantes, para desalinhar a vida. Belíssimo, silencioso e distante como um cisne.

Passei por ali.

A casa foi vendida e morta. Não existe.
A minha irmã usa Armani e ácido na bolsa.
O meu irmão é longe.
O Jorge do meu beijo transformou-se em fumo.
O Pedro aprendeu a humilhar vulcões.
A Sónia é actriz. Via-a no palco. Nunca deu por mim, nunca dei por ela.
O Francisco em Madrid escreve postais quando o Natal é mais sozinho.

O João morreu.

Restam as gaivotas e a Capela onde à noite corríamos para espreitar as bruxas e testar o medo.
Era o tempo das areias.
Às vezes há nortada.

Sempre acreditei que as imagens que retemos na memória possuem, também elas, a memória. Mais diáfana, mais esvaída do que nossa, mas igualmente labiríntica.
Quando esquecemos, fica no lugar do esquecido apenas a memória que havia nos objectos, aquela que eles possuíam e essa é como pó ou areia. Nela podemos cravar a unha, arrastar o dedo, desenhar, deixar escorregar os grãos por entre os dedos, acreditar que as nossas recordações foram forjadas, ilibando a vida.
Quando se trata de memória há sempre em nós uma implacável impotência. Agarram-se à alma pedaços de vida que só dementes podemos desejar perenes.
Esquecer é deixar tombar o pó e redesenhar depois por cima dele. Isto deixa-nos calmos.
É bom esquecer. É seguro e criativo ao mesmo tempo. No entanto, vemo-nos às vezes a confundir a memória com o memorizado. Não sabemos, por exemplo, se realmente fomos de alguém ou se apenas passou por nós a vaga ilusão de pertença. Qual foi o estado de alma que nos invadiu, qual foi o apagado, qual o desenhado depois do esquecido. Não que tal nos aflija. Já foi passado. Já temos história. A memória atenua a febre e dá-lhe a suave pacatez da convalescença como única peça para reviver.

Lembramo-nos como se tudo tivesse acontecido num lençol de areia. Quando nele entramos o corpo é arranhado pelas rugas das dunas e pelo frio da água que as vai alisando, mas aprendemos depressa a fechar os olhos.

19.7.22

A Gaffe num Santuário

Peter Paul Rubens

Apoia o queixo na palma da mão, com a cabeça ligeiramente inclinada e o cigarro em brasa demasiado próximo das ondas brancas do cabelo. A luz reflectida na pulseira de oiro larga, fechada por um minúsculo cadeado, projecta uma pequena forma ovalada que não sossega, agitada como uma menina que desfaz as tranças a baloiçar na inquietude. Às vezes, no colarinho branco, o pequeno reflexo luminoso parece uma joia intemporal e frágil, intocável, segura ao tecido pela serenidade que surge quando a minha avó fica mais atenta ou como um insecto de luz que pousa atraído pela brancura incendiada da camisa.

A senhora recorda transgressora a noite em que o viu pela primeira vez  a nudez masculina.

- Há homens, minha querida, que fazem da nudez uma caverna. Outros há que dela fazem céu aberto. No entanto, a timidez é o último reduto dos despidos.

- Como a terra dos homens perseguidos?Lembrei-me dos Santuários dos foragidos medievos, da imagem breve de um homem desgraçado pela multidão a despenhar o corpo nas pedras de uma catedral e a despojar a alma toda macerada num derradeiro uivo salvador.

- Um Santuário? – A minha avó sorve o fumo do cigarro. O insecto do oiro da pulseira outra vez inquieto.

A senhora e o silêncio debruçado sobre mim.

- A ideia de Santuário sempre me agradou. A última promessa, a derradeira exalação da esperança, o torniquete suspenso por um espaço físico intocável. Mas a nudez não é essa espécie de cadáver adiado que procria.

A senhora contradiz o aforismo.

- A nudez abrevia os homens. Ficam sós diante dos espaços que os circundam e a solidão tem o corpo que eles despem. Nus, resumem o que temem no descampado do corpo que revelam e a timidez é o coração do medo, o último reduto onde eles tombam, mas que não tem a essência do que salva.

A minha avó sorri e atira o fumo devagar, em fio, de encontro ao reflexo da pulseira que parou, depois acaba:

- Nu, o homem descobre se tem asas de falcão ou de morcego, mas é sempre um outro olhar a proteger-lhe o voo. O Santuário, minha querida, é sempre uma mulher.

A Gaffe num lamento

Jessye Norman

Procurou silenciar a criança tocando-lhe com os dedos longos nos lábios.

- Ouve com muita atenção, minha querida. Esta é a obra de canto mais bela do mundo.

Sentou-se na poltrona de forma a não a ocupar completamente. As mãos agora nas minhas procuraram fazer com que eu, não mais do que dez anos, me aproximasse com suavidade do som que se ia erguendo e estilhaçando a placidez da tarde.
A sala era a sua preferida, a virada a Norte, mas pelos rasgões das janelas entrava a luminosidade das Primaveras incipientes e pacatas que nos provoca a enganosa sensação de que a luz, mesmo a mais frágil e evasiva, aquece a madeira do soalho e amorna a tessitura dos veludos das almas.

Os sons que ouvi vinham encadeados de forma cerrada, como se tivessem muros ou correntes dentro, como se estivessem presos uns nos outros e não houvesse espaço para desfazer as nuvens entre as notas, unidos por invisíveis dedos, por invisíveis palavras dentro das audíveis. Diferenciando-se, acabavam dolorosamente fundidos. Era nessa fusão, que surgia da colisão de nitidez que cada um possuía, que entravam no espaço do lamento animal. Já não eram voz humana. Tocavam a fronteira. Agonizavam dentro lamentos desumanos e gritos animais, mas com a beleza que nasce da transgressão e da subversão dos fonemas, da desobediência às regras e ao cuidado com que a linguagem verbo cuida em distinguir os sons.

Eram bichos e agonizavam nos lamentos de sons transgressores e subvertidos.

Ouvi até ao fim o canto mais belo do mundo e ao tentar mudar a luz da sala fria que trepava pelos móveis, alcançando a taça de prata sobre a mesa e abrasando as maçãs vermelhas, procurei fixar a angústia acidulada que enlaçava os objectos e os gemidos que trucidavam a placidez do instante.

- Não tentes. - Disse-me e correu os cortinados que de pesados rosnaram nas argolas, sem agonia, lanho ou subversão. - É O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell. Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz quebre por dentro.

Ontem ouvi, ainda às escuras depois de tantos anos, a obra de canto que ele dizia ser a mais bela do mundo e senti um orgulho imenso por concordar com o meu avô.

18.7.22

A Gaffe acalorada

O calor é imenso, asfixia e empurra-nos para a sombra gigante das tílias do jardim.
A minha mãe, de Proust no regaço, embala o sono no tempo decididamente perdido. De vez em quando mergulha os dedos na seda severas do cabelo loiro e beberrica água gelada com gotas de limão.
A minha irmã esgadanha o calor agitando a Vogue americana com uma fúria demente como se tentasse soltar das páginas revistas um modelo qualquer do Inverno que vem. Suspira e abafa, rumoreja impaciência.
A minha prima, repleta de tédio, abandona o portátil sobre as almofadas de tela grosseira, na cadeira de verga, e acende um cigarro morto de calor.
Eu espero que as formigas não ataquem, trepando à mesa e cravando o ódio acicatado pelo sol nas madalenas que ninguém pediu.

À distância observo o rapaz que chega do povoado para cuidar da relva. É bajulador e usa com perícia a falsa simpatia de quem sabe que vai ser bem pago.

A canícula afrouxa-me os sentidos e nenhuma promessa atabafada me desperta.
O dia passa com a lentidão da história.

Entretanto, como no passado, há tempo para se morrer devagarinho.

14.7.22

A Gaffe de Moleira


De acordo com o dito e redito, a frase é dos carecas que elas gostam mais tem a mesma função das madeixas pindéricas e ralas que partem das nucas masculinas e que tentam chegar às sobrancelhas dos que acreditam que não estão a ficar calvos embora todas as evidências provem que vão ficando com a cabeça parecida com uma lustrosa bola de bilhar.

Para além deste parco consolo, suspeito que a frase retém uma grosseira conotação sexual que me abstenho de dissecar, por demasiado óbvia e porque acabei de tomar o pequeno-almoço. Uma rapariga esperta evita redundâncias e procura sempre manter os cereais no seu lugar.

Não é de todo verdade que sejam os carecas os alvos privilegiados das nossas imediatas atenções. Não é lícito afirmar que a leonina, desmanchada, poderosa, ensandecida e farta cabeleira de Sansão é sempre ameaçada no seu poder de sedução pela tesoura daliliana da imagem de um careca.

A não ser que o calvo, ou candidato a tal, seja o João Moleira.

A verdade é que João Moleira nos faz esquecer todos os editoriais, textos, artigos, reportagens, parágrafos, itens, escritos, notícias, novidades, notas, alíneas e mesmo o sol que vai fazer lá fora. Deixamos de o ouvir logo que o vemos.

Um belíssimo, avassalador e irresistível careca, um calvo portento, um perigo para todas as outras cabeludas redacções.

José Rodrigues dos Santos - por muito olho maroto que nos pisque como se tivéssemos, sem ninguém saber, qualquer coisa marcada para o jantar -; José Alberto Carvalho - por muito botão aberto na camisa para que acreditemos forçadas na sensualidade tímida da alvura de uma pele -, ou Rodrigo Guedes de Carvalho - por muito carrancudo que apareça para provar que se nos distraímos somos levadas ao chão com um golpe de judo -, são esmagados pelo sorriso, brutamontes de carnalidade, de João Moleira que nos prova constantemente que matar - ou mesmo desperdiçar - o mensageiro é - quase) sempre - um erro.

11.7.22

A Gaffe embalada


Rodney Smith

Anjo da Guarda 
De olhos cinzentos 
Protege minh’alma 
Da fúria dos ventos 

Anjo da Guarda 
Doce companhia 
Não deixes morrer 
A luz do meu dia 

Num alto rochedo 
Pousa a minha mágoa 
E faz com que o medo 
Se transforme em água


E quando eu partir 
Meu Anjo menino 
Dá-me as tuas asas 
Qu’eu sou pequenino*

Penteava-me o cabelo com os dedos e murmurava a ladainha docemente. Depois de me beijar, arranjava as almofadas e ao sair o meu avô sorria e fechava as asas.

 

*Canção de embalar francesa do século XIX na tradução livre do meu avô.


La Gaffe et l’amour fou


É tão engraçado observar os esforços que se fazem para esconder uma paixão proibida
Nestes gabinetes há um rapazinho loiro de gigantescos olhinhos azuis, magrinho e franzino, pedante e miudinho. O cargo que ocupa é proeminente e o menino assume-o de maneira pomposa e cheia de brio, aprumo e masculinidade. Inclusivamente aos fins-de-semana.
Entra então em cena a sempre activa e presente técnica de informática. Uma belíssima morena, de olhos de veludo e sorriso malandro. Recentemente destacada, faz as delícias dos homens que desataram, subitamente, a precisar com urgências suspeitas dos seus serviços mais competentes.
A rapariga não se faz rogada e atende, com todo o carinho e de forma pontual e assídua, todas as necessidades masculinas, sobretudo as do namorado, colosso pouco dado a manobras informáticas, mas poderoso e atento segurança principal.
O menino de olhinho azul, franzino e frágil, apaixonou-se por ela de uma forma confrangedora.
É delicioso observar os seus movimentos atados, os seus olhares disfarçados, mas sempre presos ao corpo da moçoila, os seus mais pungentes esforços para disfarçar o inevitavelmente claro, as suas mais rebuscadas desculpas para a ter por perto ou para se cruzar com ela nas esquinas e nos cantos dos corredores e o abandono recente dos seus encargos mais importantes.
O alvo desta dança mantém-se indiferente. Não vê. Não ouve. Não sente. Não faz a mais ínfima ideia do que despertou. Continua a sorrir e a passar airosa, sem sombra de pecado, arrastando, preso no cinto, o mísero olhar do pobre desgraçado.
- A R. está no seu gabinete? – Pergunta-me de olhos de safira, pela centésima vez no espaço de uma hora.
- Não! Nunca sabe dela, não é?! É tão resvaladiça aquela rapariga.
- Não sei. Nunca a procura!

Ah!, quando o amor se levanta a razão fica de joelhos.

7.7.22

A Gaffe mística

Tommy Kinnerup

A Gaffe tem-se dedicado à leitura dos jornais online – dos mais imbecis aos mais sérios e respeitáveis, daqueles por onde perpassa a argúcia de José Gomes Ferreira.

Não é tarefa que lhe agrade, mas é comovente ver esta rapariga fútil, ligeiramente apatetada e catatonicamente caniculada a esforçar-se por se manter à superfície da actualidade.



Então, num lance lento e langoroso, consegue perceber que um empresário nortenho revelou que receberá 40 milhões de euros do PRR que serão usados no aumento de capital da sua empresa de navios turísticos, a Mystic River, e garante que não haverá qualquer financiamento à TVI, onde a Pluris detém 35% do capital. Do total de 76,7 milhões previstos para apoio à capitalização de empresas afetadas pela pandemia, aquela marca vai receber mais de metade.

Engole, lânguida e frouxa, logo em seguida a notícia que lhe reporta que o empresário Mário Ferreira foi também constituído arguido na Operação Ferry e que foram feitas buscas na sua Douro Azul, estando em causa suspeitas de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais no negócio da compra e venda do navio Atlântida. Foram efetuadas buscas no Porto, Funchal e ainda em Malta, incluindo a sociedades de advogados – cita a Agência Lusa uma fonte judicial.

A Gaffe suspeita que esta absurda e infernal canícula que a queima é a mesma que arde nos lugares onde há, ao mesmo tempo - 
numa certa cavaqueira -, burros, tubarões, crocodilos e camelos.

6.7.22

A Gaffe das raridades


O que entrega a um homem uma sensualidade arrasadora, um desesperante apelo contido num desejo, a inolvidável voluptuosidade que nos deixa tombadas e a babar, não é por obrigação o resultado das horas de ginásio.
Há uma nuance que inicia a diferença entre um belo e musculado atleta bronzeado, de sorriso matador e olhos sem fundo que se aviste, capaz de nos levar ao céu cumprindo todas as nossas fantasias menos confessáveis e a quase brutalidade animal do homem que, satisfazendo os preceitos anteriores, é capaz de os aliar a uma capacidade milagrosa de nos fazer sonhar.

São raros e difíceis. Não tocam a banalidade corriqueira dos primeiros.

Exemplifiquemos com alguns detalhes:

  • Não usam diminutivos quando se apresentam. Não são o Zé Tó, o Tó Manel, o Juca, o Pi, sobretudo quando a este diminutivo acrescentam o superlativo absoluto de inferioridade - o Beto ou o Cacá.
  • Não nos chamam fofinha ou bebé ou outra barbaridade similar, porque sabem que não temos paciência para imberbes com saudades da mãe.
  • Não falam ininterruptamente acerca das suas proezas inacreditáveis, porque sabem que queremos falar das nossas e que jamais acreditaremos no tubarão que lhe mordeu a prancha, quando adivinhamos que a prancha que possuem não é sequer digna da atenção de um chicharro.
  • Não usam Hugo Boss. Preferem os aromas que escolhemos só para eles, indiferentes às notas altas que emanam no instante em que pressionamos a tampinha.
  • Não arranjam as sobrancelhas, porque, para além de já existir para lamentar o sobrolho de Cristiano Ronaldo, sabem que um franzir de sobrancelha masculina tem de ser convincente e não parecer que pertence a uma dona de casa já entradota com um passado doméstico e um presente domesticado por novelas sucessivas.
  • Não passam por nós de tanga colorida e exígua. Conhecem o valor do que trazem escondido e não se arriscam a fazer tombar inanimado o nosso entusiasmo quando se viram de costas.
  • Não nos dão palpites triturantes acerca das imbecilidades com que nos deliciamos, nem nos olham como se não soubéssemos que os pindéricos berloques que usamos ao pescoço são os mais idiotas acessórios que a Mãe Terra e os seus amados filhos produziram.
  • Não atiram ácido retroactivo ao ex-Presidente da Assembleia da República - rapaz esperta, sempre com ar de quem acaba de se erguer do leito matinal após uma noite mal dormida, com enxaquecas na coligação e um delicioso e discreto problema de dicção - pelo facto de ter tido um dia um ataque de histerismo e desatado a soltar metáforas muito pouco adequadas a venturas, citando Beauvoir como se a sartriana figura francesa fosse parva ou como quem quer arrasar a Amazónia à força de perdigotos.
  • Não trazem o nó da gravata solto e lasso, numa imitação rasca da descontracção que produz exactamente o efeito contrário, nem usam ténis misturados com fatos de três peças quando são convidados para o casamento do ano. Aliás, nunca são convidados para nada e em ano nenhum, a não ser quando concordamos com o calendário ou o convite é o nosso.
  • Não batem a porta do carro emproado com a força máscula dos deuses, para logo em seguida se agacharem à procura das mazelas deste gesto e não nos acusam, em momento algum, de largarmos migalhas de bolachas - com pepitas de chocolate - nos estofos ou teimarmos em ouvir Sinatra aos berros, só para evitar ouvir falar de novo nos gritos vencedores de Michelle Brito.
  • - Não perguntam se gostamos dos momentos que antecedem o cigarro que nos provoca náuseas disfarçadas, porque sabem que vamos mentir, não confessando que gostamos muito mais.
  • Não nos fazem peso com o braço pousado nos nossos ombros durante uma conversa com um amigo só deles, como se fossemos cabides ou expositores, almofadas de descanso ou ortopédicas, porque desconfiam que esta indiferença nos leva a apreciar em surdina as qualidades mais visíveis do interlocutor desconhecido.
  • Não amuam quando beberricamos a nossa preguiça sem sequer mordiscar com o canto do olho o esplendor bronzeado dos seus peitorais curtidos por sóis de paragens idílicas, porque a tez morena é devida apenas ao esforço dispendido ao sol para tentar salvar um bicho qualquer em vias de extinção, mesmo que o bicho nos meta um medo tenebroso.
Existe um rol imenso de características apensas a este homem de sonho, sendo a principal, a mais luminosa, a mais deslumbrante e avassaladora, a paixão imensa que sente por ruivas de caracóis soltos e enlouquecidos.


É o único que sabe que uma ruiva é um sol poente: Não provoca escaldões e cria sempre as paisagens mais apetecidas.

É tão raro e difícil como um deus.

5.7.22

A Gaffe de Monet

Fernando Vicente

Li, em tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.
Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.
Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão.

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também -, do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.
Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento -, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa -, saindo disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso encontra sempre os mais inesperados aliados unindo os opostos mais irredutíveis.

4.7.22

A Gaffe no primeiro beijo

Christer Strömholm - 1960

De corpos imóveis se faz este beijo.

Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O primeiro beijo é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.

O primeiro beijo constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.

Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O primeiro beijo é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.

Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda as duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.

Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro.

Saberás do beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado.

Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.

Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto. Tem disso consciência.

Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e todas as outras lições já podem começar.