A Gaffe considera pertinente que o senhor Presidente da República tenha exigido a António Costa o sucesso governativo e garantias de qualidade na aplicação do PRR, mas lamenta que o senhor Presidente não tenha exigido ao mesmo tempo a António Costa o preenchimento dos testes da Nova Gente ou da Maria. São igualmente conclusivos e neste caso particular muito mais significativos, tendo em conta que, pelo menos, nos permitiriam saber se o homenzinho socialista consegue acompanhar o senhor Presidente na malhinha que vai tricotando com o voto dos portugueses.
31.3.23
A Gaffe empatada
A Gaffe considera pertinente que o senhor Presidente da República tenha exigido a António Costa o sucesso governativo e garantias de qualidade na aplicação do PRR, mas lamenta que o senhor Presidente não tenha exigido ao mesmo tempo a António Costa o preenchimento dos testes da Nova Gente ou da Maria. São igualmente conclusivos e neste caso particular muito mais significativos, tendo em conta que, pelo menos, nos permitiriam saber se o homenzinho socialista consegue acompanhar o senhor Presidente na malhinha que vai tricotando com o voto dos portugueses.
30.3.23
A Gaffe desobediente
29.3.23
A Gaffe condicionada
Segundo o povo, um homem só é verdadeiramente um Homem depois de:
1 - Escrever um livro;
2 - Plantar uma árvore;
3 - Fazer um filho.
A Gaffe acrescenta a estas condições uma outra giríssima, embora
ligeiramente ambígua:
4 - Saber andar de bicicleta.
Quando lhe perguntam quais as condições que atribuem o estatuto de Mulher a
uma rapariga que é apenas esperta, a Gaffe declara que são mais
complicadas e enumera:
a) Nunca ler o livro que foi escrito pelo tal homem que
não o era antes de o escrever;
b) Ter uma árvore para tratar, mesmo que não tenha sido plantada por ele;
c) Não deixar que lhe façam um filho com o único objectivo de fazer
um homem.
Acrescenta uma outra condição que acha absolutamente encantadora:
d) Deixar que seja o homem pedalar, mas fazer com que reconheça que é ela que corta sempre a meta.
27.3.23
A Gaffe censurável
A plataforma em questão, após vários anos de total permeabilidade e permissividade a todas as formas de expressão, foi pressionada pelos patrocinadores que não querem ver os seus produtos entalados entre umas pilas e uns pipis em franca actividade lúdica. A pornografia pura e dura - sobretudo a segunda - tinha invadido o terraço, asfixiando os gatinhos fofos, as paisagens idílicas, as frases encaixilhadas e os outfits do ano.
É evidente que ao passear por aqueles lados se ficava ligeiramente enjoada. Os mais que explícitos Clips, samples, pics – tudo estrangeiro -, não poderiam nunca deixar de figurar na estante do porno mais puxado e ficariam lindamente a decorar qualquer sexshop mais ranhosa. Num vislumbre rápido, qualquer incauto visitante poderia supor que se tinha enfiado num site obscuro onde a mais inocente das imagens expostas, permitiria canonizar a Cicciolina - e os deuses sabem como merece respeito esta menina.
Parece aceitável que a plataforma, pressionada pelos patrocinadores, tenha decidido impor regras, abolindo publicações de cariz sexual, embora tenham permanecido intocáveis - em nome da liberdade de expressão -, os blogs de propaganda nazi, os racistas e os xenófobos que por lá pululam.
Seria usado um algoritmo que varreria todas as publicações, alertando os usurários para o imediato apagar de … mamilos. Depois se vassourariam as restantes ocorrências anatómicas mais desnudas.
O meu querido amigo tinha há cerca de quatro anos um blog onde recolhia ilustrações, pintura, desenho, BD, colagens e todas as outras formas de manifestação artística ao seu dispor, executadas em duas dimensões - excluindo-se, portanto, as provenientes da escultura. O leitmotiv era o Homem. Nu ou vestido.
O algoritmo varreu, de uma assentada, as representações de guerreiros e de atletas gregos antigos em frisos onde a pilinha de um espreitava por entre as dobras de um vago tecido; as iluminuras medievais onde se insinuavam as ceroulas do camponês com avantajado conteúdo; os mamilos de S. Sebastião ilustrado pelos maiores génios da pintura universal, ao mesmo tempo que apagava, por exemplo, o Homem Vitruviano, de Leonardo, todos os valentões da Capela Sistina e o Cristo de S. João da Cruz, de Dali. Foi destruída a esmagadora maioria de imagens - de séculos idos até ao presente -, de um incontável número de artistas reconhecidos universalmente ou em ascensão que, de qualquer forma, representaram o homem nu ou quase nu.
Apanhou na sanha uma imagem do rosto de Jackie O, durante o funeral do marido, provavelmente porque identificou o chapéu da primeira-dama com um preservativo usado.
Este ensandecimento, esta purga, teve, portanto, um algoritmo como responsável zeloso, obrigado a reconhecer como pornográficas as obras de uma quantidade enorme de artistas que ousaram representar ou insinuar a nudez ou a seminudez masculina através do tempo.
Se fosse curadoria da Gaffe, o único conteúdo adulto que apagariam seria a conta da água e da luz.
O que causa perplexidade é este aparente controlo ditatorial que se quer exercer sobre o que cada um de nós pode ver e não pode ver, pode ou não pode ter, pode ou não pode ser, retirando a quase toda a gente a capacidade de decisão e de escrutínio. Aconteceu um dia com Mapplethorpe em Serralves - alegadamente, pois que todo o imbróglio foi gerido de forma absolutamente patega, parola e a raiar a imbecilidade. Os artísticos membros do Conselho de Administração do museu, poderiam facilmente evitar o desaire Mapplethorpe sentando os rabinhos em cima das fotografias que classificaram como inconvenientes e merecedoras de censura. Era bem mais discreto, ninguém as veria e acabava por ser uma atitude que os aproximaria finalmente do que parece nunca terem sentido na vida.
Desenganemo-nos, pois, que eles chegaram e duvidemos se alguma vez partiram.
Não incomodou grandemente a retirada da pornografia da plataforma, mesmo apesar de consubstanciar uma regra introduzida a meio do campeonato. Existem sites destinados exclusivamente ao assunto e não parece legítimo reivindicar-se a obrigatoriedade de determinado sítio, patrocinado por empresas que vendem fraldas, carros e pastilhas, acolher pilas e pipis indiscriminadamente, tudo ao monte e fé sabem os deuses em quem, só porque sim e em nome da liberdade de expressão. No entanto, reconhecemos que é irritante a purga ter sido levada a cabo por um algoritmo que censurou em simultâneo um acervo considerável de obras de arte.
A leviandade e a irresponsabilidade com que foi escolhida e usada a ferramenta informática foi extraordinariamente superior ao uso que ali se fazia das ferramentas apagadas.
Quem pode, manda e manda em tudo, que há de tudo como no velho boticário. Pelo que se vê, não manda quem pode com a grafia antiga usada em Farmácia.
A Gaffe confessa que também fica muito perturbada quando embate com o Fauno de Barberini. Exactamente por isso, levanta os olhos ao céu e pede protecção a Paulo IV, o santíssimo papa que ordenou que se cobrissem as miudezas - a palavra neste contexto é mais do que bem empregue - das figuras criadas por Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina. É bem verdade que o obreiro desta façanha, o pobre Daniele da Volterra, ficou conhecido pelo il braghettone, o braguilheiro ou o calcinhas, mas o epíteto constitui uma perfeita injustiça, já que da Volterra se limitou a ser o precursor de Victoria’s Secret e nada mais fez do que dar início a um processo continuado por Clemente VIII que chega a colocar a hipótese de destruir o tecto - salvo apenas pela intercepção da Academia de S. Lucas - e que tem o seu mais mimoso acontecimento quando Inocêncio X ordena que se cubra a nudez do Menino Jesus pintado pelo querido Guercino, homem pio e beato.
A Gaffe, no entanto, ficou mais descansada e tranquila quando, alguns velhos e muito castos séculos depois, Hassan Rouhani exigiu que na sua presença se cubrisse a nudez esbardalhada pelos Museus Capitolinos. Apesar de ser desta vez um Estado laico a obedecer a uma imposição religiosa. Noblesse oblige e o ouro é metal nobre.
O que escandaliza esta rapariga esperta é o facto de terem escondido pipis, mamocas e pilitas atrás de painéis brancos que unidos parecem caixotes de quem se vai mudar para Castel Gandolfo.
A Verdade é que Paulo IV não tinha à mão de semear os trapos dos criadores - recordemos que na altura apenas Ana Salazar via a sua carreira iniciada -, mas Matteo Renzi tinha uma panóplia de fashion designers dispostos a vestir os manequins de mármore. Armani, Valentino ou Dolce & Gabbana matar-se-iam por tamanho cartaz publicitário.
Depois, se o ultrapassado e ido Matteo Renzi quisesse beliscar os franceses que de forma muito pouco educada - tendo em conta que nos faz lembrar o grosseiro se não gostas, come em casa -, anularam o almoço quando perceberam que Hassan Rouhani recusava a presença da carta de vinhos, podia perfeitamente ter escolhido Dior insinuando uma cumplicidade francesa.
A Gaffe, nestes peculiares momentos, sente a falta de estadistas como Berlusconi. Seria interessantíssimo ver as trombas de Rouhani quando, numa visita oficial ao Irão, ouvisse as exigências deste italiano maroto, antípodas das suas.
Nesta delicada sanha purificadora, recordemos o Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que proibiu a venda do livro de BD que apresenta dois heróis da Marvel, Wiccano e Hulkling, jovens rapazes potentes e muito pouco recatados, num abraço fechado num beijo onde é provável que a língua de um esteja a pesquisar o palato do outro.
A Gaffe não é a Folha de S. Paulo e não vai apresentar a ilustração proibida, até porque não satisfaz a sua refinadíssima exigência estética, mas, após apurada pesquisa, está apta a revelar que a BD é de 2012 e que os envolvidos no escandaloso e nojento beijo são ambos filhos de mães solteiras. Um é filho da Feiticeira Escarlate, que perdeu o Visão - pai do seu filho e não um problema oftalmológico -, e o outro é filho da Capitã Marvel, uma senhora que já foi um senhor. Nada de bom se poderia esperar, como se conclui pelos antecedentes.
A imagem proibida é suscetível de atentar contra a #deixemascriançasempaz, muito popular por estas paragens e originar mesmo um belíssimo artigo da autoria de Laurinda Alves, insurgindo-se mais uma vez - e possivelmente torcendo e retorcendo mais Decretos de forma a que pinguem atentados civilizacionais -, contra a degradação humana que permite que dois homens se beijem em público, provavelmente nos WC comuns e sobretudo nos desenhos.
A Gaffe leu, algures no tempo, uma entrevista em que Laurinda Alves declara que quando se dirige a Deus, fá-lo - e não falo, é de bom-tom sublinhar -, sempre em inglês, pois que sente que Deus a ouve e a entende melhor nessa língua.
A Gaffe considera que esta afirmação é suicidária. Laurinda Alves deixou de ser credível, pois que toda a gente sabe que Deus é francês - Il n’aime rien, iI est parisien. Não vale a pena ler a senhora se não se nos dirigir na língua de Molière.
Já #deixemascriançasempaz merece a nossa particular atenção, pois que prima pela defesa da moral e dos bons costumes infanto-juvenis que a escumalha demoníaca tenta violentar - qual cardeal a um acólito -, pese embora Crivella, Fátima Bonifácio e Portocarrera - trio maravilha unido nas lutas, em frentes diversas, pelos valores tradicionalíssimos que sempre comandaram o mundo, graças a Deus e à Santa Virgem cosmonauta.
Já bastou o alarido que fizeram, bradando pela exclusão e queima da obra, quando deram conta que estava à solta uma frase mais marota de valter hugo mãe que podia ser injectada nos vossos rebentos conspurcando-lhes a inocência.
Agradeçam à Porto Editora por vos ter um dia revelado que existe a Ode Triunfal de Álvaro de Campos que por acaso contém os porcos versos:
(…) Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas (…)
Convém ler o resto. Há o resto. Não se fiquem por aqui, por muito que o desejem.
A Porto Editora é tão imaginativa quando decide divulgar a obra de um poeta!
Haja respeito pelas Instituições.
Valha-nos Deus.
24.3.23
A Gaffe no interior da beleza
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| Fernando Vicente |
A beleza que importa realmente é a interior.
Ouço dizer que sim e torço o nariz.
É que no meio das conferências a que assisto - não são muitas, há que ficar descansada -, vejo e ouço intelectos que me fascinam, mas não me despertam nenhuma espécie de emoção mais ou menos física, nem me fazem tremer de excitação imaginando-os na cama comigo. São mentes poderosas em corpos bastante frágeis e carcomidos pela falta de ginásio - e estou a ser muito benevolente.
Se a beleza interior tivesse a dimensão que dizem ter, não se venderiam tantas coelhinhas e coelhinhos, com corpos esculturais e sensualidade invejável. Seriam substituídos por homens e mulheres de mentes brilhantes, mas com a aparência de verdadeiros coelhos.
Há uma genuína beleza no motor de um carro de colecção do início do século passado, mas sabemos que são os Fórmula 1 que nos eriçam a penugem e nos levantam as saias ao passar. A elegância vintage e a inteligência notória patente na conservação do calhambeque, é relativamente fácil de ultrapassar quando por nós passa um Bentley actualíssimo e carregado de charme luzidio.
A beleza exterior acaba por ser um motor potentíssimo que nos leva, a nós raparigas espertas, a todo o lado, mesmo àqueles a que não queremos de todo visitar.
A verdade é neste caso para lamentar, mas não é por isso que pode ser evitada ou camuflada. Somos escravos do à primeira vista. Julgamos e rendemo-nos àquilo que se esbarra contra os nossos olhos, muito antes de nos entrar pelo cérebro e no coração.
Arrependemo-nos depois? Obtemos ocasionalmente um sim à questão colocada, mas mesmo choronas Madalenas temos no registo, no lugar dos ganhos, uma ou outra noite bem passada com um ou outro idiota bem ginasticado e, nós já sabemos, é sempre muito útil ter um livro à cabeceira que nos abstraia do ressonar do lorpa.
A Gaffe sem correntes
Informam-se as criaturas que me mandam por e-mail as chamadas correntes que não devo quebrar reenviando-as para uma data de amigos, que ainda não me caiu a vida em pleno palco por as ter cortado a todas. Gostava que soubessem que não adianta muito terem o incómodo e a boa intenção de me fazer feliz se reencaminhar a balela a dez inocentes e que não há gente desempregada ou que não é surpreendido pela fortuna só porque quebro ou corto desavergonhadamente estas coisas, sim?
Por agora é tudo.
Não metam também o dedo no nariz enquanto passam por aqui para ler estas inutilidades, porque se percebe logo que andais a vaguear por sítios esconsos em vez de reler o Eça.
Vá.
Avisem dez amigos.
23.3.23
A Gaffe no paraíso
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| Richard Finkelstein |
- Quem me dera viver na Idade Média! Pelo menos não tinha de ir à escola – informa a que só não tem espinhas nos olhos.
A Gaffe fica arrepiada.
As pobres desconhecem por completo que mil anos de falta de luz são uma maçada e que a net era na altura bastante mais lenta. É verdade é que os cabeleireiros eram bem melhores do que os actuais, basta ver as cabeleiras das heroínas das séries onde os protagonistas masculinos usam collants e disparam setas de janelinhas muito Siza Vieira; é verdade que Yves Saint-Laurent deslumbrava num início de uma carreira promissora; é verdade que se comia mais verduras, mas não é de todo agradável os hotéis e as estâncias de Inverno não possuírem lavabos para uma rapariga retocar a maquilhagem.
Depois, há formas mais actualizadas de não se ir à escola, que nos digam as moçoilas do Irão.
Um petiz, que a Gaffe conhece na aldeia, deixou de ir à escolinha com a desculpa de não ter dinheiro para o autocarro e que para ir pelo seu pé tinha de se levantar às cinco da manhã. É evidente que a balela não tem fundamento. Sobra imenso tempo ao pai! O homem está desempregado e podia perfeitamente levar o rapazinho na carripana que apesar de tudo ainda mantém. A tradicional expressão desculpas de mau pagador é neste caso mais do que acertada. A Gaffe suspeita que a falta de apoio que o homem lamenta desesperançado se deve ao facto de não ter feito descontos para a Segurança Social durante o período em que tal lhe era exigido.
Valha-me Deus! Nem toda a gente pode ser primeiro-ministro. Não há forma do povo se convencer disso.
É lógico que se as suspeitas do Mestre se confirmam e o Paraíso for uma espécie de biblioteca, esta gente está condenada às penas do Inferno. Embora tal consubstancie um facto muito incómodo, pois que deixamos de ter pessoal competente para limpar o pó aos livros, pelo menos ficamos com a consciência tranquila sabendo que entregamos a felicidade a duas adolescentes, tendo em conta que no Inferno ninguém ensina nada.
Só é de lamentar que neste processo todo se esbata nos corações desta gente a noção da grandiosidade portuguesa que subsiste na memória da saga marinheira de outras eras, pese embora a tenacidade com que os poucos heróis que nos restam defendem a sua permanência hasteando a bandeira impermeável da nossa glória náutica nos cascos de submarinos e nas carcaças podres da nossa desobedecida Marinha.
A Gaffe inquieta
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| Eva van Oosten |
O meu apartamento no Porto é límpido, com uma luz domada e esculpida e uma amplitude agradável.
Perita na área do desassossego, da inquietação e do transtorno, a minha irmã moldou a casa de modo a que dentro dela eu sinta a falta estranha e indecifrável de não saber de onde chega a serena sensação de me sentir bem. Este discutível olhar a arquitectura, a que escolhi chamar arquitectura do inquieto, porque sempre me agradou a polissemia, é o reflexo desta mulher na obra.
Há mulheres que provocam nos outros o embaraço, a oscilação entre o que é desumanamente belo e a incerteza mais terrena, a sensação de inexplicável desarmonia e a urgência de entendimento sentido imperfeito sem o ser visível. Esta estranha atitude, esta quase indecifrável posição, perante a obra arquitectónica e perante a vida, tem por vezes a face do exagero, aliado ou caminho seguro para o kitsch, mas - triunfo do termo que nomeia a noção - abre para a luminosidade do rigorosamente inteligente e do impecavelmente pensado, como a excessiva porta de entrada de um apartamento que se abre para a mais absoluta e simples claridade.
21.3.23
A Gaffe duriense
Dias em que se vê por dentro. Não da alma - que desaparece afugentada e temerosa como bicho pequeno e ameaçado que procura esganiçado a mais funda lura para se imobilizar, para deixar passar o perigo -, mas por dentro do corpo.
Há dias em que se sente por dentro do corpo e o corpo em que se sente por dentro é como uma casa sem janelas. Muros, telhado e uma porta por onde apenas se entra. Sair não é possível até findar o sentir-se ou acabar o dia.
Nesses dias em que acontece este sentir, sabemo-nos alterados. Envelhecidos. Descobrimos dentro a maior desilusão, o maior dos abandonos, a maior das misérias.
Percebemo-nos idiotas. Entendemos a ausência, a solidão e toda a procissão de sentires magoados, como se abandono, desilusão, miséria e despovoado fossem órgãos iguais ao coração, cérebro, fígado.
Há dias em que atravessamos os corredores com a propositada lentidão dos cortejos fúnebres, para que os vermes tenham tempo de comer o nosso sentir lá dentro.
No Douro há também os dias em que a superfície dos lugares nos toca a pele.
As árvores desprendem os perfumes dos ramos. Descem os aromas pelos troncos como bichos cansados, roçam-nos a pele, farejam, e mergulham nas águas arrastando os líquenes e o musgo húmido para o fundo negro sem vista.
São como segredos.
Quebram devagar a película que nos envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.
Entendemos então a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio do rio onde o tempo esquálido flutua. Entendemos então os passos do silêncio. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria. Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras.
Entendemos os dias do Douro porque os temos pousados na alma.
A Gaffe num almoço caseirinho
Gosto desta mulher, embora saiba que nunca esta mulher poderá gostar de mim. Entre as duas há um socalco sem vinhas ou a intransponível distância lavrada por arados demasiado diferentes. O dela tem estrelas recolhidas pela terra, o meu não conhece terra e de estrelas ouviu falar apenas.
Serve ao meu pai batatas e bacalhau cozido. Rega-as com azeite e mistura um alho migado e uma gota de vinagre de cidra. O ovo rola oleado no prato de porcelana antiga. Enche o copo com vinho maduro e fica à espera, erguida na poderosa posição de cuidadora do senhor, dono do seu mundo.
Atenderá os outros depois.
O meu rapagão não escolhe nada. Limita-se a recolher no prato o que lhe dão, com a indiferença azeda dos grandes resmungões e espera tamborilando a impaciência na toalha branca. Gosta muito da mulher e revolta-se contra a seriedade dos seus gestos e a passividade inútil com que os recebemos. Jamais entenderá a raiz do tempo aqui.
Procura disfarçar o embaraço de se ver sentado em frente da
minha irmã, a única que o pode assassinar apenas com um dito.
20.3.23
A Gaffe na Foz
A saudade que tinha deste mar em fúria!
Atravesso sozinha a Avenida do Brasil. É quase noite. É
tarde. É tudo junto e mal iluminado.
Não gosto do mar quieto como se espreitasse em surdina o desalento - a saudade
que tinha deste mar em fúria. Não gosto dos candeeiros frouxos, pardacentos,
com luzes doentias, laranjas esmagadas imaturas. Não gosto do rapaz que me
persegue, como um pedaço de vidro que encontrei na rua. Não gosto dos carros
rompendo em ruído a desilusão parada no caminho. Não gosto de sentir.
Tenho frio. Tenho tanto frio!
Lembro-me de respirar fundo, profundo, sem fundo na tristeza de me ver sozinha.
Lembro-me.
Lembro-me da tabuada monocórdica e vou pelo caminho trauteando:
2x1=2
2x2=4
2x3=6
Até chegar ao nada.
A rua passa por mim encharcada.
A razão da rua passar é minha imobilidade à beira da água.
Vejo uma mulher de impermeável a entrar num carro. O guarda-chuva tem camélias
estampadas e uma vareta partida como a imobilidade com que a vejo passar a rua.
A minha visão é um guarda-chuva florido quebrado que deixa a água entrar na
minha inércia.
Penso-me quieta.
A acalmia do estar imóvel é a ausência do sentir. A indiferença com que olho a
mulher de impermeável e de guarda-chuva quebrado,com camélias estampadas, é a
minha apropriação da rua, a ilusão de a não ver a passar.
Olho e a mulher entra no carro. Deixou o guarda-chuva preso à estrada.
Encontramo-nos nas palavras que escrevemos. Debruçamo-nos nas grades de uma
letra ou nos vidros de uma outra. Nos arcobotantes que sustentam as paredes dos
fonemas, nos claustros das sílabas, nas eixos e nos segmentos de outras rectas,
nos arcos e tangentes, nas ogivas.
Se escrever o nome de uma flor, de um bicho ou o nome das águas que passam por
aqui, ou da terra, ou dos pássaros, o que tu leres é já a flor que não escrevi,
o bicho, a água ou o pássaro que não vi a voar na ausência de papel.
Posso escrever camélia. Encontro-me contigo longe da Avenida que chove e
na inexistência do perfume. Escrevo camélia e a flor escrita é de um
vermelho pálido. A tua é branca. No entanto existe no papel apenas a palavra. É
uma camélia diferente das estampadas no guarda-chuva quebrado.
Posso deixar de escrever camélia, se o quiseres. Não nos encontraremos
mais numa palavra. Deixaremos de ter o vermelho pálido ou o branco das pétalas
da flor por escrever.
Mas em segredo saberemos que a camélia existe.
16.3.23
A Gaffe manequísta
Não há rapazes maus, diz o Padre Américo e a Gaffe está em perfeita sintonia.
É claro que não há rapazes maus!
15.3.23
A Gaffe tipificada
O estereótipo é a maior simplificação do pensamento. O amalgamar das variantes e da miríade de nuances do raciocínio e por consequência, sendo errado, acaba por facilitar um entendimento do social – embora circunscrito - sem requerer esforço.
Nessa perspectiva é útil.
Uma das muitas imagens da mulher que se foram construindo ao longo dos séculos, liga-se à tonalidade da pele, à sua tez.
Morenas, loiras e ruivas são caracterizadas com alguma perícia e o tempo encarregou-se de enganadoramente lhes atribuir determinados comportamentos que são tidos como factos e que acabam por fazer as delícias dos homens menos atentos e com propensão para generalizações.
Consultando alguns dos seus amigos, a Gaffe apurou que, num
resumo, as morenas são tidas como detentoras de uma sensualidade e de uma
voluptuosidade digna de nota. São carnívoras e capazes de crimes passionais.
Exuberantes, muitas vezes histriónicas, são as representantes das latinas
capazes de urdir tramas de amor trágico, atrair Quasimodo e protagonizar óperas
repletas de salero. Impulsivas, corajosas e emotivas, são aquelas que fazem
parar o trânsito as bambolear as ancas potentes e sinuosas de amazonas com as
mamocas intactas. Jane Russell e Sophia Loren são ilustríssimas representantes
desta cor.
As loiras são frágeis - salvaguardando-se um lugar de
excepção para valquírias de mais de cem quilos -, racionais e calculistas.
Protagonizam cenas de Hitchcock e produzem belíssimas princesas de contos de
fadas. Frias a roçar o frígido, surgem muitas vezes inalcançáveis e distantes,
embora consigam fazer explodir uma incalculável panóplia de fantasias
masculinas quando aliam esta aparente inocência de gazela a uma granada de sexo
sem cavilha, como é exemplo Monroe. Capazes de tecer dramáticos enredos em que
são quase sempre vítimas depois de assassinar alguém ou heroínas de anedotas
que fazem parecer que mirraram o cérebro com o platinado. Grace Kelly é hitchcockiana,
Monroe a mais bela encarnação de uma guerra aberta dentro dos lençóis.
Restam as ruivas.
Hayworth é uma das mais poderosas ruivas de que há
memória. Gilda é incandescente e herdeira de feiticeiras medievas,
amantes de Lúcifer e donas do medo.
A dificuldade de enfrentarem o sol escondeu as ruivas nas
sombras condenadas. São más, maquiavélicas, esconsas e perigosas. São raras por
maldade e comuns também por ela. Não se confia numa ruiva. Nenhum segredo está
a salvo de se tornar a bala com que a ruiva atinge o que deseja e o que deseja
é sempre carne ou rubis roubados e mesmo quando Jessica Rabbit se torna o sonho
desenhado de qualquer rapaz, é de vermelho sanguinário que se veste.
Esta tipificação do feminino não deixa de ser interessante. Não causa dano ao universo feminino e é bem mais benevolente do que os
estereótipos com que resumimos os homens. As mulheres cultivam-na
subtilmente e as mais espertas não a deixam esbater nas mãos de um feminismo
radical. Usam-na para colorir os dias dos rapazes fáceis e banais.
Afinal um estereótipo não passa da mais simples maneira de os enganar.
Exacatmente por isso, a Gaffe suplicou ao seu querido amigo
que a representasse digitalmente e a partir do que é de carne e osso - com uma
subtil alusão ao seu petit nom.
Temeu que o rapagão a representasse como uma das Barbies da
geração mais recente. Uma gorduchinha, uma baixinha, uma ruiva, ou uma mulata,
mas a bonequinha nunca lhe pareceu suficientemente bem vestida, toda a vida
usou bagatelas de plástico e sempre foi muito limitada, tendo em consideração
que namora um rapaz sem pila. A ideia podia ser mesmo desagradável, mas seria
sempre relativamente pouco original, sofrendo de apatia sexual.
A Gaffe ficou comovida com o que lhe foi oferecido.
Uma alegria marejou-lhe os olhos quando esbarrou com este Jaguar digital.
Depois de pouco hesitar, o moçoilo apresentou-lhe esta versão da Gaffe – que a rapariga não se cansa de publicitar! -, que rivaliza com as heroínas da Disney e, para gáudio das multidões embevecidas, é a única que faz jus à sua extraordinária sofisticação e inigualável galmour e que ao mesmo tempo comprova que a Gaffe não é nada modesta e nada exibicionista - subtilezas muito inteligentes.
13.3.23
A Gaffe longínqua
![]() |
| Paris - vista de Montmartre |
Talvez os lugares não mudem. Talvez mude apenas a forma como os esquecemos.
Sei que me alterei.
Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.
Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.
Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.
A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.
Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.
Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.
E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.
Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.
Paris?
Paris envelheceu à espera das vadias.
A Gaffe de Guillaume
Je revis les vieilles photos de Paris.
Photos banales du plus banal des amoureux de la ville, prêt à me donner tout ce qu'il a, même le plus fou, même le plus ridicule.
Au Palais Royal. Dans la galerie d'art aux lumières jaunes et étranges. Face à la Tour Eiffel, souriant béatement. Dans la rue de Monceau où flottait l'ombre de Proust.
Dans cette vallée d'images, ma nostalgie coule à flots.
Je me souviens de la texture de la table au Les Deux Magots où je le rencontrais, la table de Sartre et de Genet, mais le souvenir de mon araignée noire, aux yeux bleus et aux rayures ciselées d'existentialisme, parlant de désolation, est flou, parce que l'Enfer, c'était moi, qui ne l'aimais pas.
Je retrouve enfin, à la base de ma mémoire et d'une image, le nom du garçon: Guillaume.
Guillaume...
Et soudain, je me sens seule.
7.3.23
A Gaffe corrupta
A Gaffe assistiu ontem a um momento precioso do jornalismo de esgoto, made in Portugal.
Pese a verdade, e porque esta rapariga é imbecil, considera uma experiência única e extraordinária ver outra vez José Sócrates gesticular, esbracejar, mostrar os caninos, salivar e cuspir morcegos. Aconselha a Gaffe - mais uma vez, porque é imbecil -, que toda a gente a assista ao circo onde a fera é espicaçada tendo, antes de tudo o mais, retirado o som ao televisor.
É uma experiência digna de Attenborough, embora extenuante e claramente anti-democrática.
Durante o aborrecido processo de mudar de canal, a Gaffe esbarra com a patacoada mais uma vez vomitada para nosso encanto e apaziguamentojá audível de um comentador - não se sabe se a propósito -, paga-se demasiado pouco aos políticos e aos governantes e é este o factor principal da não extinção da possibilidade de serem corrompidos.
É delicioso.
O contribuinte não paga o suficiente aos seus representantes para que eles não sejam corruptos.
Se os corrompesse, pagando o suficiente para retirar à corrupção a possibilidade de lhes fazer uns mimos, a indigitação ou a nomeação - conclui-se que normal - de corruptos não se faria sentir e não existiria colisão com a lisura, a ética, a honestidade, a honra, a Palavra e todas essas manigâncias mais ou menos delineadas e tidas como louváveis - pese embora algumas não tenham definição esclarecedora -, estariam salvaguardadas e o Estado seria liderado por políticos corruptos, mas tornados honestos, pois que servidos de avultados ganhos.
Há que abrir os cordões às bolsas – mas nunca à Bolsa -, para se ser representado pela hibernação, pela anestesia, pela narcotização, pelo coma induzido, da corrupção. Há que corromper, pagando para os que nos representam não sejam corrompidos, antes que outros o façam.
É tudo tão sicilianamente Ford Coppola.
A Gaffe proletária
É mais do que certo que o povo é mal pago. A tradição vem de longe, neste país à beira-mar plantado e bem regado, e a evidência do facto tem história comprovada, sempre acompanhada por uma espécie de subvalorização do trabalho - quer por parte do que o executa, quer por parte de quem o quantifica para o recompensar.
Transcrição da factura que um mestre-de-obras apresentou em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga*
Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda - 90 reis
Lavar o criado do Sumo-sacerdote e pintar-lhe as suissas - 160 reis
Tirar as nódoas ao filho de Tobias - 95 reis
Uns brincos novos para a filha de Abraão - 245 reis
Fazer um Menino ao colo de Nossa Senhora - 210 reis
Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua - 130 reis
Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas - 355 reis
Adornar a Arca de Noé, compor a barriga ao Filho Pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco - 135 reis
Pregar uma estrela que caiu ao pé do coro - 25 reis
Umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada - 255 reis
Para tão largas, santas e poéticas tarefas, tão curta a recompensa!
6.3.23
A Gaffe concluiu
A esmagadora maioria das meninas escolhe, como projecção e figura identitária, uma felina criatura que não sendo propriamente recomendável e politicamente correcta, acaba por compensar o facto com uma carga erótica digna de fazer entrar em coma o pároco da aldeia.
Todas as mulheres desejam, em consciência ou sem ela, o sabor da caça conseguida. Todas somos predadoras veladas, sinuosas e insinuantes e mesmo as que de gata ou de leoa trazem apenas as almofadas nas patas, conseguem projectar, quando é preciso, o brilho de uma garra. A capacidade de seduzir que tem por base uma vertiginosa atracção pelos felinos, está cravada na ambição de todas as mulheres que reconhecem que a invisibilidade ou, em contraponto, os incontornáveis soutiens americanos, não oferecem garantias de sucesso nas caçadas que querem levar a termo certo. Desde o mais banal quotidiano à mais elaborada e extravagante situação, as mulheres procuram o instinto das mais insinuantes criaturas do planeta. São predadoras, mesmo que o não saibam.
Os homens são presas fáceis. Mesmo quando escolhem a figura velada de um nocturno protagonista como personagem com quem se identificam, recusando o único dos heróis clássicos que é extraterrestre ou aquele cujos créditos se devem atribuir, em última análise, a uma aranha radioactiva, exprimem a sua identidade - também num análise sumária - projectando-se num rato cego, com asas e radar – embora antropomorficamente de uma brutalidade apelativa que deixa uma rapariga em convulsões.
Em resumo - básico, porque é uma maçada esmiuçar este tipo de idiotices – as raparigas usam garras, chicote, visão nocturna e sete vidas para caçar. Os rapazes escolhem um rato cego, alado e com um radar para evitar colisões inapropriadas.
A Gaffe sacra
2.3.23
A Gaffe laminada
Ao vosso lado estão já jornalistas, actores, pivots e pevides. Nada há a temer, a não ser o avanço descontrolado daquilo que ameaça a testosterona capaz de dominar as feras soltas, de jubas ao vento e saias travadas e boas, mesmo a pedir que as alimentem, nas ruelas da vossa imaginação e nas ruas onde balançais o corpo másculo a caminho do mar.
Ai, que coisa mais linda!
Homens de todo o mundo, deixai a barba crescer.
Amaldiçoai a Gillette, candidata a castradora da liberdade de se ser mamute.
Lutai pela manutenção da tradição, da transmissão da ancestral forma de se ser um chimpanzé psicótico, insultando o chimpanzé e majorando a psicose.
Há que sentir musculado orgulho em conseguir viver com estes dois apêndices conjuntos.
1.3.23
A Gaffe sagrada
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| Ed van der Elsken |
A minha memória alberga algumas imagens que dificilmente poderei traduzir.
São sempre deslumbrantes, que as más empurro para longe, desmembro e enterro nos ermos da minha alma.
Uma dessas luminosas recordações tem a minha mãe como uma das personagens principais.
Vejo-a embevecida abraçada à cabeça do meu irmão que arde em febre.
Pálido e indefeso, o homem tinha adormecido e a minha mãe olhava aquele gigante que escaldava, dócil e agreste, que lhe tinha pousado no regaço.
Há muito de ilusório nesta memória, porque, como diz o meu amigo, sempre que recordamos uma coisa, tornamos a vivê-la de modo diferente, mas aquela tarde em que a febre não baixava e ameaçava incendiar a casa e em que a minha mãe se transfigurou e mais uma vez revelou uma alma capaz de servir de colo, vai ficar no meu peito como a medalhinha de ouro que se traz ao pescoço presa num fio.
Há memórias que são como orações.
A Gaffe acompanhada
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| Sophie Litvak por Georges Dambier -1952 |
Fui ontem buscar o meu Amigo ao centro do Porto.
A paisagem urbana, a paisagem humana nos burgos, por muito pobre e dispersa que seja, tende para a uniformidade, procurando incluir e assimilar as partículas estranhas e desconhecidas, preferindo não correr riscos com uma exclusão demasiado evidente ou escandalosa discriminação, mas não ousando reconhecer a diferença como mais-valia e contributo bravo para a diversidade.
Esta fagocitose social, característica visível das pequenas multidões, quando não realizada de forma capaz, pode nelas provocar uma variante curiosa de fascinação, mesclada por temor, a que vulgarmente chamam carisma, glamour, charme e outras balelas que não passam de diminutos resultados logicamente colhidos nas magníficas operações da inteligência.
A imagem longínqua do meu Amigo, de barba agora rasa, de ébano, de olhos perdidos e fundos e meigos, é impossível de fagocitar por quem quer que seja.
Aproxima-se lento como se houvesse tempo para tudo.
Inclino-me e faço uma vénia digna de Versailles e de fazer rolar, mais uma vez e desta vez por amor, a cabecinha tonta de Antoinette.
- Mon Prince!
Este homem sempre gostou destas pequenas parvoíces públicas.
- Não te dás conta da atracção que exerces sobre os outros?! - espanto-me quando vejo que, só para o ver passar, até o cão vadio estanca a pata que tentava erguer a custo zero.
Desfaz-me a vénia e pousa o braço nos meus ombros. Sempre o fez isentando o gesto de ambiguidade e tornando-o claro, lógico e bonito.
Obriga-me a caminhar e numa faísca olha para mim e declara absurdo:
- Sabes que na tua casa não há nenhuma laranjeira?! Perguntei a toda a gente. Não há, nem nunca houve.
Depois caminhamos juntos devagar, em sintonia.
Primeiro os pés esquerdos avançavam, depois os outros, os direitos, depois os olhos, depois os batimentos dos nossos corações perfeitamente audíveis, depois a sensação de já não esperar nada, de estar ali apenas porque os dois vivemos e isso já bastar.
Sentia a sua mão a proteger-me os ombros, deslizando sobre a minha alma e percebi que nunca tínhamos sido tão cúmplices como naquele instante. No instante em que o seus olhos se levantaram sem grades e me consentiram ver que tinham a consciência de que sabiam que eu nunca tinha existido sem o amar.
Por isso, vou mover o mundo e, mesmo arriscando a vida nas feiras e mercados, vou procurar comprar, sem saber se há para vender, a laranjeira.
Descubro que, eu e este gigante, partilhamos a mesma dolorosa característica. Ele, sem consciência escandalosamente nenhuma desse facto, passa lento e devagar se esfuma. Eu, atenta a tudo, com a perfeitíssima noção do meu isolamento perante as multidões, uso e abuso daquilo que os deuses me ofereceram: a solidão doirada.
Os dois invariavelmente unidos, não conseguimos impedir o Amor obsessivo e dominador de uma Solidão apaixonada.



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