30.4.23

A Gaffe pipoqueira


Já lá vão alguns anos que troquei o cinema por outro qualquer espectáculo onde não seja permitido comer pipocas.

Asfixio com o cheiro a pipocas. Longos metros ao longe sinto-as e longos metros ao longe começo a ter sérios problemas existenciais. Jamais assisti em CinemaScope, envolta numa nuvem de bem-estar cinematográfico, ao pranto de Scarlett O’Hara ou ao adeus da Bergman a Marrocos, porque temo esbardalhar-me ao lado de algum triturador sonoro de pipocas e morrer sufocada e surda.

A importação do costume americano de trincar alto e bom som coisas açucaradas no negrume de salas povoadas, destrói qualquer vislumbre de prazer, a não ser que tenhamos entrado num daqueles aposentos muito marotos cheios de gente muito dada.

Comer pipocas no cinema não é, de todo, BCBG. É tão charmoso como comer bolo-rei de boca aberta disparando migalhas pelos pobrezinhos; é tão elegante como as selfies no facebook, sobretudo as que se tiram às mamocas e as peitorias dos mais machos; é tão inteligente como uma deixa de Cristina Ferreira; é tão civilizado como o discurso de Ventura; é tão inocente como uns tantos ministros portugueses subitamente francófobos por tanto lidar com Christine Ourmières-Widener
; é tão sofisticado como um sorriso de Catarina Sarmento e Castro; é tão criativo como o penteado da Secretária de Eatado da Cultura e tão próximo de ser promovido como um trolha e um soldador de Joana Vasconcelos.

Comer pipocas no cinema equivale a usar meias brancas e chinelos no meio de uma recepção na embaixada timorense. Mesmo pensando que não se nota muito, corremos sempre o risco de sermos expulsos.

29.4.23

A Gaffe no silêncio


A superfície deste lugar presa na pele quebra devagar a película que o envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.

Entendo agora a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio da casa onde o tempo esquálido flutua. Entendo agora os degraus do silêncio e os socalcos. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria.

Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras.

Entendo este lugar, porque o tenho pousado levemente sobre a alma.
O meu lugar é onde se ouve o silêncio a descer escadas.

28.4.23

A Gaffe e um souvenir


Não gosto de souvenirs. Não gosto sequer de os receber. Não entendo como se podem oferecer pequenas recordações para que sintamos que, quem as comprou, se divertiu sem a nossa presença.

As únicas recordações que valem a pena são as que a minha prima dispensa, porque se abastece sempre na Louis Vuitton, e a única que me ficou na memória foi aquela que insistiu em trazer da Rússia para a minha tia. A estola de vison corria o risco de ficar retida pela burocracia e pelos entraves que se fazem sentir a esta espécie de tráfico. A minha prima insistiu e encontrou a derradeira possibilidade de passar impune. Ei-la dentro de um vestido de seda esvoaçante, sandálias vertiginosas e o nécessaire à tiracolo, debaixo de uma temperatura de 40º à sombra, com ar de diva envolta em enfado, de cabeleira farta enfiada no gorro do mesmo bichinho que acabou a fazer companhia à estola traçada nos ombros, indiferente ao espanto de um aeroporto inteiro incapaz de ousar despir uma Hayworth enfastiada, mas esbaforida.

No entanto, nenhuma recordação - chamemos-lhe presente, das as circunstânicas que hoje se vivem... - me causou tanta surpresa como aquela que me foi entregue hoje.

Fugida da Grécia, a minha prima, com o cuidado de quem manuseia a mais delicada jóia, a mais frágil das bolas de sabão, retira da carteira um caco. Um caco. Literalmente um caco. Um pedacinho de pedra, roliço e ocre, que se esfarela doentio e com a descarada altivez de perita em Cultura Clássica, entrega-me aquilo etiquetado:

- Apanhei-a e roubei-a no Parténon. É proibidíssimo! Somos torturadas por aqueles guardas belíssimos de saias brancas e pompons pretos se somos apanhadas a desviar estas relíquias. Tens na mão um pedaço de história. Lembra-te que é muito possível que Platão - quiçá Aristóteles - tenha calcado o que agora é teu.

Atira a cabeça para trás, faz voar a cabeleira e o perfume solta-se no espaço marcando o território.

- Pensei comprar-te o novo perfume da Cartier, mas descobri que na Grécia só há quinquilharia e que se queremos qualquer coisita original, temos de lhe deitar a mão.

Tenho agora na carteira um pedaço de filosofia a esfarelar.

27.4.23

A Gaffe não sabe o que quer, yo!


A Gaffe vai descobrindo lentamente que não sabe o que quer.

Gostava que lhe arranjassem material deste, do saber-se o que se quer e assim como quem não quer a coisa lhe oferecessem uma passa todas as vezes que se cruzassem nas ruelas da sua vida mais estreita, mas o certo é continuar a duvidar e a hesitar sem tino e sem rumo.

Com trinta e mais alguns - vários -, anitos, uma rapariga esperta deve já ter uma noção do que lhe convém.

É de circo a Gaffe perceber que é uma idiota com uma dúzia de indecisões numa das mãos e outras tantas incertezas agarradas à outra.

Saber que está ao seu alcance uma desmesurada quantidade de opções que abarca desde os passos mais banais do mais banal dos quotidianos até àquelas são significativas e traduzem a capacidade de alterar substancialmente esta mesma banalidade, não produz grandes efeitos na sua inépcia crónica e na sua incapacidade de voar ou de lidar com o desejo.

É o desejo, essa coisa pegajosa, que a prende à hesitação do início voo.

Durante todos estes trinta e mais alguns anos a Gaffe teve apenas um voar e é exactamente o facto de ter só este que a impede de aceitar a certeza de ter um pássaro na mão. A Gaffe gostava de experimentar, uma só vez, ser assolapadamente feliz, mesmo correndo o risco de se tornar depois um espantalho a ver para sempre os outros dois voar.

Começa a sentir-se velhota.

Uma rapariga sente-se envelhecer quando deixa para trás uma meia dúzia de ilusões que, apesar de a reconhecer exactamente como isso . uma parca meia dúzia -, não se importava muito de a sustentar, alimentando-a com a esperança tola de a ver aos saltos, mesmo à sua frente.

A velhice vai evoluindo com a desilusão. Quanto mais desiludidos nos tornamos, mais podres nós ficamos, diz o povo - e se não diz, devia.

A Gaffe sente-se um bocadinho amarga, um tanto ou quanto azeda, e este azedume vai crescendo à medida que percebe que deixou de esperar seja o que for dos domínios onde sempre foi uma idiota, uma mentecapta e uma destrambelhada imbecil.

Pensa que não sabe repartir, partilhar ou mesmo tentar aquela espécie de cumplicidade bacoca que vê passar por si a cada instante e que a faz olhar os pares enamorados com alguma - ligeira - perplexidade.

Esta falha que lhe parece irremediável, é escondida por uma arrogância que não é de todo sincera ou verdadeira, por uma distância muitas vezes a raiar a insolência, a impertinência, a petulância, o pedantismo ou o pretensiosismo, que, apesar de existirem - a Gaffe não é parva -, são ampliados de uma forma medonha, tornando-a uma menina má de todo o tamanho.

- Uma rapariga defende-se com o tem mais à mão - diz para se tranquilizar.

O problema é que nem sempre o que temos mais perto é aquilo que nos impede de acabar cheios de medo que nos aconteça aquilo que tentamos evitar. O problema é que por muito que queiramos envelhecer tranquilos, mesmo que isso nos forneça a reputação de santos, somos, sem apelo nem agravo, vulneráveis ao que sempre desejamos.

A Gaffe sempre desejou experimentar, só uma vez, apenas uma vez, ser assolapadamente feliz, mesmo correndo o risco de se tornar depois um paspalho sem um pássaro na mão nem outros espalhados a voar. 


26.4.23

A Gaffe narradora

Denis Sarazhin

A Gaffe reconhece que devíamos apenas usar as palavras quando elas são melhores do que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

25.4.23

A Gaffe no dia alterado

@jbruceart
Quando de encontro a nós chega o instante que nos altera a vida, por uma vez que seja, por um espaço apenas, um dia, ou por capricho ou teima, lugar do amor ido ou recém-chegado e livre, não podemos crer que a alma que agora vive em nós, é outra, nova, entregue pelo dia que a alterou.

A alma é a mesma - a fluir no tempo já marcado ou ido -, e os instantes nela são gravados como inevitável coisa.

Nós é que alteramos.

24.4.23

A Gaffe do Outro

Gerhard Haderer
Não há muitas formas de olhar os outros e de lhes sentir o olhar.

Viver é encontrar constantemente a diferença e esta é reportada e lida de acordo com os alicerces que nos suportam. Os sufixos que usamos indicam que somos avessos ao que vemos -fobia -, seguidores do que encontramos -filia -, ou iguais na indiferença ou no respeito. Creio que um linguista explicaria bem melhor do que eu estas variantes, porque sou inepta nessa área.

O encontro como o Outro é sempre um encontro connosco. Lemos o que vemos com as palavras que são nossas. Raramente usamos a linguagem que nos afronta o hábito e a leitura que fazemos é normalmente contaminada pela nossa história, pelas nossas vivências, pelos nossos medos, pelos nossos anseios, esperanças, sonhos, conceitos, tragédias e por toda a paisagem humana que nos aculturou irremediavelmente. Olhamos o Outro e é uma multidão que conhecemos que o perscruta. Nunca estamos sós, lavados e nus, perante aquilo que vemos e que nos é estranho ou inabitual.

Lembro-me do episódio do soldado americano que na frente de um prisioneiro afegão que se debatia de mãos atadas, lhe perguntou a rir se o homem queria rezar ou mijar.
O analfabetismo cultural, a cegueira cultural, se for possível chamar assim a este exemplo de ignorância do Outro, talvez seja menos chocante aqui do que aquele que nos escandalizaria se alguém decidisse publicar uma caricatura de mulheres violentadas ou desenhasse humor usando crianças vítimas de pedófilos. Estamos enraizadamente proibidos de aceitar estes danos que consideramos de lesa-humanidade. São malditos.

Os exemplos dados são perigosos, porque aprendemos que há um abismo sem fim entre a pergunta do soldado e a abominação dos crimes referidos. No entanto, o pretenso humor do americano talvez seja lido pelo prisioneiro afegão como uma agressão grave, no mínimo cultural.
A velhíssima máxima que afirma que a nossa Liberdade finda quando começa a do outro, não conta com os inúmeros territórios que disputamos demasiadas vezes de forma selvagem e que há liberdades, como a de expressão, que são usadas para impor um olhar que nos pertence ao que nos é alheio ou que são desvirtuadas, usadas e abusadas para rentabilizar e promover os nossos óculos. A violência mais abjecta encontra nestes desvios um campo de pasto desumano.

Acredito piamente na Liberdade, mas não gosto dos que a cegam transformando o seu nome em estilete. Gosto muito, isso sim, de quem me disse uma vez que a Liberdade se pode definir como uma falsa questão de geografia. Há lugares onde se respira por sítios diferentes, mas o certo é que está sempre um frio de rachar.

A Gaffe do outro lado do espelho


A casa onde passo o tempo dos socalcos tem no centro uma imensa clarabóia por onde jorra a noite e o dia. Há uma perene cascata de luz que nos encharca, porque mesmo o luar entra como um caminhante.
Reflectida no enorme espelho barroco com garças pintadas, envelhecidas e de bicos erguidos, eternos à procura do vento que lhes abra o espaço, a luz reproduz-me sempre que ali entro.

Ao contrário do que seria de esperar, não gosto de espelhos.
Quem sou, ali? Serei eu ou será aquela que eu seria se tivesse o meu caminho sido o outro? Será a mulher reflectida o que o seguiu, sem as amputações na alma que o tempo vai fazendo, ou sou esta que se vê a ver, inevitável?

Não gosto de espelhos. Entregam-me a irresolução ao lado da certeza de que há uma mulher que nunca vou viver, que olha para mim sem dizer nada.

23.4.23

A Gaffe maravilhada


Ele tem olhos de iluminado. Grandes, abertos pelo silêncio. Os nossos sons ecoam dentro deles como nas abóbadas de duas catedrais e, quando nos calamos, as palavras ditas antes da mudez parecem silvos de balões largados no ar, a perder a forma.
E diz-me
Os terraços de Abril são o prodígio
Onde sacodes as crinas da alegria
E no limpo rumor do riso das cerejas
Há limoeiros brancos e rouxinóis de espuma
Nos clarins de luz dos teus cabelos
Assomam os cavalos cor de fogo
Abril com a luz pousado no regaço
Um sol de porcelana que demora
Criança trevo e cal amotinada
Nos terraços da febre das cigarras

Tu és a luz a abrir as rosas ruivas
E a prometida floração das águas

22.4.23

A Gaffe peregrina



Descubro que há diversos e distintos modos das pessoas que mais amo caminharem comigo. Uma espécie de diz-me como caminhas, dir-te-ei quem és, majorada pelo coração.

A minha mãe, namoriscando, tomba presa no meu pulso, como uma breve e minúscula pulseira de oiro batida pelo sol.
O meu pai caminha comigo como se eu fosse um alfinete de gravata: dispensável, mas que se quer mostrar, porque se ama.
O meu irmão deixa que me encoste a ele. suspensa nele, envolve-me. Prende-me ao seu corpo como serena trepadeira, mimada, terna e doce. O muro é sólido. Sei que posso deixar que as folhas se espraiem sem medo ou queixume.
A minha irmã leva-me com ela, mas nunca vem comigo.
A minha prima pendura no meu braço o seu corrosivo humor, a sua indomável inquietude e a sua irresistível obstinação e rebeldia e transforma-se na mais aventurosa das cúmplices, na mais destemida e perigosa aliada de caçadas e devassas.
O rapagão é bem maior do que eu! Caminha comigo e sei sempre onde piso. É como ter um mapa e uma bússola, sextante e astrolábio. Sabemos onde fica a estrela certa.

Esguia, delicada, delgada e subtil, mina avó jamais poderia amaldiçoar as suas inexistentes gorduras, flácidas rotundidades ou circular corpulência, mas a fogueira que insistia em atear nesses passeios tinha como único objectivo o calor cúmplice, exclusivo, que se criava entre ambas.

Mas só o meu avô sabia caminhar sorrindo devagar para a minha vida.

21.4.23

A Gaffe marinheira


Dentro dos nossos sonhos mais travessos, haverá sempre um homem do oceano pronto a zarpar, desfraldando velas em mastros turbulentos.
Em cada sonho nosso mais matreiro, a armada azul e branca tem guardado um nó perfeito a desatar por nós, nas noites de tumulto no mar da nossa carne em desatino.
Só dentro do sonho breve, o marinheiro que navega em nós, mesmo que o oceano seja um copo de água, tem sempre cordas fortes e capazes de ancorar as nossas fantasias.

Mas, opondo-se ao imaginário, nem sempre um porto erguido no real, traz no coração um nó de marinheiro desatado. Há portos que onde as cordas são fios frágeis de seda e nevoeiro. Os nós, a cegar, ficam sem pontas.

A Gaffe intemporal

Enviaram-me de longe – de tão longe! - esta versão de uma das mais extraordinárias canções que ouvi. Talvez a mais perfeita do planeta.

O singular desta raridade é que reúne as vozes de três franceses dificílimos de perder que se revezam entregando ao poema e à melodia a perfeição dos diamantes.   

Porque é impossível encontrar a versão num formato diferente, deixo desta forma a possibilidade de ouvirmos um intemporal deslumbramento.

Minhas senhoras e meus senhores:

Brel, Brassens e Ferré

20.4.23

A Gaffe no tempo das amoras

Ellen T. Fisher, 1887.

Era no tempo das amoras.

Havia um muro baixo no jardim onde nos sentávamos a morder os frutos e a pensar na vida, como se houvesse vida para pensar.
Nos papéis ainda brancos das nossas três almas bem unidas, havia já o picotado por onde se deveriam recortar e separar mais tarde.
Mas era ainda o tempo das amoras e havia o muro de pedra, pequeno, onde nos sentávamos, os três, e no papel por macular das adolescências, deixávamos cair pingos de amoras.
Ficávamos ali a murmurar os sonhos e quando havia sol, amolecíamos. Olhávamos os plátanos ao longe e cada um de nós perdia-se por dentro, absortos, mordendo a tarde e alongando na boca o gosto dos frutos.

Ficava entre a minha irmã e o meu irmão que iniciavam ali pueris rivalidades. Olhávamos os plátanos e perdíamos o tempo assim, olhando os tempos em que nada havia para dizer e só dentro de nós passava a tarde.
Era no tempo das amoras, naquele muro baixo que suportava os devaneios destes três tontos, que se enfadavam sempre. O tédio era o silêncio que se ouvia.

Sentada, baloiçava os pés devagarinho, como se a pedra fosse o meu embalo, preso no céu por cordas invisíveis. Baloiçava os pés, devagarinho, até que o oscilar ganhasse força e erguesse as minhas duas pernas já bem alto.
No tempo das amoras baloiçava e foi no baloiço desse muro baixo que eu tombei para trás, desamparada.
Ninguém mexeu na tarde. Ninguém fez nada. Dois adolescentes sentados sobre um muro a ruminar o dia que acabava e duas pernas erguidas lá no meio. Imóveis, chocadas por não ter feito efeito a sua queda curta, mas muito digna e mais do que evidente.

Fiquei ali, costas no chão e duas dignas e verticais colunas a apontar para o céu, azul profundo, até que a minha irmã, devagarinho, foi informando o rapaz que esta pobre ruiva havia alterado a posição usual.

Ninguém desceu os olhos.

Levantei-me, mas tinha a alma pasmada, estonteada.

Era o tempo das amoras e tinha descoberto, olhando o céu do chão, o lugar exacto onde se prendem os fios do baloiço que suporta agora o oscilar das minhas inteiras e mais profundamente azuis desilusões.

19.4.23

A Gaffe envelhecida


A Gaffe às vezes sente-se velha.
Tem trinta e mais alguns anos e, às vezes, sente-se amarga como um daqueles trapos que se depositam nos lares para serem pendurados no esquecimento mais ou menos descansado.

Há uma espécie de velhice fora do tempo, como um Verão de S. Martinho ou como um dia de tempestade no que se espera ser o Verão de S. Martinho.

A Gaffe acredita que à sua volta sempre teve velhos. Mesmo quando era mais nova, os novos, os da sua idade, também pareciam velhos. A velhice deles, uma espécie de velhice sacana e matreira, estava, não no modo como o reumatismo os curvava ou nas dores dos rins e nas alterações da próstata, mas na capacidade que tinham - mantida sempre jovem - de captar com atenção e de conservar com humildade o que acreditavam ser o conhecimento.
O conhecimento - ou se quisermos a sabedoria -, já se sabe, faz frequentemente apodrecer a vontade de sorrir e extingue-nos a sensação de felicidade que mantemos pertinho do coração para enganar as tripas, mesmo sabendo que pode ser feita de pão que o diabo amassou ou de lata pouco nobre, como os cântaros inúteis das memórias que vão enferrujando. A felicidade, ou a ilusão dela, funciona como um creme rejuvenescedor, com a vantagem de o podermos fabricar sozinhos. Às vezes é também botox, mas a Gaffe deixa as máscaras para outra altura.
Sendo o espaço do conhecimento possivelmente incompatível com a arquitectura da felicidade e sendo a felicidade um factor essencial para manter a juventude em forma, resulta que os sábios são todos criaturas infelizes com o coração encarquilhado.

Não sendo sábia, a Gaffe é portanto uma rapariga feliz. Não devia sentir-se velha, às vezes. Não devia sequer achincalhar a felicidade como coisa que se inventa para se enganar as tripas.

Sempre lhe disseram que a velhice é uma construção mental, que a idade que conta é a do espírito.
Mas o que é isto do espírito? Que construção mental faz a velhice?
A Gaffe às vezes sente-se velha, sem construções mentais ou espíritos que contam.

Apetece-lhe ser feliz.

Pensa em ser feliz frequentemente, mas não sabe se há velhice para isso.

A Gaffe em casa

Antonio Morano

O lugar a que chamamos casa é aquele que nos iliba, que se inclina sobre a memória e que nos amansa as réstias de passado que despertam de súbito quando há distância.
longe e casa, pedaços de gestos soltos à toa, traços de estradas, riscos de janelas, lanços e declives, minúsculos esboços, linhas ou sulcos, delineados movimentos que mal vemos, mas que sacodem cá dentro as memórias do que foi e sobretudo a memória do que nunca aconteceu e que lamentamos não ter sido.
Regressar é como sentir o solavanco, o travão medonho, a interrupção daquele salto que trazia preso ao tornozelo a corda que nos salva antes do solo.

Regressar é como retomar o esquecimento.

18.4.23

A Gaffe dos budas

Dizem os estudiosos que:

De acordo com o folclore tibetano, um rei cruel do século XIX tinha uma língua negra, então as pessoas mostravam a língua para provar que não eram como ele, nem sua reencarnação, transformando o gesto - muito pouco ocidental -, num acto de cordialidade e de gentiliza.

Os estudiosos não dizem, no entanto, que o actual Dalai-Lama é uma tragédia recorrente a palrar inglês e que inúmeros são os constrangimentos provocados pelo uso errado de diversas palavras, do reino de Sua Majestade carrancuda, em contextos benevolentes que se incendeiam nas redes com estes tais lapsus linguæ.

Mas, meus queridos, apesar de ser proveitoso ter como certo que as atrocidades, as ignomínias, as selvajarias e as decapitações das infâncias e afins, são calamitosas descobertas cobertas em torno e em todas as orações, é conveniente reter que neste caso não vale balbuciar com um trejeito malandrinho apenso que até os passarinhos gostam, pois que há línguas velhas nas sombras das sacristias e debaixo dos altares e outra igualmente velha, mas diante de uma multidão.


Apesar de tudo, há diferenças substanciais que nos dizem que não é de todo agradável confundir línguas e as linguagens e há que ter em conta que, mesmo os budistas, sabem que - diria o sábio -, temos de ter imenso cuidado com a fúria dos homens pacientes e com as línguas dos homens sagrados - acrescento eu.
  
Posto isto, meus amores, e seja como for, aquilo foi horrível em todas as línguas.
  

17.4.23

A Gaffe na labuta


Nós, raparigas espertas, sabemos que cruzar com monumentais figuras masculinas, dignas de abrilhantar o cume do sagrado e do pagão, não é banal ou quotidiano. Habituamo-nos depressa a controlar e a dominar a frustração que é não poder saborear David Gandy todos os dias que passam.

Admitamos que a Bela, do belíssimo conto de fadas que me permite o trocadilho, tem a vantagem de estar cativa de um monstro com uma sensualidade bastante animal e um apelo erótico muito subtil.

Os rapazinhos destas ruas de labuta não parecem ter a força da mitologia, mas, apesar deste pormenor irritante, são razoavelmente atractivos e sabem compor o nosso ramalhete. Ajuda-os o breve travo de banalidade num estilo bem suado que usam como um acessório dos mais clássicos.


Admitamos que a Bela, do belíssimo conto de fadas que me permite o trocadilho, tem a vantagem de estar cativa de um monstro com uma sensualidade bastante animal e um apelo erótico muito subtil.

Os rapazinhos destas ruas de labuta não parecem ter a força da mitologia, mas, apesar deste pormenor irritante, são razoavelmente atractivos e sabem compor o nosso ramalhete. Ajuda-os o breve travo de banalidade num estilo bem suado que usam como um acessório dos mais clássicos.


Será que se os beijarmos se transformam em príncipes?


A Gaffe à descoberta


Uma das mais eficazes formas de se descobrir um herói, é surpreendê-lo quando julga que ninguém o observa.

Com um cobarde, o método é idêntico

15.4.23

A Gaffe à janela

Villa San Michele, Florença, por Ashley Hicks

Não devíamos nunca sentir que temos de pedir perdão, a não ser àqueles que nos amam e a quem mostramos o que de mais sombrio temos na alma, só porque não são amados por nós.

As janelas dos que se apaixonam às vezes abrem para canais apodrecidos.

14.4.23

A Gaffe de perna traçada

Robert Mcginnis

As pernas de uma mulher são duas armas de assassino calibre. Perigosas na vertigem que provocam, potentes se disparam, maléficas e maquiavélicas.

São duas lâminas, dois punhais de puro-sangue, dois cisnes, duas águias, dois destinos.

Queimam o ar e rasgam perene cicatriz nos olhos de quem ousa tocar-lhes o veludo.
As pernas de uma mulher são dois segredos, a morte violentíssima do incauto e o surpreendente encontro com o precipício.
Os rapazes sentem isso e por isso petrificados hesitam quando as traçamos como hastes frágeis ou vibrantes gazelas.

O encontro com o Belo é sempre um terramoto mudo que lhes derruba a alma. Tentam encontrar depressa outro Marquês - de Pombal ou de outro que o título é já bastante -, mas é no espaço que dura essa procura que a Beleza traça as pernas e subjuga o Tempo.

11.4.23

A Gaffe de Maquiavel

April O’Neil por Niander Quinn

A Gaffe é de certa forma vista como uma criaturinha infantil, ingénua, tontinha, a quem se desculpa imensa coisa com uma superioridade muito madura e adulta.
Ajuda o facto de se sentir uma atracção desconcertante por animações da Disney, gostar de bonecada e de coisas amarelas – admite-se que às vezes se exagera -, e no pc existir um macaco de peluche muito parecido com o melhor amigo, agarrado ao monitor.

É uma situação confortável. Sermos tratadas com benevolência porque parecemos ligeiramente débeis ou vagamente infantis, permite-nos executar com maior liberdade o que sabemos que é o correcto. Recusamos determinadas atitudes ou emitimos opiniões controversas e polémicas sem grande alarido por parte da vítima que acaba sempre por perdoar à minorca. Negamos o acesso a muita porcaria com uma facilidade que tem origem na nossa imagem de marca.

Somos uma espécie de crianças com poder de decisão irrevogável.

Acabamos com lugar marcado no piso dos mimados que, por não exagerarem nas birras, continuam a fazer o que querem sem grandes contrariedades.

Esta posição que aparenta ser frágil, não o é de todo. As mulheres com uma imagem infantil, aproveitam este facto para usufruir de uma gama de privilégios que não está ao alcance dos outros.
Somos miudinhas limonadas e parecemos quebradiças. Não resmungamos muito e gostamos de coisas fofinhas e amarelinhas. No entanto, somos suficientemente hábeis para pendurar os peludos macacos onde queremos e recusar com um dedinho na boca e uns olhinhos de Bambi os que os outros são obrigados a engolir.

Maquiavel gosta de nós.

10.4.23

A Gaffe pascoal

 


6.4.23

A Gaffe vai à luta

Debrucemo-nos com algum cuidado sobre o desporto nacional turco.


Com raízes na luta da Ásia antiga - que originou o que é hoje conhecido como Yağlı Gures - luta livre de óleo ou turca -, consiste numa variante oleosa e com um sabor ainda mais alegre do que aquele que é apresentado pelo wrestling que conhecemos.
Relacionado com o Kurash Uzbeki, Khuresh Tuvan e o Koras tártaro - uma rapariga esperta sabe impressionar, mesmo recorrendo a serviços de espionagem e informação-, esta modalidade faz com que os lutadores, conhecidos como pehlivan - herói ou campeão - usem um tipo de calças de couro grosso, costuradas à mão, o kisbetou kispet, tradicionalmente feito em pele de búfalo, e, mais recentemente, em pele de bezerro. O azeite ou óleo de oliva puro, que lhes cobre o corpo dificulta muitíssimo qualquer tipo de golpe, restando os locais onde, com alguma sorte, o óleo não penetrou, embora seja derramado também no interior apelativo do equipamento.


Ao contrário do wrestling olímpico, este jogo oleado pode ser ganho através de uma retenção eficaz do kispet do adversário. Assim, o pehlivan, coberto de acordo com a lei islâmica - entre o umbigo e os joelhos- , visa controlar a luta, enfiando o braço nas calças do oponente ou colocando e tentando manter as mãos dentro do kispet do outro guerreiro agarrando-lhe as algemas, logo abaixo dos joelhos. Vencerá de imediato se conseguir realizar o movimento Kazik - manguito tolo -, neste caso, as calças podem ser puxadas para baixo ou rasgadas.


O que anula a minha perplexidade ao deparar com estes divinais matulões com as mãos ferozmente enfiadas nas calças dos oponentes, é o facto de serem estas as regras do jogo. Não são libidos recalcadas que explodem de modo encapotado ... ...

Confesso que me agrada.

O Kispet é fantástico e uma rapariga tem de se entreter com qualquer coisa vagamente similar à feminina luta na lama tão apreciada pelos motoqueiros.

4.4.23

A Gaffe de Alexandre Pais

Waldemar von Kozak
A perspectiva misógina, machista e beata é sempre suportada pelo estereótipo e contém inevitáveis preconceitos.
Sendo a mais básica e sintética formulação do pensamento - e em consequência falso e enganador -,  o estereótipo é também a mais fácil forma de comunicação de massas. Propaga-se com facilidade, endurece facilmente e permanece como um gato morto tombado na mesa do jantar. Ninguém o remove porque toda a gente espera pela chegada do messiânico mordomo que servia D. Sebastião.
A ligação que é feita entre o comprimento da saia de uma mulher, o tamanho do seu soutien, a largura das suas ancas, ou a flacidez dos seus braços, e a sua personalidade é das mais enraizadas tolices de que há memória - uma memória de passado longo e com um futuro promissor -, mas é também e ainda o mais rápido modo de formular um julgamento acerca do mistério feminino.

Apanham-se as migalhas quando o banquete cobiçado é interdito.

Alexandre Pais é um miminho exemplificador deste facto.
Para uma mulher inteligente as idiotices do jornalista são divertidas e aumenta-lhe as hipóteses de brincar com toda a espécie de tolos convencidos. Permite-lhe ser, em cada saia, em cada tamanho e em cada flacidez, a mulher que um palerma qualquer deseja no escurinho dos seus estereótipos.

Alexandre Pais cuspiu, em pleno artigo de opinião, em direcção a várias mulheres. É provável que minutos mais tarde, e várias toalhas encharcadas nas trombas, proclame que não quis ser sexista ou misógino e que não tem medo de ninguém.

A Gaffe não considera que o honrado cavalheiro tenha sido coisa tamanha.
Não foi.
Alexandre Pais é apenas grosseiro e mal-educado, aliando estes mimos ao facto provável de não cuidar da pele e da higiene dentária, tal é a mancha seborreica do que escreve, tal é a hálitose daquilo que se lê.

Os honrados cavalheiros que a Gaffe conhece - e conhece vários -, não são sexistas, misóginos ou machistas. São educadíssimos, cultos e letrados, lavam os dentes, cuidam da barba e da pele, são donos de um capital simbólico e de um carisma incontornáveis, consequência também do facto de não possuírem rasto de Alexandre Reis a toldar-lhes o discernimento e de serem genuinamente elegantes.

A Gaffe considera, no entanto, que a tríade - sexismo, o machismo e a misoginia -, reúne conceitos hipervalorizados.
Se se lembrar que estas três misérias são atributos de pobres homens, uma rapariga esperta reconhece que as manifestações do grotesco masculino, sempre limitado por imagens estereotipadas de mulher, podem e devem ser rentabilizas e reorganizadas a seu favor.

Apoiemo-nos num exemplo simplicíssimo. Um clássico:

É uma delícia termos a possibilidade de observar um matulão, um macho, um bigodaço, convencidíssimo que somos incapazes de mudar um pneu, a suar apoplético, tentando desapertar aquelas coisas que prendem a roda ao motor. Quanto mais parvas e deslumbradas parecemos, mais o homem se esforça. Quanto mais imbecis e frágeis nos mostramos, mais o rapagão se estimula. Quanto mais estereotipadamente femininas conseguimos ser, mais o papalvo nos trata como princesas inúteis de conto de fadas, dotadas apenas para o esvoaçar etéreo do não fazer nada.

É evidente que desconhece que uma rapariga esperta não muda um pneu. Troca de carro.

Cristina Ferreira e Maria Botelho Moniz são - não duvidemos, pese embora a agonia que nos causam -, raparigas espertíssimas. O facto de uma ter sido apanhada a apresentar reality shows manhosos e a outra ser apanhada a contracenar com Cláudio Ramos, não comprova o dito, mas estes acidentes ocorrem quando as moçoilas tentam, infelizes, imitar os seus congéneres todos machos e muito propensos a bailar com o povo quando querem muito ser depois maestros.

Esperemos que as mulheres visadas perante a deselegância, a grosseria e a má educação do senhor, resolvam apenas sorrir, assistindo em nome de todas nós às parolices do adversário.

As imbecilidades revelam imenso os pacóvios.

3.4.23

A Gaffe de madeira


Pela teia do destino, ou fado, ou karma ou do feitiço, encontro o que de imediato me recorda o extraordinário universo da sabedoria árabe que me avisa que ao ser cortada, a árvore descobre que o cabo do machado é de madeira.