30.6.24

A Gaffe pragmática


A vida não é um conto de fadas.

Se perdeste um sapato à meia-noite, estavas bêbada.

28.6.24

A Gaffe "leakable"

A Gaffe aconselha toda a rapariga esperta a não visitar o Equador em Londres e não elogiar a decoração de Belmarsh. Só a embaixada envelhece imenso. Quem de lá saiu com mais de duzentos anos foi Julian Assange.

É evidente que Julian nunca foi o que as nossas irmãs brasileiras - um grande saravá também para vós, minhas queridas! -, chamam um gato, até porque é sempre um cão que diz à polícia onde é que escondemos a droga.

Transformado em herói da liberdade de expressão, do jornalismo do doa a quem doer, Assange acaba por se tornar deprimente quando se percebe que o moçoilo ajudou imenso a corroer a campanha de Hillary Clinton deixando pingar putinescamente uns e-mails da candidata – parvos, inúteis, descuidados, desleixados, mas sem qualquer relevância política digna de nota ou interesse público -, permitindo conscientemente a ascensão de Trump e, como é evidente, a existência de carraça da asquerosa trupe trumpolinesca.

A verdade é que a esta cínica rapariga não simpatiza com gurus, com oportunistas, com heróis-vedeta, com manipuladores – mesmo os ligeiramente engajados - e com jornalistas que, ainda que num voo rasante, conseguem transformar o amador na cousa amada.

Assange também é feio.
Imagem - Volker Hermes

27.6.24

A Gaffe de pés trocados

Depois de um dia assustador e repleto de canseiras, a Gaffe gosta de planar pelas avenidas, beberricar um chá na mesa de um café acolhedor, ler devagar os seus favoritos e fazer saltitar o olhar pelas minúsculas partículas de vida que esvoaçam.
Nesta irrisória aventura encontra algumas vezes motivos de perplexidade.
Ontem foi um dia desses.

A rapariga que passou não deixava de ser elegante. Esguia e sinuosa, poderia, num primeiro olhar, parecer digna de figurar no catálogo de achados que a Gaffe vai preenchendo vagamente.
Acontece que, no doce balanço a caminho do mar, a pobre colocava o pé esquerdo no lugar exacto do pé direito e, o direito, colocava-o no espaço onde deveria situar-se o esquerdo.
A Gaffe estranhou o caminhar. Suspeitou de gravíssimos problemas ortopédicos ou de uma espécie nova de dislexia, até perceber que a moçoila marchava como tinha visto os modelos nos desfiles onde os ossos se contorcem até ao limite do desequilíbrio.

Cabra como é - assume-se -, a Gaffe esperou vê-la estatelar-se na calçada, embrulhando as extremidades trocadas e tropeçando nos seus próprios passos. A queda transformar-se-ia numa aprendizagem louvável, num saber adquirido e, placidamente, teria mais uma vez de se reconhecer que a construção da sabedoria dói que se farta.

No entanto, para grande desolação, a rapariga passou ilesa. Pés trocados e ancas contorcidas a balançar periclitantes.

Minhas queridas, este enviesado, oblíquo, arrevesado, estrábico e torto caminhar pertence a um universo distinto do das ruas da cidade. O quotidiano mais banal não se compadece com ilusórias passadas sem luz e sem banda sonora. Se trocamos os pés, imitando desconchavadas o que vemos na Fashion TV, enfiadas no aconchego do lar de pantufas peludas e bolacha Maria em riste, arriscamo-nos a parecer dementes, alcoólicas, saídas de um SPA de subúrbio ou da fisioterapia que não corre muito bem.

Estes andantes pormenores exigem treino e paciência. Exigem o charme quase instintivo de uma maturidade segura. Obrigam a um cuidadoso repensar de imagem total e raramente aguentam umas socas com plataforma de cortiça e tiras a trepar pelos calcanhares.

Minhas caras, a Gaffe levou dez anos a aprender a andar comme il faut! Demorou mais de uma década a descobrir como cruzar as pernas de modo confortável e perfeito, sem se levantar trôpega e com elas adormecidas - e levou o dobro do tempo a reconhecer que não é nada modesta.

Uma mulher deve caminhar como se tivesse dez rapagões a segui-la com os olhos e, sobretudo, tentando não tropeçar nos calcanhares.

Os rapazes não passam incólumes por este crivo.
Não ousem, de perfil patético, despir o casaco e atirar o pobre para cima do ombro, com a mão livre no bolso e sorriso de quem foi, na véspera, para a cama com a Angelina Jolie - ou com o Brad Pitt. Não é credível e deixa-nos com uma desagradável e embaraçosa vontade de rir a roer-nos as entranhas.

Tenham juízo e deixem o cor-de-rosa das imagens que decalcam na gaveta das ceroulas, ou na prateleira dos romances da Margarida Rebelo Pinto, sim?

A Gaffe num mergulho


As constantes oscilações de humor desta rapariga são vastas vezes da responsabilidade da sua incómoda capacidade de observação.
A Gaffe observa o palpitar de tudo, escuta os batimentos dos corações dos objectos, perscruta com afinco o respirar da vida, cata com minúcia o pelo daquilo que acontece e pesquisa à procura de faíscas escondidas nas tempestades e nas bonanças que ao seu lado pairam.

A observação prolongada, constante e obsessiva da vida, fornece ao observador a capacidade imediata e quase involuntária de descobrir em quase tudo pequenas migalhas, diminutas pepitas de ouro, pedacinhos de chumbo ou fragmentos de névoa, que, para os distraídos, não são mais do que absolutamente nada, mas que adquirem sob as lentes do nosso microscópio interior, valor imenso e importância clara e primordial.
Desses pequeninos encontros se vão erguendo histórias internas impossíveis de separar da nossa alma que se estrutura e constrói a cada passo e se reorganiza a cada momento com réstias daquilo que nos é dado olhar.
Quando a observação é extrema e somos dela dependentes mórbidos ou reincidentes, inveterados viciados, veteranos dessa guerra ou dessa paz, humildes servidores ou donos seguros do olhar lançado sobre as vidas, acabamos empurrados e levados, impulsionados e envolvidos, puxados e amarrotados, dominados ou a dominar, mesmo sem o querer, o observado. Somos parte integrante do que olhamos, quer quando o observado fica a milhares de vidas longe daquela que é a nossa, quer quando o que vemos está nas nossas mãos.

Inevitável é esta estranha forma de globalizar a alma e que ninguém pergunte por quem os sinos dobram. Todos os sinos dobram quando a vida é tida por inteiro, quando em nós existem e ficam retidos os traços da vida dos outros, quando em nós o olhar é muito mais que o ver.

Todas as viagens são pequenas colisões com universos distintos do nosso e todas nos provocam o embate com o Outro, o mergulho no Outro.
Olhamos e somos olhados e é nesta simbiose que se adquire a capacidade de operar ou favorecer o crescimento positivo do que somos.
Olhar o Outro e deixar que o Outro nos olhe, consubstancia o âmago da harmonia mais simples e a simplicidade é factor essencial para a evolução sustentada e sustentável dos nossos mais interiores e mais íntimos edifícios.

Se estas visões, estas trocas externas e internas de olhares, estes mergulhos bilaterais, se fizerem a partir de uma partilha consensual de uma viagem, o resultado torna-se perene, porque deixa paisagens em retinas díspares abalroadas pela mais pacífica das cumplicidades.

Posto isto, façam um favor: não usem lentes baças quando nos abraçarem nos lugares tocados pelos olhos dos nossos corações.

Assim, a Gaffe oscila e deambula pelas emoções sem medo ou desgraça. Sabe que o baloiço é empurrado sempre pelas diversas mãos do demasiado amado sentir do mundo a sentir.

O resto é apenas a Gaffe de asas abertas.

26.6.24

A Gaffe no final da sinfonia


A sala de concertos estava repleta.
O público borbulha nervoso à espera dos finais das sinfonias de Bach.
Na semana anterior ouvira-se Wagner. Era a vez dos finais de Mahler, e de Schumann. Os fins de Debussy ficariam para o mês seguinte, que as duas outras salas existentes estavam ocupadas pelo concurso do mais rápido maestro do momento, aquele que num ápice acaba Beethoven, a nona ou outra que escolherem.

O homem acomodou-se na poltrona. O camarote tinha sido reservado no imediato momento em que foi anunciado o concerto. Podia esgotar e o senhor nunca se perdoaria ter deixado - por descuido, indolência, falta de atenção ou letargia - de ouvir os finais das sinfonias.
Ainda pensou que talvez fosse melhor assistir ao concurso do maestro mais rápido do mundo, na sala ao lado daquela, mas o mês ainda estava no começo e se se apressasse seria possível assistir à final.

Olhou a plateia.

Havia gente por todo o lado e de todas as classes. Pré-primária à frente, logo seguida do primeiro ciclo, segundo ciclo, jovens universitários, licenciados, doutorandos e professores de cátedra, misturados com sucessos de carreira oriundos de outros lados e de percursos distintos destes.

Sentia-se pertença do grupo dos profissionais que, sem trilho académico, tinham atingido todos os objetivos propostos e alcançado o sucesso almejado num curtíssimo espaço de tempo. Aos cinquenta era já reconhecido como incontornável perito nas matérias que só os muito mais velhos dominavam. Novo, muito novo – os cinquenta o que são?! -, tinha o estatuto que sempre desejara e pelo qual tinha lutado todos os instantes. Depois foi só correr até à reforma - rzoável e segura - que autorizava a compra do camarote para assistir aos finais das sinfonias.
Sempre foi um homem normal e normal é vestir o que compramos para trabalhar conduzindo através do trânsito num carro que ainda estamos a pagar para chegar a tempo ao trabalho que precisamos para poder pagar as roupas e o carro e a casa que deixamos vazia todo o dia para que nos seja permitido lá viver.

Neste tardar, o homem foi acometido pela sensação de nunca se ter sentido diferente nos momentos em que alcançava cada um dos seus propósitos. Por ser normal, é que sentiu que talvez não fosse má ideia repensar o modo como lutava pelo que valia mesmo a pena defender.
Nos finais das suas brigas e batalhas, das suas pressas, nunca se tinha sentido maior ou menor, pior ou melhor. Finalizado um projecto, corria atrás do fim de um outro, sem nunca se ter apercebido que procurar o fim das coisas e das lutas, buscar o terminal dos objectivos com a ânsia de o atingir com um brilho de um raio, tinha apenas permitido comprar o bilhete para o concerto a que assistia e possibilitado a reserva do lugar para o concurso de maestros.

A cortina moveu-se nervosa. Tardava alguns segundos.
Levantou-se, desta vez muito devagar, e saiu.

Em casa, pegou no comando da televisão e foi de canal em canal à procura das sinfonias inteiras.

Encontrou apenas a MTV.
Ilustração - Marius Van Dokkum
Animação - Joel Remy


A Gaffe a escaldar


O Verão, meus caros, promete esturricar o Acordo de Paris e posteriores. Por isso, rapazes, não nos queimem o desejo de vos admirar, tritões ou , a sair das águas cálidas, a escorrer sensualidade pelos calções colados à pila.

Não sejam parolos. Evitem os estágios em microondas. É cansativo esperar que a melanina cumpra o que promete, mas imitar os índios Tupi, barrados de vermelho, com argila enfiada até no rabo, não convence uma macaca tropical, para além de vos transformar num placard escarlate de perigo iminente ou num diabrete com excrescências pouco atreitas a manobras de reanimação mais íntimas.

Depois, é imperdoável que só ao fim-de-semana nos brindem com a visão dos vossos troncos nus.


Nos dias úteis o sol também trabalha e se existem almas que consideram sexy as marcas de um biquíni, uma singlet incorporada, encastrada, tatuada a Norte do paraíso, desencoraja e aniquila o desejo de morder maçãs e restante fruta da época.

São duas regras básicas que deveis seguir e que impedem que nos tornemos lésbicas no Estio do nosso descontentamento. Convém guardar dentro dos speedos. Salvam-vos do deserto - embora não impeçam os camelos - e disfarçam, porque volumosas, a falta de consistência da Lycra.

Nota da redacção - Quando saírem da água, não olhem para os calções colados à pila, nem tentem afastar o tecido da pobre encharcada. A tendência é olharmos também e, por muito estranho que pareça, evitarmos o mergulho, porque a água nos parece sempre estar gelada.

 

25.6.24

A Gaffe casamenteira


A Gaffe não é de todo perita na área, mas acredita nos relatos e testemunhos dos seus mais queridos amigos que no altar viram redobrada a paixão que sentiam pela mulher que deslizava envolta em nuvens. Juraram nunca mais ter sentido o aroma daquele dia em que a noiva se tornou sua mulher.

Alguns estão divorciados, mas isso não contamina o que se quer dizer.

Um dos pormenores essenciais a que uma noiva tem de dedicar especial atenção é o perfume que vai usar no dia do enlace.

Importantíssimo.

Há pelo menos cinco considerações que se devem anotar:

1 - Nunca o ter usado. O perfume deve ser uma estreia. Como se depreende, não será de todo conveniente enfiar o frasco dois dias antes nas narinas do rapaz e perguntar se a criatura gosta.

2 - Enfrascarmo-nos, despejando sem qualquer receio o perfume pelo corpo. As flores da igreja vão tentar abafá-lo e é preciso que sejamos nós a calar a porcaria dos arranjos.

3 - Não nos preocuparmos se o noivo revelar sintomas de falta de ar quando nos aproximarmos. Vai pensar que é apenas porque chegamos e a comoção se torna asfixiante. Os convidados que tragam uma botija de oxigénio.

4 - Nunca mais o usar. É imprescindível que abdiquemos do perfume escolhido. O noivo deve acreditar que apenas no dia do casamento sentiu no ar o mais perfeito dos aromas. Se o usarmos quando cozinhamos arroz de polvo ou bacalhau à lagareio, quando nos esbardalhamos no sofá a ver as noivas de Stº António ou a ouvir César das Neves, podemos dizer adeus à cebolada.

5 - Não beijocar as amigas e as convidadas depois de termos despejado o frasco em cima de nós. Os perfumes misturados causam náuseas e não é bonito termos o padre a vomitar-nos o véu.

A memória olfactiva dos rapazes, maior do que a visual, é um trunfo que devemos usar e abusar em dias especiais, marcando-a irremediavelmente, para que no dia em que vamos assinar o divórcio e voltarmos a usar pela segunda e derradeira vez o perfume fatal, o homem perceba que jamais encontrará no bocado miserável da vida que lhe sobra uma mulher que o consiga asfixiar de forma tão perfeita como nós.

A Gaffe queirosianamente fácil


Deparo-me, nas minhas andanças por diferentes Avenidas, com verdadeiras jóias, inesperadas, mas perfeitamente aceitáveis tendo em conta os contextos e as épocas em que foram ditas ou escritas.
Fornecem pequenas - contudo brilhantes - informações acerca, por exemplo, de como era encarada quer a narrativa para a infância, quer os seus produtores.

Tomemos, retirando à toa, uma das Cartas de Inglaterra de Eça de Queirós onde é louvada a literatura infantil inglesa e aconselhada a adopção iluminada deste tipo de narrativa fácil.
Ouçamos:

(...) eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever estas fáceis histórias (...)

É natural que senhoras inteligentes e pobres não possam pela certa ser convidadas a escrever O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, cujas narrativas não são de todo fáceis - embora exijam produtor inteligente. É também curioso verificar que, aparentemente, a razão que origina a recomendação desta actividade seja a pobreza de quem é reconhecidamente inteligente, assim como o desejo manifesto de que esta literatura infantil esteja presente entre os nossos costumes domésticos.
Apesar do aceitável mau grado com que lemos estes anacronismos, somos obrigados a reconhecer que, também aqui, Eça é um iluminista. Ao pretender reformar os costumes, reconhece e considera que a literatura infantil serve essa reforma, não se esgotando nela evidentemente.

Mas não deixa de ser interessante este olhar queirosiano sobre o que na época se poderia apelidar a Literatura do sotão.

E não deixa de ser pertinente verificar que hoje o leque de quem escreve estas histórias fáceis se abriu imenso, incluindo também gente muito pouco inteligente e de todas as posses e poses.

Ilustração - Edouard John Mentha


24.6.24

A Gaffe atingida


Foi ao sair, e eu saio sempre como quem foge da chuva, que me apercebi num vislumbre que tinha espetados nas costas os olhos do homem. Duas agulhas pardas e pequenas, disparadas certeiras. Atravessava a rua com eles enterrados na carne, quase perfurando uma omoplata, mas não sentia dor alguma. É evidente que os dardos se fixariam ali, a necrosar, se não tivesse visto pelo canto dos olhos as órbitas do homem vazias e escuras, tenebrosamente túneis. Com a mão tentei atingir os pontos que começavam a causar ardor. É difícil chegar com os dedos ao vértice inferior da omoplata se o caminho for o da curva dos ombros, por isso foi depois de gesticular de modo confuso durante algum tempo que percebi que o problema se resolveria se fizesse o percurso contrário, ou seja, dobrar o braço na esquina dos rins e ir tacteando até encontrar o bico que desesperava. Quando toquei as agulhas compreendi que não seria fácil arrancá-las. Apenas os nervos ópticos se deixavam sentir, como vermes minúsculos, fora da minha carne. Os globos oculares, pelo contrário, haviam sido engolidos completamente. Os olhos do homem tinham sido disparados para que o meu corpo, mesmo invisível, não abrisse ferida, de modo a que tudo se assemelhasse ao fundir de duas labaredas com num incêndio. Por baixo da blusa as minhas unhas rasparam as duas excrescências até as sentir possíveis de prender. Depois as pinças puxaram. Muito mais forte do que a recusa em acreditar nos dois ovinhos, saltando no chão directos ao ninho, foi a surpresa de me ver irrepreensivelmente controlada durante a operação.

Há homens que deviam nascer sem olhos.

Imagem - Cecilia Paredes
 

A Gaffe balzaquiana


Leio Balzac, Le Père Goriot, pelas razões óbvias - não há traduções condignas -, mas sobretudo por me recusar a deixar de o fazer na língua de origem.

Deitada na cama, encostada às almofadas, repleta de spleen como convém a quem lê Balzac por motivos muito pouco literários.
A minha mão segura o livro que vou desfiando folha a folha sem entusiasmo, sem mergulho denso e mais do que perfeito no pulsar do romance.
 
O braço esquerdo erguido, pousado na cabeça, esquecido, à toa, vadio e indiferente, deixa que a mão vagueie pelo rosto. A mão esquerda, que não ajuda em nada, tonta e liberta da minha atenção, porta-se como elemento exterior a mim. Passeia no meu rosto, pelo meu rosto, na face direita desenhando rumos e caminhos. Esqueço-me que é minha e sinto-a a descobrir as órbitas, os maxilares, o queixo descarnado, as maçãs do rosto ósseas, os ossos por inteiro.

A minha caveira.
A finitude palpada pelos meus dedos, a brutal consciência da mortalidade.

A Morte cá dentro a ler Balzac

23.6.24

A Gaffe no pedestal


Contava a minha avó que em tempos ido uma das suas amigas favoritas ao passar por uma chapelaria – Chapéus de senhora e cavalheiro – no Porto, na velha rua de Stª Catarina, se encantou com um busto feminino que na montra ostentava um magnífico chapéu com duas penas negras.

Entrou e confessou que por aquela cabeça de boneca pagaria o que lhe fosse pedido.

A moçoila do balcão, encarregada da loja, firmou que era peça que não estava à venda, troçou do excêntrico desejo e gosto da senhora e perante a sua insistência decidiu calçar chinelos, traçar o avental e aproximar a chapelaria das bancas do Bolhão, ali tão perto.

A senhora saiu de mãos vazias.
Meses depois comprou a chapelaria e despediu a mulher.
O busto era dela finalmente.

Por manigâncias do destino que se tornam enfadonhas referir aqui, tenho-o agora na sua peanha Arte Nova pousado na mesa de vidro, a esquecer-se no no Douro.
Para além da sua indiscutível beleza guardada nos olhos lânguidos, nas ondas de madeira do cabelo, na boca breve desenhada pelo bâton rigoroso e nos adornos subtis que identificam a corrente artística que a esculpiu, a cabeça agora sem chapéu esconde a história da mulher que perdeu o emprego por ousar negar com demasiado alarido vender aquela peça.

Sei-lhe o nome, porque foi o nome dado à mulher do busto. Chamava-se Luísa. Não sei mais nada.

Aquando do sorteio, os deuses raramente retiram a bola branca que dá acesso a alguns a quase tudo sem restrições ou constrangimentos, mas são largamente generosos quando constroem estas minorias e brutais com os que restam.

Sou suficientemente fútil e superficial para passar ao lado das grandes dores sem queimar as asas da minha indiferença, recuso equacionar todas as tolices do Universo e, embora não se perceba muito, não sofro de grandes angústias existenciais.

No entanto, ao olhar para a Luísa, dói-me sem eu saber porquê o abismal e tenebroso buraco negro e vazio que se ergue daquela peanha Arte Nova.

22.6.24

A Gaffe em queda livre


Há uma expressão, no Douro, que descreve de modo certeiro aquilo que me aconteceu: esparranchar.

Eu esparranchei-me.

Chegada ao Douro, congeminei um tarde bucólica, repleta de pormenores diáfanos e campestres, no exterior ajardinado pelo fim da Primavera.

Depois de quase ter sido quase colhida por um touro bravo - e não adianta tentarem convencer-me que aquilo era apenas uma vaca a olhar-me de esguelha; depois de ter tentado dar uma traulitada com um galho seco nos dentes do granizé psicopata - e não adianta dizerem-me que o animal é indefeso, porque de fraco o galináceo tem apenas o tamanho; depois de me ter lambuzado com leite-creme - e não adianta segredarem-me que devia ter mais cuidado com as minhas maneiras, porque só me dá prazer saborear a doçaria se sentir o açúcar a besuntar-me o queixo; depois de ter procurado a minha irmã para um fim de tarde intimista e a ter encontrado mergulhada no portátil, de telemóvel em punho, de nervos esticados e olhos de assassina - Não. Agora não. Vá brincar com o gado -; depois de tudo isto, decidi pesquisar os recantos ainda ilesos desta casa.

Encontrei a porta e abri.

Tão simples como isso.

Havia uns degraus de madeira por encerar, uns objectos de lata pendurados na parede, numa trave de madeira, e depois o escuro.
Agradam-me as caves. São silenciosas, albergam sempre segredos e velharias interessantes e tornam-se óptimos locais para uma rápida sessão de espiritismo.

Os primeiros degraus foram difíceis, porque trazia a luz de lá de fora, mas foi por causa do quinto que me esparranchei.
O pé fugiu e, numa procura desesperada de equilíbrio, agarrei nos tachos pendurados e com eles desabei escada abaixo.
Contei com o rabinho como amortecedor e é um mistério ter aterrado de pernas para o ar, de cântaro de medir feijões na mão esquerda, um almude de lata agarrado à outra e de pernas abertas no espaço a abençoar a escolha que fiz logo de manhã da inha lingerie toda rendada.
O alarido deve ter sido medonho, porque ouvi os tacões apressados da minha irmã a massacrar o soalho e o bigode do Domingos logo atrás do ombro da rapariga espantada.

- Então a menina caiu?! - pergunta o senhor sem o mínimo vestígio de preocupação, muito atento à minha lingerie.
- Não! - irrita-se a outra menina -  a minha irmã costuma ficar de patas para o ar no fim das escadas de todas as caves que encontra pelo caminho. Um hábito. - A insensível maninha despacha o expediente e desaparece, demonstrando a sua completa indiferença pelo meu sofrimento.

Isto de nos esparrancharmos sem avisar primeiro o pessoal revela as faces mais cruéis dos outros e comprova que a única tarde bucólica que vale a pena é aquela que é passada em frente a um quadro de Poussin.
Gaffe - 2018

A Gaffe mapeada


Todos temos um mapa na alma.

Uma carta de viagens que foram exteriores e em que tivemos como parceiros aqueles com quem nos cruzamos. Agora, já metamorfoseada, já inscrita no interior do peito, desejamos a imutabilidade, a perenidade dos traços.

Paradoxal desejo este que, perante a visão certeira e contínua de um mapa em mutação constante, retém a vontade incontrolável de o vermos quieto, como se em vez de uma caótica carta de emoções guardássemos dentro colecções inteiras e catalogadas de fotografias.

Esta inominável dualidade faz com que cada momento de mudança, breve que seja, se encare como ponto final, um porto de chegada. O movimento é sentido, mas é retido o mover do seu mundo. Imobilizamos o instante e acreditamos, mesmo sem força, que aquele brevíssimo segundo, o último que vimos, é o que permanecerá no mapa desenhado.

Dentro de nós há lugares que desconhecemos por completo.

A dor abre-lhes as portas e só então percebemos que existiam desde sempre. Visitamos estes compartimentos revelados, povoamo-los de bricabraques de memórias e deixamos que o sol os invada e levante a poeira que continham.

A dor é desta forma similar a uma chave que sempre esteve na palma da nossa mão sem o sabermos. Os espaços abertos são redutos ignorados, ou bunkers invioláveis, até ao momento em que os percebemos nossos desde o início do tempo.

A felicidade é somente um corredor sem história por onde caminhamos sempre de costas voltadas para os nossos mais soturnos sofrimentos.

Creio que a ampliação da alma se faz apenas através da dor.

A ausência dela raramente conta histórias que fascinam.

A aliança não estranha, embora ocasional, entre felicidade e a ausência de Dor, amolece e amortece, atenuando o instinto de sobrevivência que é um dos motores da criatividade humana.

Há uma face estética na dor que a torna, muitas vezes, no lugar-comum dos artistas.

A arte pode então ser uma confissão discreta de uma dor imensa, mas pode resvalar, metamorfoseando-se na mise-en-scéne sentimental de alguém.

Estou amiúde sentimentalmente céptica em relação aos que exprimem bem a sua dor. Sobretudo daqueles que fazem dela um poema.

Os grandes trágicos são mudos e choram no silêncio. 


21.6.24

A Gaffe caprichosa


Depois de ter fechado a alma, uma rapariga tem de se preocupar com a vida e a Gaffe pensou chegada a altura de alterar a sua, tão pequenina. Não suplicou aos senhores do Querido, mudei a casa porque sempre receou a qualidade do Leroy Merlin, temendo em simultâneo que lhe surgisse o Cláudio Ramos a deitar as cartas - não adianta perguntar a causa da aliança que a Gaffe fez entre este querido e a sorte, pois que é mistério.

Arrancou do coração - cúmplice de todas as horas contidas em trinta e alguns anos -, as montanhas de paciência de que necessitou para desatar o espartilho da sua profissão e deixou de exercer - apenas de exercer -, medicina. Definitivamente. 

Partindo deste facto, a Gaffe estende a sua indolência à dúvida existencial que se sintetiza na questão seguinte:

Qual o momento certo para mudarmos a vida ou, pelo menos, a base em que a vida está impressa?

Embora a pergunta não implique necessariamente Agatha Christie, é declaradamente um caso CSI provável e inconsolavelmente irresolúvel. É contudo importante uma investigação acerca das motivações que estão na base do desejo de uma radical ou de uma subtil mudança na forma como vivemos.

A urgência que sentimos de alterar o corte de cabelo e tornamo-nos um Fábio Coentrão em vez de Grace Kelly; mudar a cor do bâton, surgindo com lábios esverdeados como se tivéssemos sugado, furiosas, um calipto de corantes; desatar a imitar o Everest trocando as pindéricas sabrinas por uns vertiginosos Manolo Blahnik; aparecer de speedo um número abaixo do confortável e do aceitável, quando sempre usamos tenebrosas bermudas pelos tornozelos - mesmo sabendo que as regiões antes impedidas de bronzear dificultam a ousadia -, ou simplesmente fazer brotar da nossa boca mimosa o cacto de um palavrão grosseiro, electrocutando a elegantérrima forma com que sempre nos exprimimos, é sintoma de esgotamento, de saturação do quotidiano, de vontade de seguir a estação que se renova, de tédio, de fastio, do que somos, de necessidade de nos termos, só para nós, de forma reanimada, mas é também o anseio de sermos vistos pelo Outro de uma maneira encantatória, de por ele sermos olhados com os olhos da surpresa e do reencontro, de o fazermos acreditar que existe mais em nós a descobrir e de nos fazermos acreditar exactamente nisso.

A qualquer momento surge esta urgência tranquila de sentirmos que temos dentro a inesgotável capacidade de mudarmos. Quando não temos instrumentos reluzentes para levar a cabo esta ambição, usamos uma cor diferente de bâton, desequilibramo-nos em cima de sapatos a que jamais nos habituaremos ou mandamos bardamerda o rapaz que sempre nos teve como ponto assente.

No caso da Gaffe, neste específico caso corriqueiro, o desejo de mudar este seu canto da vida, foi provavelmente apenas um capricho.
Não se deseja alterar o vazio quando não existe ninguém do outro lado da porta.

20.6.24

A Gaffe no oriente

- Deixe de responsabilizar os outros pelas suas desgraças. Aprenda fen shui e culpe a mobília.

Mana

A Gaffe num voo de gaivota


Regresso finalmente à luz da superficie plana que fora de mim suporta o que de frio tem a vida inteira, como que chegada a um corpo numa manhã de tronco nu. Regresso ao corpo da manhã de tronco nu. À curvatura do peitoral esquerdo onde lateja com mais força o coração. Batida certa, compassada e branda. Regresso ao corpo de socalcos como quem se perde, como quem espera num porto o marinheiro que se quebrou no mar, ou dentro da orquídea da nuvem sobre as ondas, e abro as mãos despidas sobre a pele até a pele doer devagarinho, até sentir os peixes dentro dela, retorcendo escamas, reflectindo a lua e mordendo a água que é suor e pedra.

Lá fora a minha Avenida passa por mim e entra no meu peito.

Desenho no vidro da partida a saudade que chegou precipitada. Sempre adiantada, a saudade em mim.

Durante todo este pouco tempo de interregno, um tempo da Avenida com um nome tropical, um tempo de Ribeira Negra e gritos de gaivotas, esperei sem destino ou marca, quieta e obediente, que dentro de mim se rasgasse uma janela que perdesse o que sou, quase consciente da minha vacuidade e da inutilidade dos meus olhos. Durante o tempo da Avenida não fiz perguntas a não ser por dentro, sem nunca me esquecer por um instante que a alma não responde ao ritmo do bater do coração da dúvida.

Olho agora este meu Porto quieto e percebo o modo como se fechou cobrindo em mim aqueles que passavam. Um imenso cão de guarda de sentinela a um berço.

É tempo de me entregar à minha outra luz e nenhuma outra luz me lavou o corpo como a do meu Douro.

O Douro dentro da chuva solta nos caminhos, preso nos telhados, procura a minha alma para se abrigar e vai encontrar a minha Avenida coberta de mar agarrado às pedras e um Porto inseguro com sabor a vento.

Espera-me o alvorocer sobre os telhados que doura a saudade do Douro no meu peito. Cachos de janelas, parras de cortinas e a quietude dos socalcos dos andares onde canso os olhos na subida. O Douro despovoado na  minha Avenida e um rio no voo do pardal. A concertina num cesto de vindimas e o meu corpo nu na valsa de calcário.
No Douro é madrugada e a luz ainda não tem sombra. Vem azular as coisas, recortar no espaço as silhuetas das árvores, dos anjos do lago, do corrimão de pedra. Apontar os caminhos abrindo os labirintos de sebes e de arbustos. Introduzir os dedos nas frestas dos ramos escuros dos pinheiros mansos e deixar lâminas nos degraus cinzentos que desci.
O frio chega sempre em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro que o peso assombroso da paz cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve o que somos e faz aluir a coragem que existe em enfrentar toda a luz que surja sem remorsos.

Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta a azular o dia.

O carro rompe na Avenida. Voo depressa. Quero chegar ao Douro manhã cedo.

19.6.24

A Gaffe claramente exagerda


A Gaffe retrocede pois que não tem a certeza de ter ouvido Marcelo Rebelos de Sousa a referir-se a uma presidenta com que se cruzou num país estrangeiro.

A Gaffe faz marcha atrás pois não sabe se ouviu bem Marcelo Rebelo de Sousa a declarar que uma presidenta tinha uma opinião semelhante à sua.

A Gaffe voltou para trás para se certificar que Marcelo Rebelo de Sousa falou numa presidenta de um país estrangeiro.

Marcelo Rebelo de Sousa esbandalhou mesmo a presidenta.  

A Gaffe já desistiu. Se um Presidente da República consegue tão linda e descaradamente tropeçar na sua língua – literal e metafórica -, é de concluir que ainda tem muitíssimo para ler.  

Não é agradável perder tempo com Marcelo - Marcelo encarrega-se de o perder sozinho -, até porque a Gaffe acredita que desta vez corre o risco de se tornar maçadora, tendo em conta o rol de pequenas indignações que hoje por aqui deslizarão. Como diria um pivot da nossa praça, são pequenos detalhes que escorregam em pormenor por estas avenidas.

Olga Esther
A Gaffe passa então os olhos por Clara Não que nos avisa que passamos mais tempo na escola a estudar o Monstro do Cabo das Tormentas do que a falar de autoras mulheres.Esta pobre rapariga ruiva não entende muito bem o preclaro título escolhido. Falar do Adamastor em nada destrói a capacidade de se estudar autoras mulheres – numa subtil, provável e agradável referência ao Presidente e uma denúncia à quantidade exagerada de autoras homens contida nos cânones literários que se movem lentos.

Clara Não continua:

Claro que é importante olharmos para os clássicos, mas não conseguimos cativar os jovens quando os estamos constantemente a aborrecer. Basta pensar: quantas vezes ouvimos alguém dizer, com honestidade, “Amei a descrição dos azulejos d’Os Maias”? “O meu escritor favorito é Luís de Camões”?, ou “O meu ídolo é Gil Vicente”?

A Gaffe, para além de suspeitar que os azulejos queirosianos não são propriamente cerâmica destinada a forrar os nossos corações, lembra-se que foi o avô - que também a treinou a dividir orações e a classificar a métrica -, que a ensinou a ouvir nas estrofes de Os Lusíadas – o verbo nunca esteve errado -, os cintilantes e estridentes ruídos das batalhas; que lhe mostrou o modo de se amar constelações; que a ensinou a construir um relógio de sol; que a guiou nas rotas e nos mapas, avançando sempre com o avisado Restelo ao longe; que lhe mostrou todas as madeiras, todos os ouros, o sangue e dolorosas vontades, todos os medo e todas as coragens, todas as insidiosas vinganças de tertúlias divinas – e mais que não se diz por ser verdade -, e sobretudo a instruiu a a viajar ao encontro daquela cativa que o fez cativo

(…)
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
(…)

Foi o avô que a conduziu pelas alcoviteiras ruelas de Brísida Vaz - Eu não sei quem te cá traz… -; que, com ferramentas de ourives, a fez sorrir à astuta Inês Pereira que preferiu o burro por desilusão; que a fez ouvir Mofina Mendes, humano e ternurento lirismo ainda medievo e que lhe mostrou como é fabuloso rir, castigando os costumes, ou chorar castigando aqueles que os tornam trágicos.

E tantas outras vidas e contextos!

Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina, Garcia de Resende,  Bernardim Ribeiro, Cristóvão Falcão ou Sá de Miranda.

Tantas outras vidas!

Voltemos a Clara Não:

Há uma dificuldade real em criar hábitos de leitura em crianças e jovens que cada vez mais estão colados a ver vídeos de trends sem qualquer informação útil – afirma.

 Reconhecer as letras, saber uni-las, construir sílabas, erguer frases e chegar aos fins dos parágrafos é céu-aberto para uma criança.

Esta felicidade estende-se aos adultos que ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando a criança reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho da ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas.

Agora que já sabe ler, é um alívio. É autónoma. Já permite que os deixemos, a ela e ao livro, entregues um ao outro.

Agora que já sabe ler, não sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada e perdida por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. Lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinha, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.
A Gaffe suspeita que descobrimos isso apenas quando a criança nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de verde a capa do príncipe, quando é lilás para condizer com os olhos da princesa e nos retira, maternalmente, o livro da mão.

A Gaffe acredita que descobrimos isto apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira do cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história que nos vai adormecer.

A partir desse momento, todas as palavras deixam de ser nossas, que somos tias tontas que não sabem ler, para se transformarem no ninho dos sonhos que fazem leitores. 

Jonathan Wolstenholme

João Miguel Tavares, por quem a Gaffe não nutre especial simpatia, não impedindo esse facto de estar disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção -, foi apanhado há tempos idos, a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

As crianças ficam aborrecidas com Alves Redol. Não devemos ler Alves Redol às crianças. Não devemos ter roseiras nos recreios porque as crianças se podem picar. Verdade. A Gaffe não inventou agora.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

Ouçamos de novo Clara Não:

(...) Ora, garanto que não é com falta de representatividade que se resolve o problema. Precisamos de mais atenção a livros escritos por mulheres, de representatividade de cores de pele, de enredos cativantes, de personagens e autores, e de representatividade LGBTQIA+ nas obras e excertos exemplificativos do currículo de Língua Portuguesa.

Não existe boa e má literatura e a Gaffe também suspeita que não existe literatura feminina, colorida, gay, de aeroporto ou de WC.

Ou há literatura ou não há literatura.

É tão errado referir determinada obra como má literatura, como classificar uma outra como pertença do inverso. É maçadora a discussão em redor dos fenómenos que permitem o reconhecimento dos escritos como peças literárias, nem sempre os cânones incluem as que eventualmente se consideram dignas de figurar no seu historial e as exclusões correm sempre o risco de encontrar discórdia, mas é sempre possível treinar a capacidade de se reconhecer instintivamente um bom livro, porque, não existindo boa e má literatura, existem contudo maus livros. Não é conflituoso reconhecer os agrupados nos universos literários que usam todos os crivos que foram construídos ao longo de séculos pela Teoria da Literatura, mas os que sobram estão na origem de uma questão que permanece:

Ler seja o que for, é melhor do que não ler nada?


A resposta afirmativa que se justifica alegando que ler seja o que for, gera o hábito de leitura, promovendo-a e incentivando-a, não colhe dividendos. Admitir que é possível ler a Maria ou medíocres romances de cordel e desaguar numa escolha mais criteriosa e de maior qualidade no futuro, é esperar sentado que chegue Godot. Um mau leitor é demasiadas vezes iniciado pelo consumo de peças de duvidosa qualidade literária para facilmente retroceder, alterando o caminho. Os maus livros são livros fáceis e a facilidade é aditiva.

A sujeição do leitor, por exemplo, ao uso de fórmulas nos romances de aventuras juvenis de sucesso mais do que adivinhado, quando não aliada a alternativas mais complexas oferecidas por outras obras do género, torna mais fácil o desenvolvimento do que se convencionou chamar Síndrome de Blyton. A repetida fórmula - grupo + problema/mistério + envolvimento do grupo + perigo + resolução do conflito pelo grupo + final feliz -, origina um casulo mental que se torna difícil quebrar com a introdução de premissas diferentes ou mesmo alterando a sua ordem. Um consumidor assíduo e exclusivo destas fórmulas, é mais susceptível de se tornar um adulto com maior dificuldade em acompanhar uma obra que não possui estas artimanhas ou estas armadilhas, e aos que partilham esta opinião chamará intelectualóides, presunçosos, castradores da liberdade de ler, fascistóides ou mimos similares.

Dificilmente gostaremos de Proust quando sempre caminhamos à sombra das Marias em flor ou nos viciamos em medíocres guerras de tronos, sagas vampirescas e melosas tramas de cordel delicodoce.  

A apelidada educação para a leitura é uma oficina de trabalho árduo, mas essencial para a formação de um bom leitor. Nesta tarefa temos a obrigação de contar com a extraordinária capacidade de selecção daqueles que se iniciam nestas andanças. Seria tontice esquecer que a clássica Literatura Infantil é uma literatura de apropriação e que foram as crianças que se apoderaram de obras que não lhes eram destinadas. A Cabana do Pai TomásOliver Twist ou Huckleberry Finn e mesmo Mulherzinhas foram retirados da biblioteca dos adultos por crianças que as entregaram à mais apurada lista de literatura infanto-juvenil.

Se o primeiro passo na construção de um mau leitor se faz demasiadas vezes com a escolha, aquisição ou oferta de um mau livro, não é lícito concluir que um bom leitor se macula quando toca numa obra menor. Não a proíbe ou excomunga, nem se esgadanha quando encontra uma pelo caminho. Normalmente ignora-a de forma natural e quando não o faz, passa por ela sem por ela ser tocado.

A literatura universal está nas mãos de todos e é de tal forma imensa e povoada que perder tempo - e que imensa perda de tempo! -  com um mau livro, quando poderíamos em troca tricotar um cachecol, devia ser entendido como pateta ou, no mínimo, fazer com que nos sentíssemos a usar um pechisbeque quando nos entregam todas as colecções de joias que a nossa vida pode imaginar.


Nota de rodapé Todo este rabisco teórico, salpicado por uma ligeira demagogia e polvilhado por uma dose substancial de blá-blá-blá, deve ser lido como uma espécie de esfregão da consciência um bocadinho pesada da Gaffe que é indiferente, vergonhosamente indiferente, ao que os outros costumam ler, se está borrifando para os livros que se vendem ou se deixam de vender e que, no que diz respeito à leitura, segue o famigerado "cada um sabe de si e os editores sabem de todos".

18.6.24

A Gaffe de Anouk

You know what charm is: a way of getting the answer yes without having asked any clear question.
Albert Camus

A Gaffe recorda Anouk Aimée
Lembra-a amadurecida, usando e abusando do esplendoros fascínio que veio a adquirir.

À medida que a idade avança, os poros outrora imperceptíveis, abrem-se em crateras. É por estas que a inteligência começa a deslizar, iniciando o seu percurso mais visível. Então, chamam-lhe charme ou Anouk Aimée, como quisermos. 

Uma mulher estúpida jamais será charmosa.

A Gaffe agente dupla


O que separa, ao primeiro olhar, uma criatura angelical, ingénua, colegial, simpática e benévola, capaz de um voluntariado qualquer, repleto de boas intenções e de sacos de hipermercado, de uma cabra altiva, implacável, carniceira, dominadora, insensível e obstinada?

Num primeiro olhar - que, digam o que disserem, conta muito mais do que se pode imaginar - afirmaria, sem hesitar, os sapatos.

Evidentemente que há criaturas medonhas com laçarotes rasos nos pés e santas de salto alto, mas a experiência indica que o contrário é mais usual.
Não é, de modo nenhum, confortável andarmos a calcorrear os becos e as esquinas, com agulhas abissais e abismais nos pés, à procura de quem, normalmente, passa bem sem a nossa insistente caridadezinha e, pelo contrário, não há na Empresa ninguém que nos obedeça se tivermos calçados umas sabrinas com lacinhos amorosos.

É escandaloso e triste, mas não podemos negar a evidência.

Os homens que iludidos pensam deter algum poder que nos supera, receiam as mulheres que são capazes de fenomenais equilíbrios, seja em que matéria for e ignoram ou, no mínimo, sorriem condescendentes perante a menina que lhes apresenta os dossiers completos e estudadíssimos das futuras aldeias olímpicas, com laços fofinhos a abanar nas extremidades inferiores.

Os homens, todas as raparigas espertas o sabem, são previsíveis.

Portanto, minhas queridas, deixem-se de tontices e usem estratégias inteligentes de compensação. Não insistam heroicamente no que sabem que não vai resultar perante a mente estereotipada do poder masculino. Usem os dados que eles viciam. Usem-nos a vosso favor.
Se querem ser obedecidas, tornem-se fisicamente maiores do que eles, cresçam com a ajuda de doze centímetros de Louboutin e façam como o cavalo do cortejo: passem, borrem o que há para borrar e sejam aplaudidas.
Se querem o ursinho de peluche com coleira de diamantes que vos servirá de pulseira, lacem os sapatinhos e saltitem.

Posso não ser feminista, minhas caras, mas a verdade - a de alguns deles - usa sempre saltos altos.

Imagem - Cai Liang - A roupa nova da Imperatriz

17.6.24

A Gaffe num Porto de abrigo

Este é o meu Porto: uma mesa de água, com pão de casario e névoa como vinho.

A Gaffe comparatista


É interessante colocarmos lado a lado um rapagão portuense, o que melhor conheço, e um parisiense, que conheci e que me provoca saudades.

As diferenças podem não ser notórias, mas insinuam uma ausência de cosmopolitismo no primeiro, que, para além de assustar um bocadinho, deixa que o rapaz permaneça numa espécie de limbo onde as certezas são de betão com aberturas transformadas em frinchas por onde a claridade tem algumas dificuldades em penetrar.

O portuense é, na maioria dos casos, conservador e rotineiro, considerando, num homem, demasiado ousado, ambíguo e suspeito, qualquer atitude que por tradição é apanágio do sexo oposto.

É embaraçado que o vemos de lista de compras na mão, à procura da marca de pensos higiénicos que a sua amada lhe pediu para comprar e tem a tendência para sorrir e espetar uma piadinha raquítica acerca do assunto, quando a menina da caixa faz apitar o código do produto.

Raramente o vemos sem as cores discretas da monotonia e, quando acontece uma camisa verde alface, surge o constrangimento aliado a uma necessidade imbecil de justificar o uso de um elemento discordante no panorama discreto das ruas opacas.

É quase impossível encontrá-lo com a descontracção necessária à alegria e à solar necessidade de sorrisos abertos, entregues aos passageiros que com ele cruzam. Fecham-se e desconfiam de abordagens estranhas e estrangeiras, procurando escudar-se com a urgência do tempo e do caminho que são obrigados a calcorrear para não perder o que sabem não os esperar nunca.

Apesar de gregários, dificultam a entrada de elementos novos nos grupos com que se identificam e repelem, com algum cinismo ou ironia idiotas, os que desobedecem, ainda que vagamente, aos códigos, regras e preceitos que são mantidos sem razão consciente.

Não abdicam de uma masculinidade que de tão exteriorizada acaba por cansar e aborrecer e jamais aceitarão sem um esgar sarcástico, zombeteiro ou escarninho, o homem que passa de bicicleta, com rosas no cestinho de apoio ou um desalinhado pedalar nas ruas que, por norma, são de graníticas vocalizações que impedem gestos de fragilidades mais serenas e mais flutuantes.

São simpáticos, mas dizer que um homem é simpático é um dos mais pobres e desvalorizantes adjectivos com que o podemos brindar.

Ao contrário deste portuense, o parisiense é como uma avenida soalheira, larga e plena de cor, de espuma e perfumes.  

Não hesita, é audacioso e arrojado e é nítida a sua presença despojada de soturnidade e de sombra, quando passa a pedalar, florido nos olhos que acolhem de bom grado o estranho e o estrangeiro e com o aroma quente das baguettes a espalhar-se no ar.

Ao contrário do portuense, o parisiense sabe que é na sua cidade que existe a maior concentração da Europa de homens bonitos por metro do quadrado.

Ajuda a impedir que se tornem simpáticos.  

16.6.24

A Gaffe perfumista


Uma das mais prestigiadas casas  do Porto, na geração dos meus avós e dos meus pais, era a Perfumaria Castilho.

Situada numa importante artéria da cidade, em frente à Brasileira onde os empregados antipáticos serviam o chá e o pastelinho a senhoras empoadas e emproadas e cimbalinos e água das pedras a pretensiosos e pretensos cavalheiros que liam o jornal, a Castilho era uma referência para a burguesia e alta burguesia portuense.

A chusma de empregadas conhecia as manias das clientes e estabelecia laços de cumplicidade estética e de cosmética conivência, mantendo gorduchas as prateleiras repletas de aromas e de cremes, de unguentos, de sais e de feitiços femininos e secretos.

Nunca fui cliente. O desprendimento e a impessoalidade com que as perfumarias das grandes superfícies me atendem, acabam por me agradar e me tornar mais rápida na compra. A Castilho foi durante anos apenas a memória do perfume da minha avó, nas tardes de Primavera em que a senhora decidia abandonar a essência de Inverno.

Passei há alguns anos pela Castilho.
A montra anunciava descontos em todos os produtos e expunha o perfume difícil do meu pai. Entrei.
As prateleiras desdentadas, desoladas e empobrecidas, encostavam aos cantos os restos parcos do passado glamoroso e as duas empregadas que sobraram, empastadas de tédio, de braços cruzados e olhos vagos, acabrunhantes, estendiam o tempo no exterior a passar demasiado lento pelos turistas indiferentes à decadência da loja.

Perguntei o preço do que queria.
Não sabiam. Não estava marcado.
O computador indicava produto inexistente.
A senhora encarregada da secção tinha ido almoçar. Chegaria dentro em breve.
Não tinham o contacto da senhora que tinha ido almoçar.
Não havia ninguém que se prontifique a deslocar-se ao restaurante que com certeza era próximo.
Deixaram-me a aguardar durante a meia hora em que cirandei e experimentei batons com as cores cansadas. Nada se resolveu. Nada me foi dito ou explicado. As duas raparigas de silêncio cruzado iam olhando a rua que passava depressa.
Saí  sem que terminasse o almoço da senhora responsável pela secção e pelo preço do que já não queria.

A decadência torna-se visível quando acreditamos que a merecemos.

A Castilho já não existe. 

15.6.24

A Gaffe na Baixa


Há demasiado tempo que não passava pela Baixa do Porto. Tinha saudades da velhíssima Rua das Flores onde, com a minha avó, visitava uma das suas ourivesarias favoritas. Perdido o nome da proprietária, recordo o seu espampanante penteado de um loiro demasiado artificial e as estupendas jóias que com cuidados mil depositava numa tira de veludo negro.

Já não existe a ourivesaria.
A Rua das Flores está alterada.
A Baixa do Porto tem um ar lavado, lavadinho.

As casas burguesas, e mesmo as da baixa nobreza, recuperaram as cores originais e exibem fachadas contrastantes, múltiplas, exuberantes ou mesmo gaiteiras, bonitas e exibicionistas. O escuro foi abolido, a pedra raspada, os azulejos polidos, as rendas das varandas pintadas de fresco.

Estão à venda maioritariamente T0, T1, T2, a preços incomportáveis, inadmissíveis, porque nada distingue os seus interiores de outros apartamentos situados em lugares diferentes da cidade.

A alma das velhas casas burguesas e nobres foi estropiada. Na cidade que tem uma das mais prestigiadas Escolas de Arquitectura do mundo, nenhum arquitecto cuidou das estórias que cada corredor, cada lanço de escada, cada degrau, cada esquina ou recanto, cada baluarte, cada trave, cada parede, cada estuque ou cada portão, tinham para guardar. Foi desentranhado, estripado, demolido, o interior estupendo de cada uma delas. Ergueram-se compartimentos arejados e bonitos. Iguais aos outros todos. Iguais aos que existem em qualquer parte. Só que mais caros e que não consolidam a permanência dos moradores que não encontram mais baratos e maiores, os que permitem aumentar a família.

São apartamentos banais. Sem qualquer especificidade, sem qualquer característica que os diferencie, sem qualquer respeito pelo organismo que lhes deu origem e sobre o qual se ergueu a arrogância, a ganância, a avidez de lucro e a parolice mais tacanha.

É evidente que os turistas pululam, mas apercebemo-nos que não são os projectados. Alguns são nauseabundos, outros que de tão pindéricos inspiram compaixão e ainda os há a comprar Rosa e Júlia Ramalho de plástico, Bordalo Pinheiro de maçapão, Sabina Santos de resina ou Rosa Barbosa Lopes de plasticina. Há muita quinquilharia dos chinenses para escolher e tudo se esfarrapa à frente das lojas, preso nas paredes, assobiado em inglês por galos de Barcelos porta-chaves. Faltam apenas os muito respeitáveis bandos peruanos que tocam El Condor Pasa com flautas de Pã e sintonizadores.

A Baixa do Porto, dizem as más-línguas, assemelha-se a um parque temático, a um sucedâneo barato de uma Disneyland desenrascada. Não é verdade. A baixa do Porto é um bazar atolado e já sem Flores.

14.6.24

A Gaffe na cidade



Esta cidade é um homem nu em desleixo premeditado, pousado no rio como se estendido numa cama de opalas.

Esta é a cidade que me prende, que me deixa de olhos atados e que me sussurra as razões das minhas algemas feitas ruas, rio e casario.

Esta é a cidade do adeus vagaroso, porque lentas devem ser aqui as partidas para que a memória retenha e resguarde todos os momentos em que o granito, a água e o ferro nos entram na alma que percorre as vielas do sonho, mesmo as que sabemos não passar de cinza.

Foto - Armindo Lopes

A Gaffe quotidiana


Dizem que a banalidade não tem narrativa, que as histórias que ficam presas à memória cravam as raízes nos dias que não são derramados nas ruas vulgares, que apenas o incomum nos deixa marca.

Possivelmente.

No entanto, as histórias mais simples, aquelas que atravessam as ruas connosco ao lado, as que se esfumam no passar das horas destinadas a não ser colhidas por ninguém, são sempre as nossas, as que riscamos a todo o instante sem que se percebam os traços que ficaram esbatidos nos instantes que passaram, banais, quotidianos.
Pertencem-nos, são coisa nossa e são coisas dos outros. Iguais ou similares em toda a gente. Não trazem narrativas presas à banalidade comum a todos os que passam, porque o banal é tido como surdo e mudo.

Passamos pelas nossas histórias como cegos.