
A vida não é um conto de fadas.
Se perdeste um sapato à meia-noite, estavas bêbada.

Se perdeste um sapato à meia-noite, estavas bêbada.
Não sejam parolos. Evitem os estágios em microondas. É
cansativo esperar que a melanina cumpra o que promete, mas imitar os índios
Tupi, barrados de vermelho, com argila enfiada até no rabo, não convence uma
macaca tropical, para além de vos transformar num placard escarlate
de perigo iminente ou num diabrete com excrescências pouco atreitas a manobras
de reanimação mais íntimas.
Depois, é imperdoável que só ao fim-de-semana nos brindem com a
visão dos vossos troncos nus.
Nota da redacção - Quando saírem da água, não olhem para os calções colados à pila, nem tentem afastar o tecido da pobre encharcada. A tendência é olharmos também e, por muito estranho que pareça, evitarmos o mergulho, porque a água nos parece sempre estar gelada.
Há pelo menos cinco considerações que se devem anotar:
1 - Nunca o ter usado. O perfume deve ser uma estreia. Como se depreende, não será de todo conveniente enfiar o frasco dois dias antes nas narinas do rapaz e perguntar se a criatura gosta.
2 - Enfrascarmo-nos, despejando sem qualquer receio o perfume pelo corpo. As flores da igreja vão tentar abafá-lo e é preciso que sejamos nós a calar a porcaria dos arranjos.
3 - Não nos preocuparmos se o noivo revelar sintomas de falta de ar quando nos aproximarmos. Vai pensar que é apenas porque chegamos e a comoção se torna asfixiante. Os convidados que tragam uma botija de oxigénio.
4 - Nunca mais o usar. É imprescindível que abdiquemos do perfume escolhido. O noivo deve acreditar que apenas no dia do casamento sentiu no ar o mais perfeito dos aromas. Se o usarmos quando cozinhamos arroz de polvo ou bacalhau à lagareio, quando nos esbardalhamos no sofá a ver as noivas de Stº António ou a ouvir César das Neves, podemos dizer adeus à cebolada.
5 - Não beijocar as amigas e as convidadas depois de termos despejado o frasco em cima de nós. Os perfumes misturados causam náuseas e não é bonito termos o padre a vomitar-nos o véu.
Eu esparranchei-me.
Chegada ao Douro, congeminei um tarde bucólica, repleta de pormenores diáfanos e campestres, no exterior ajardinado pelo fim da Primavera.
Depois de quase ter sido quase colhida por um touro bravo - e não
adianta tentarem convencer-me que aquilo era apenas uma vaca a olhar-me de
esguelha; depois de ter tentado dar uma traulitada com um
galho seco nos dentes do granizé psicopata - e não adianta dizerem-me que o
animal é indefeso, porque de fraco o galináceo tem apenas o tamanho; depois
de me ter lambuzado com leite-creme - e não adianta segredarem-me que devia ter
mais cuidado com as minhas maneiras, porque só me dá prazer saborear
a doçaria se sentir o açúcar a besuntar-me o queixo; depois de ter procurado
a minha irmã para um fim de tarde intimista e a ter encontrado mergulhada no
portátil, de telemóvel em punho, de nervos esticados e olhos de assassina -
Não. Agora não. Vá brincar com o gado -; depois de tudo isto, decidi
pesquisar os recantos ainda ilesos desta casa.
Encontrei a porta e abri.
Tão simples como isso.
Uma carta de viagens que foram exteriores e em que tivemos
como parceiros aqueles com quem nos cruzamos. Agora, já metamorfoseada, já
inscrita no interior do peito, desejamos a imutabilidade, a perenidade dos
traços.
Paradoxal desejo este que, perante a visão certeira e
contínua de um mapa em mutação constante, retém a vontade incontrolável de o
vermos quieto, como se em vez de uma caótica carta de emoções guardássemos
dentro colecções inteiras e catalogadas de fotografias.
Esta inominável dualidade faz com que cada momento de
mudança, breve que seja, se encare como ponto final, um porto de chegada. O
movimento é sentido, mas é retido o mover do seu mundo. Imobilizamos o instante
e acreditamos, mesmo sem força, que aquele brevíssimo segundo, o último que
vimos, é o que permanecerá no mapa desenhado.
Dentro de nós há lugares que desconhecemos por completo.
A dor abre-lhes as portas e só então percebemos que existiam
desde sempre. Visitamos estes compartimentos revelados, povoamo-los de
bricabraques de memórias e deixamos que o sol os invada e levante a poeira que
continham.
A dor é desta forma similar a uma chave que sempre esteve na
palma da nossa mão sem o sabermos. Os espaços abertos são redutos ignorados, ou
bunkers invioláveis, até ao momento em que os percebemos nossos desde o início
do tempo.
A felicidade é somente um corredor sem história por onde caminhamos sempre de costas voltadas para os nossos mais soturnos sofrimentos.
Creio que a ampliação da alma se faz apenas através da dor.
A ausência dela raramente conta histórias que fascinam.
A aliança não estranha, embora ocasional, entre felicidade e a ausência de Dor, amolece e amortece, atenuando o instinto de sobrevivência que é um dos motores da criatividade humana.
Há uma face estética na dor que a torna, muitas vezes, no lugar-comum dos artistas.
A arte pode então ser uma confissão discreta de uma dor imensa, mas pode resvalar,
metamorfoseando-se na mise-en-scéne sentimental de alguém.
Estou amiúde sentimentalmente céptica em relação aos que
exprimem bem a sua dor. Sobretudo daqueles que fazem dela um poema.
Os grandes trágicos são mudos e choram no silêncio.
A Gaffe faz marcha atrás pois não sabe se ouviu bem Marcelo
Rebelo de Sousa a declarar que uma presidenta tinha uma opinião semelhante à
sua.
A Gaffe voltou para trás para se certificar que Marcelo
Rebelo de Sousa falou numa presidenta de um país estrangeiro.
Marcelo Rebelo de Sousa esbandalhou mesmo a presidenta.
A Gaffe já desistiu. Se um Presidente da República consegue tão
linda e descaradamente tropeçar na sua língua – literal e metafórica -, é de
concluir que ainda tem muitíssimo para ler.
Não é agradável perder tempo com Marcelo - Marcelo encarrega-se de o perder sozinho -, até porque a Gaffe acredita que desta vez corre o risco de se tornar maçadora, tendo em conta o rol de pequenas indignações que hoje por aqui deslizarão. Como diria um pivot da nossa praça, são pequenos detalhes que escorregam em pormenor por estas avenidas.
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| Olga Esther |
Clara Não continua:
Claro que é importante olharmos para os clássicos, mas não
conseguimos cativar os jovens quando os estamos constantemente a
aborrecer. Basta pensar: quantas vezes ouvimos alguém dizer, com
honestidade, “Amei a descrição dos azulejos d’Os Maias”? “O meu escritor
favorito é Luís de Camões”?, ou “O meu ídolo é Gil Vicente”?
A Gaffe, para além de suspeitar que os azulejos queirosianos não são propriamente cerâmica destinada a forrar os nossos corações, lembra-se que foi o avô - que também a treinou a dividir orações e a classificar a métrica -, que a ensinou a ouvir nas estrofes de Os Lusíadas – o verbo nunca esteve errado -, os cintilantes e estridentes ruídos das batalhas; que lhe mostrou o modo de se amar constelações; que a ensinou a construir um relógio de sol; que a guiou nas rotas e nos mapas, avançando sempre com o avisado Restelo ao longe; que lhe mostrou todas as madeiras, todos os ouros, o sangue e dolorosas vontades, todos os medo e todas as coragens, todas as insidiosas vinganças de tertúlias divinas – e mais que não se diz por ser verdade -, e sobretudo a instruiu a a viajar ao encontro daquela cativa que o fez cativo
E tantas outras vidas e contextos!
Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina, Garcia de
Resende, Bernardim Ribeiro, Cristóvão Falcão ou Sá de
Miranda.
Tantas outras vidas!
Voltemos a Clara Não:
Há uma dificuldade real em criar hábitos de leitura em
crianças e jovens que cada vez mais estão colados a ver vídeos de trends sem
qualquer informação útil – afirma.
Reconhecer as letras, saber uni-las, construir
sílabas, erguer frases e chegar aos fins dos parágrafos é céu-aberto para uma
criança.
Esta felicidade estende-se aos adultos que ficam libertos
da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as
noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando a criança reivindicava o
direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que
lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.
No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que
nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir sherazades
improvisadas e inábeis.
Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada
que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de
sonho da ouvinte.
- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas.
Agora que já sabe ler, é um alívio. É autónoma. Já permite
que os deixemos, a ela e ao livro, entregues um ao outro.
Agora que já sabe ler, não sabe ler.
Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada e perdida por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. Lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.
Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinha, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado.
Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe,
mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É
permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.
A Gaffe suspeita que descobrimos isso apenas quando a criança nos avisa que
saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras
certas, lendo, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de
verde a capa do príncipe, quando é lilás para condizer com os olhos da princesa
e nos retira, maternalmente, o livro da mão.
A Gaffe acredita que descobrimos isto apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira do cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história que nos vai adormecer.
A partir desse momento, todas as palavras deixam de ser nossas, que somos tias tontas que não sabem ler, para se transformarem no ninho dos sonhos que fazem leitores.
| Jonathan Wolstenholme |
João Miguel Tavares, por quem a Gaffe não nutre especial simpatia, não impedindo esse facto de estar disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção -, foi apanhado há tempos idos, a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.
As crianças ficam aborrecidas com Alves Redol. Não devemos ler Alves Redol às crianças. Não devemos ter roseiras nos recreios porque as crianças se podem picar. Verdade. A Gaffe não inventou agora.
O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão
a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o
colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes
frequentam.
A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha
perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.
Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de
intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade
notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que
deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como
impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -, e as
personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a
paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma
realidade menos amena e menos acolchoada.
Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus
pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno
leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio
que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o
esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da
obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a
poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas
infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de
João Miguel Tavares, que o considera horrível - assim, à toa, só porque assim é
engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de
educação que censuraram valter hugo mãe.
Ouçamos de novo Clara Não:
(...) Ora, garanto que não é com falta de representatividade
que se resolve o problema. Precisamos de mais atenção a livros escritos
por mulheres, de representatividade de cores de pele, de enredos cativantes, de
personagens e autores, e de representatividade LGBTQIA+ nas obras e excertos
exemplificativos do currículo de Língua Portuguesa.
Não existe boa e má literatura e a Gaffe também suspeita que não existe literatura feminina, colorida, gay, de aeroporto ou de WC.
Ou há literatura ou não há literatura.
É tão errado referir determinada obra como má
literatura, como classificar uma outra como pertença do inverso. É maçadora a
discussão em redor dos fenómenos que permitem o reconhecimento dos escritos
como peças literárias, nem sempre os cânones incluem as que eventualmente se
consideram dignas de figurar no seu historial e as exclusões correm sempre o
risco de encontrar discórdia, mas é sempre possível treinar a capacidade de se
reconhecer instintivamente um bom livro, porque, não existindo boa e má
literatura, existem contudo maus livros. Não é conflituoso reconhecer os
agrupados nos universos literários que usam todos os crivos que foram
construídos ao longo de séculos pela Teoria da Literatura, mas os que sobram
estão na origem de uma questão que permanece:
Ler seja o que for, é melhor do que não ler nada?
A sujeição do leitor, por exemplo, ao uso de fórmulas nos
romances de aventuras juvenis de sucesso mais do que adivinhado, quando não
aliada a alternativas mais complexas oferecidas por outras obras do género,
torna mais fácil o desenvolvimento do que se convencionou chamar Síndrome
de Blyton. A repetida fórmula - grupo + problema/mistério + envolvimento
do grupo + perigo + resolução do conflito pelo grupo + final feliz -, origina
um casulo mental que se torna difícil quebrar com a introdução de premissas
diferentes ou mesmo alterando a sua ordem. Um consumidor assíduo e exclusivo
destas fórmulas, é mais susceptível de se tornar um adulto com
maior dificuldade em acompanhar uma obra que não possui estas artimanhas
ou estas armadilhas, e aos que partilham esta opinião chamará intelectualóides,
presunçosos, castradores da liberdade de ler, fascistóides ou mimos similares.
Dificilmente gostaremos de Proust quando sempre caminhamos à
sombra das Marias em flor ou nos viciamos em medíocres guerras de
tronos, sagas vampirescas e melosas tramas de cordel delicodoce.
A apelidada educação para a leitura é uma oficina
de trabalho árduo, mas essencial para a formação de um bom leitor. Nesta tarefa
temos a obrigação de contar com a extraordinária capacidade de selecção
daqueles que se iniciam nestas andanças. Seria tontice esquecer que a clássica
Literatura Infantil é uma literatura de apropriação e que foram as crianças que
se apoderaram de obras que não lhes eram destinadas. A Cabana do Pai Tomás, Oliver
Twist ou Huckleberry Finn e mesmo Mulherzinhas foram
retirados da biblioteca dos adultos por crianças que as entregaram à mais
apurada lista de literatura infanto-juvenil.
Se o primeiro passo na construção de um mau leitor se faz
demasiadas vezes com a escolha, aquisição ou oferta de um mau livro, não é
lícito concluir que um bom leitor se macula quando toca numa obra menor. Não a proíbe
ou excomunga, nem se esgadanha quando encontra uma pelo caminho. Normalmente
ignora-a de forma natural e quando não o faz, passa por ela sem por ela ser
tocado.
A literatura universal está nas mãos de todos e é de tal forma imensa e povoada que perder tempo - e que imensa perda de tempo! - com um mau livro, quando poderíamos em troca tricotar um cachecol, devia ser entendido como pateta ou, no mínimo, fazer com que nos sentíssemos a usar um pechisbeque quando nos entregam todas as colecções de joias que a nossa vida pode imaginar.
Nota de rodapé - Todo este rabisco teórico, salpicado por uma ligeira demagogia e polvilhado por uma dose substancial de blá-blá-blá, deve ser lido como uma espécie de esfregão da consciência um bocadinho pesada da Gaffe que é indiferente, vergonhosamente indiferente, ao que os outros costumam ler, se está borrifando para os livros que se vendem ou se deixam de vender e que, no que diz respeito à leitura, segue o famigerado "cada um sabe de si e os editores sabem de todos".
You know what charm is: a way of getting the answer yes without having asked any clear question.
As diferenças podem não ser notórias, mas insinuam uma ausência de cosmopolitismo no primeiro, que, para além de assustar um bocadinho, deixa que o rapaz permaneça numa espécie de limbo onde as certezas são de betão com aberturas transformadas em frinchas por onde a claridade tem algumas dificuldades em penetrar.
O portuense é, na maioria dos casos, conservador e rotineiro, considerando, num homem, demasiado ousado, ambíguo e suspeito, qualquer atitude que por tradição é apanágio do sexo oposto.
É embaraçado que o vemos de lista de compras na mão, à procura da marca de pensos higiénicos que a sua amada lhe pediu para comprar e tem a tendência para sorrir e espetar uma piadinha raquítica acerca do assunto, quando a menina da caixa faz apitar o código do produto.
Raramente o vemos sem as cores discretas da monotonia e, quando acontece uma camisa verde alface, surge o constrangimento aliado a uma necessidade imbecil de justificar o uso de um elemento discordante no panorama discreto das ruas opacas.
É quase impossível encontrá-lo com a descontracção necessária à alegria e à solar necessidade de sorrisos abertos, entregues aos passageiros que com ele cruzam. Fecham-se e desconfiam de abordagens estranhas e estrangeiras, procurando escudar-se com a urgência do tempo e do caminho que são obrigados a calcorrear para não perder o que sabem não os esperar nunca.
Apesar de gregários, dificultam a entrada de elementos novos nos grupos com que se identificam e repelem, com algum cinismo ou ironia idiotas, os que desobedecem, ainda que vagamente, aos códigos, regras e preceitos que são mantidos sem razão consciente.
Não abdicam de uma masculinidade que de tão exteriorizada acaba por cansar e aborrecer e jamais aceitarão sem um esgar sarcástico, zombeteiro ou escarninho, o homem que passa de bicicleta, com rosas no cestinho de apoio ou um desalinhado pedalar nas ruas que, por norma, são de graníticas vocalizações que impedem gestos de fragilidades mais serenas e mais flutuantes.
São simpáticos, mas dizer que um homem é simpático é um dos mais pobres e desvalorizantes adjectivos com que o podemos brindar.
Ao contrário deste portuense, o parisiense é como uma avenida soalheira, larga e plena de cor, de espuma e perfumes.
Não hesita, é audacioso e arrojado e é nítida a sua presença despojada de soturnidade e de sombra, quando passa a pedalar, florido nos olhos que acolhem de bom grado o estranho e o estrangeiro e com o aroma quente das baguettes a espalhar-se no ar.
Ao contrário do portuense, o parisiense sabe que é na sua cidade que existe a maior concentração da Europa de homens bonitos por metro do quadrado.
Ajuda a impedir que se tornem simpáticos.

Esta cidade é um homem nu em desleixo premeditado, pousado no rio como se estendido numa cama de opalas.
Esta é a cidade que me prende, que me deixa de olhos atados e que me sussurra as razões das minhas algemas feitas ruas, rio e casario.
Esta é a cidade do adeus vagaroso, porque lentas devem ser aqui as partidas para que a memória retenha e resguarde todos os momentos em que o granito, a água e o ferro nos entram na alma que percorre as vielas do sonho, mesmo as que sabemos não passar de cinza.
Foto - Armindo Lopes