31.1.22

A Gaffe cronista

Andrea Malinowski
Um dos primeiros livros que me foi dado a ler pelo meu avô chegou a estar incluído no rol de obras de leitura obrigatória nas Escolas Secundárias, implicando desta forma um estudo que apesar de quase sempre tacanho, redutor e confinado a aspectos linguísticos, semânticos e sintácticos que asfixiavam a dimensão literária dos textos, tinha pelo menos a vantagem de posteriormente evitar que confundíssemos o autor com um qualquer obscuro treinador de futebol.

A obra foi-me entregue numa transcrição que cuidadosa, rigorosa e responsável, nos poupava os anacronismos da linguagem que nos fazia sempre tropeçar e tantas vezes perder o sentido e a paixão com que a folheávamos. Creio que esta cautela foi de Oliveira Martins, mas posso estar a cometer um erro, tendo em conta que esta versão se encontrava na estante encostada às obras deste autor e o tempo que passou sobre a biblioteca da minha adolescência.

Falo de Crónicas de Fernão Lopes.

Descobri aqui dentro algumas das mais extraordinárias figuras que protagonizaram parte da História portuguesa, descritas com a perícia e o talento de um génio literário capaz de insinuar a intriga, o escuro, a perfídia e a traição com a mesma eficácia com que nos mostra o heroísmo, a abnegação e o sentido de honra.

Foi através das Crónicas, que encontrei senhores e súbditos, condenados e incensados, poder e servidão, guerra e não guerra, doença e cura e homens e mulheres que fizeram pulsar uma época e uma época que deles se serviu para adubar futuros.

Foi ali que me encontrei com uma das mulheres mais interessantes da História portuguesa. Leonor, mulher e rainha barregã de D. Fernando e que percebi que a ambição sem medida e a capacidade de nos movermos sobre a superfície dos gumes das facas e a de invadir territórios marcados pelo macho, exige muito mais do que uma beleza estonteante, uma inteligência dominadora ou do que a habilidade consciente de manobrar o pensamento, a emoção e o destino. Exige egoísmo. Um desmesurado e ofuscante egoísmo.

Foi ali que encontrei uma das minhas tiradas favoritas que ainda hoje não me canso de repetir e que descreve de forma genial a relação de Pedro o Cru, o primeiro de Portugal, com Afonso Madeira, o jovem de alaúde, por quem o rei nutria uma amizade inusual e mais que não se diz por ser verdade e que acaba castrado, castigo que infelizmente foi posto de parte, diria André Ventura -, por ter traído com uma mulher o que a frase insinua.

Não encontro na estante a versão que o meu avô me deu a ler, aquela que não me fez colidir com os anacronismos, mas acabo por sentir bem perto algumas das figuras que povoam as Crónicas. Para escolher o nome dos netos, privilégio que o meu avô chamou seu sem qualquer hipótese de contraditório, abria as páginas de Fernão Lopes e fazia com que as novas mulheres e os novos homens desta casa tomassem a graça que primeiro encontrasse.     

Infelizmente, a página que abriu quando nasci, nomeava exclusivamente D. Fernando. O meu avô hesitou, abdicou, fechou o livro e decidiu-se pela graça da Princesa Santa, irmã de D. João II, porque era mais teimosa do que o poder do Rei.


A Gaffe num passado eleitoral


A Gaffe atribui grande importância à eleição da Miss Universo. É tão simples!

As candidatas são giras, não maçam muito, sabemos que querem em uníssono acabar com a guerra e com a fome no mundo, mas que a duração do mandato permite apenas acabar com a delas e ninguém apanha a surpresa de as ver fazer o contrário do que dizem. Nelas, o inverso do Nada é uma questão filosófica e toda a gente sabe que a filosofia é para aqueles que têm imenso tempo livre.

A Gaffe, nas campanhas para a Assembleia da República, não espera ver os candidatos em fato de banho e embora tenha tido o choque de ter de se esbarrar com uma espécie de derradeira nudez de Francisco Rodrigues dos Santos, considera o acidente um percalço isolado e prefere avaliar outras miudezas.

A verdade é que, nestas ocasiões, uma rapariga esperta fica sem cenários adequados. O amontoado de gentalha mal vestida, as feiras de gado, as ruas apinhadas de paus e de panos com padrões absolutamente pindéricos, a papelada que se desperdiça – a Quercus devia congratular-se. Mais uma campanha e ficamos sem a época dos incêndios! - e a barulheira descomunal dos tachos e dos apitos, impedem que qualquer pessoa de bem possa interpelar o candidato, pedir um autografo a Mariana Mortágua - que enfrenta banqueiros como uma Valquíria, mas que se torna liliputiana na frente do povo -, ou apalpar o rabiosque a João Galamba.

A Gaffe vai restringir-se, em consequência, aos candidatos mais proeminentes, deixando, por exemplo, o Tino a RIR longe da ribalta, apesar de ser mimoso vê-lo empolado e empolgado a tentar apertar toda a gente com sorrisos salivados ao mesmo tempo que procura perceber o que se está a passar ao lado, ou Ventura a berrar que os vai LIQUIDAR A TODOS. Não se atreve a tocar no PAN, porque tem medo de ser morta por ofensas aos bichinhos, nem no LIVRE, porque está fidelizada à MEO e não pode rescindir contracto.

Resta-lhe o habitual.

António Costa aparece como um tio bonacheirão. Toda a gente sabe que a eternidade é um tio desses que nos promete a fortuna se dele cuidarmos. Acabamos sempre por descobrir que vai estourando as moedas que tem, ou que terá, com as mulheres da má vida e ministros apressados. A Esperancinha, dizem, ronda cada esquina. Veste-se de verde. Vem um burro e come-a.

A Gaffe passou a ter medo de Rui Rio, depois de ter vivido num Porto por ele presidido.

Desvia os olhos quando o senhor fica irritado, com um bicho alemão espalmado no púlpito e um globo ocular gigantesco no horizonte pronto a cortar nas despesas, sobretudo aquelas que não dão retorno ou lucro. A Gaffe fica arrepiada quando o ouve a modelar o discurso aproximando o timbre das catequistas anzoneiras de província ou das beatas que dentro dos missais escondem estampas pornográficas. A Gaffe sente que Rui Rio é o sinistro gato - sempre o mesmo - que aparece nos colos dos mauzões. Ninguém sabe o que lhe acontece quando os vilões são apanhados.

André Ventura desaparece, eclipsa-se, evapora, não existe, porque Inês Pedrosa e outros que tais, apaniguados da omissão fonética aniquiladora e do realismo mágico, se recusam a pronunciar-lhe o nome. Está portanto arrumado o assunto.Ventura não há, se não o chamarmos.

Cotrim de Figueiredo parece ter qualquer coisita enfiada no rabo, mas não quer que o eleitorado se aperceba disso. Sorri, como quem abre um figo com os dedos. Dir-se-ia, caso quiséssemos ser cabras - e nunca o desejamos -, que foi de plástico numa anterior encarnação e que ambiciona voltar a sê-lo num futura. Entretanto, é de barro, moldado na peanha de um liberalismo carnívoro e esfaimado.

Jerónimo de Sousa é o último pedaço que resta das Ideologias. A Gaffe lembra-se de Álvaro Cunhal, sem as sobrancelhas de carpélio, quando vê surgir este velho e calcinado capitão. Surpreende-se quando percebe que o respeita, porque sempre considerou uma tolice a insistência tenaz com que alguém se esbardalha. Simpatiza com Jerónimo de Sousa, porque reconhece instintivamente que mesmo nas derrotas, podemos sempre recusar a venda burguesa por grifar e mostrar o rabo proletário ao vencedor.

Catarina Martins é pequenina. A porcaria do ditado que a aproximará da sardinha, se não erguer a banca da oposição, é ameaça eleitoral. A peixeirada está macerada de contínua e o pescado de tão exposto cobre-se de moscas. Os eleitores esperam ansiosamente vê-la nua, vê-la depois de burka, depois de Índia Tupi, mais tarde de Louça e a usar as bananas de Carmen Miranda para a poder comparar com as rivais.

Inês Sousa Real é banal. Como toda a banalidade fica sem história, ou cola-se à cauda das histórias que passam.   

Elencados os candidatos predominantes, resta reparar na pobre gente que neles foi votar.

A Gaffe já só tem palavras esgotadas - porque gastámos tudo menos o silêncio, porque metemos as mãos nas algibeiras e não encontramos nada -, e uma fotografia avulsa de um dos eleitores. Eugénio de Andrade terá portanto aqui de bastar, em esperas inúteis, já que os elegíveis são iguais as Misses.


26.1.22

A Gaffe indecisa


A diferença mais óbvia que existe entre o amanhecer de uma mulher e o de um homem está no guarda-fatos.

Enquanto a mulher usa parte das suas horas matinais a escolher o que vai vestir durante o resto do dia, um homem pode gastar um tempo similar, mas não deixa que se perceba o desperdício, porque acaba por sair como na véspera. 

 

25.1.22

A Gaffe no recomeço

mecânica da Lockheed - Burbank, 1944

Nenhuma circunstância pode permitir a descaracterização daquilo é apanágio do feminino, a não ser a guerra e a miséria levada ao extremo que, normalmente unidas, se tornam lugares de aniquilação total da dignidade natural do ser humano.

Às mulheres sempre foi atribuída a tarefa da reconstrução e da renovação, mesmo quando lhes é dito que não há alternativas, nem utopias.

Estilhaço a estilhaço, as mulheres conseguem sempre reconstruir a vida, mesmo que para isso tenham de usar as ferramentas habituais da morte.

24.1.22

A Gaffe pornógrafa



De acordo com a máxima um bocadinho pateta, existe muito mais interesse nas mulheres com passado e nos homens com futuro.

O caso de Aiden Shaw, não é assim tão simples. O passado de estrela porno solicitadíssima e surpreendente - a todos os níveis -, acaba por ser de importância capital se quisermos conhecer por completo e em detalhe – e que detalhe! - este belíssimo, belísismo, belíssimo, belíssimo modelo. A carreira de escritor e de professor de qualquer coisa - depois de o termos visto tão em pormenor, começamos a baralhar as disciplinas - que o futuro lhe tem vindo a augurar quase que é ofuscada perante os atributos que no anteriormente das estrelas foram usados até ao fundo.

Depois de Aiden Shaw poder-se-á dizer que interessantes são aqueles cuja nudez do passado não compromete ou limita o desfilar do futuro.

23.1.22

A Gaffe e os cavalheiros


Gosto muito de cavalheiros.
Homens que se levantam quando nós entramos ou que nos oferecem um lugar na primeira fila e se deixam esmagar pela multidão enlatada dos balcões nos concertos com menos distinção.

Acontece que hoje cavalheirismo é deixar a mulher ter o orgasmo primeiro. Nada mais. É de lamentar, até porque só somos verdadeiramente mulheres quando aprendemos a mentir na idade, no peso, no número que vestimos e na maioria dos orgasmos. Este último dado limita imenso a área de acção do actual cavalheiro e falseia a classificação. Temos um orgasmo primeiro do que eles, porque também aprendemos a fingi-lo com eficácia quando tudo se torna muito cansativo.

Não nos entreguemos à ilusão. Acreditar que ainda sobram cavalheiros é como confiar num creme anti-celulite ou num homem lindo, solteiro, com mais de 40 anos e que recusa todos os nossos convites. Em ambos os casos - creme e homem - acabamos sempre deprimidas. Achamos, no primeiro acidente, que talvez necessitemos de botox, porque não nascemos ontem e, no segundo, que talvez o senhor não seja gay, nós é que estamos uns cangalhos.´

22.1.22

A Gaffe mitológica


A Gaffe está convencida que Cupido, para além de ser um cruzamento de pombo e miúdo idiota e incontinente que nos faz xixi na cabeça mal nos desacautelamos, também injecta substâncias suspeitas na veia responsável pelo que dizemos e fazemos depois de atingidos.

21.1.22

A Gaffe num conselho da avó

Remy Cogghe

Não me penso capaz de análises políticas susceptíveis de se escapulirem por estas pobres e cansadas Avenidas. Não sou proficiente, ou resiliente, como agora se diz.

É-me indiferente saber se foi o esfumar de determinado partido - que gotejando névoas mais suspeitas, promveu a visibilidade e a liquidificação de uma extrema-direita, populista e grandiloquente, patrioqueira e balofa, oportunista e alegadamente unipessoal, xenófoba, homofóbica, racista, misógina, onde também podem agora chapinhar ufanos os que não dizem, mas pensam -, o impulsionador, o obreiro, o que elegeu como parceiras, como idênticas às suas, propostas como, entre outras, as de eliminar o Ministério da Educação, castrar quimicamente agressores sexuais, defender a pena de morte ou a de prisão perpétua, ou proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, interditando-lhes a possibilidade de adoptar.

Reconheço apenas que a Democracia portuguesa durante quarenta e muitíssimos anos recusou admitir que nela eclodisse o ovo da serpente - embora chocado por um Coelho - e que a festa da Páscoa nunca tivesse a antecedê-la uma Quaresma de ofídios.

Provavelmente a Europa - e os outros mundos liderados por escroques -, entrou numa espécie de pós-democracia e eu, provinciana, não o percebi, nem a consigo enunciar.

Dizem os entendidos que não pode deixar de ser saudável a chegada dos populistas de extrema-direita à ribalta política, ao palco dos parlamentos. Ali podem ser desmascarados, trucidados com argumentos eivados de liberdade e de razão, desmascarados, revelada e denunciada a sua vacuidade e anulado o perigo que inevitavelmente encarnam, gota de ácido a alastrar e a corroer as fibras do tecido a que os Velhos chamaram Liberdade.

Seria certo.

O errado é que nas areias dos discursos dos que se dizem e querem heróis e paladinos das alvoradas e dos dias que os poetas esperaram, há palavras empapadas, curvilíneas serpentinas, circos, malabaristas, contorcionistas, confusões de lantejoulas, nadas movediços e avalanches de ocas frases feitas em que o tempo se esgota de modo aflitivo e irado, porque os outros palram demasiado impedindo que se exibam outras oratórias igualmente vácuas.

Os eleitos a temer podem agora ter palanque, mas será que as nossas democracias estão preparadas para os ouvir?

É neste tempo acelerado pelas elocuções ensopadas pelos egos, no tempo sem tempos ou compassos, num tempo de espera que tem sido asfixiado ou atropelado sucessivamente, que urge perceber que somos obrigados a uma escolha rigorosíssima da palavra, a uma selecção implacável da frase, a uma precisão inusual do discurso,  a uma cirúrgica forma de comunicar o que se defende.
Já não se ouve com clareza ninguém há muito tempo e é dever nosso esperarmos que a ideia surja inevitavelmente concisa, paradoxalmente clara, sem os adornos cintilantes do costume, de forma a termos tempo e sobretudo a termos o tempo de pensar e, talvez por ironia, tenhamos desta forma tempo para esvaecer os que de tão fluentes arremessam, com a urgência de quem quer calar o outro, todas as palavras atoladas.

Saberemos então - e também - que seguimos nesse tempo de pensar o conselho velhíssimo da minha avó:

Desconfia sempre de um orador que traz a fúria escrita num papel.


20.1.22

A Gaffe das Evelyn


Evelyn McHale
tinha 23 anos e acabara de se despedir do noivo. Subiu ao 86º andar do Empire State Building, onde fica o deck de observação, e atirou-se.
Deixou um bilhete no qual dizia que o rapaz seria mais feliz sem ela.

Não poderei ser uma boa esposa para ninguém.

O estudante de fotografia Robert Wiles ouviu o estrondo assustador e captou a cena quatro minutos depois.

Foi catalogado como O mais belo suicídio do mundo.

É uma imbecilidade o título que ostenta. É de certeza uma das mais belas fotografias de um suicida, mas o trágico absoluto não pode ser tratado com leviandade glamorosa.

A extraordinária feminilidade da suicida, a sua imensa fragilidade enluvada, o recato do gesto que segura o colar e a serenidade do rosto que parece adormecido, contrastam com a animalesca força da morte, com o desumano estilhaçar do corpo e da alma de uma rapariga que decidiu calar todas as dores.

Mais uma vez a dor e a morte produzem boas fotografias.

É uma brutalidade perceber que Evelyn poderia perfeitamente ser a capa da Vogue.




Depois da impressionante fotografia eivada de trágico mistério, é fácil desviarmos a atenção para outras - uma delas foi mesmo usada por mim para encimar um rabisco meu há alguns séculos -, que, não sendo de especial beleza, são interessantes, sobretudo porque trazem apenso um desconhecimento total da mulher fotografada a entrar num mar dos anos 50.

Os negativos encontrados por Meagan Abell revelaram o local onde foram captadas as imagens - Dockweiler Beach, na Califórnia - mas nunca a identidade das mulheres retratadas - pois que existem mais do que esta.

A soturna luzência destas histórias por saber que invade ambas as fotografias, fornece-lhes um fascínio inusual, uma possibilidade de apropriação por terceiros dos signos que transportam e sobretudo uma perigosa projecção das nossas mediocridades nas protagonistas que continuam submersas em segredos, elevando-nos desta forma a um estatuto que se adquire com a capacidade de encarnarmos o fascínio dos mistérios.

Torna-se quase irresistível, pela disponibilidade, uma identificação com o que nos permite o paradoxo de recuperar o que nunca foi nosso, mas que nos permite recontar, reinventar ou fingir que deixamos de ser confrangedoramente banais.

Mentimo-nos porque queremos em desespero mudo acreditar.


19.1.22

A Gaffe sem pérolas


A minha irmã arrefece os cigarros. Vício e hábito que chega da adolescência em que a ameaça da mãe não vasculhava o frigorífico.
Fecha-os numa cigarreira de prata e coloca-a lá dentro.

As nossas relações foram sempre bastante parecidas com esses compridos e frios tubos de nicotina.

Ontem entrou na sala onde o meu pobre irmão sentado brincava com um livro. Retirou o isqueiro da carteira e fez surgir a chama várias vezes como quem brinca com um coração.

- Vens convidar-me para um jantar de gala? - arriscou o incauto.
- Andas pela vida fora com jeans coçados, t-shirts brancas deformadas e botas quase podres. Passas pela vida dessa forma como se a vida fosse um campo de férias e tu um turista acidental. Por favor, meu querido, na vida nunca venhas à vontade. Faz sempre cerimónia. Veste-te a rigor. Sempre. De contrário, todos os teus jantares serão de galo.

Levantou-se e acendeu finalmente o cigarro frio.

Foi nesse instante que vi baloiçar o magnífico - e pesado de símbolos - ,colar de pérolas que herdou da minha avó e percebi então como aquela jóia pode ser apenas um adereço a mais no pescoço errado.

18.1.22

A Gaffe fraterna


A Gaffe tem uma relação muito complexa com a irmã e por vezes deixa de aguentar a pose de indiferença e passa à mais descabelada das ciumeiras.

O que mais a apoquenta não é o facto de ser notório que a mana é uma mulher repleta de glamour, mas há pormenores que lhe esbardalham os nervos.

É uma loira pura e linda, linda, linda com oiro raro no cabelo liso e muito Grace Kelly, bem vestida, inteligente - aquela pose de diva altaneira só se aguenta de pé a tempo inteiro com uma dose espessa de inteligência -, podre de rica e tudo ao mesmo tempo. Tem um ar de Rita Haywoorth misturada com Dietrich e usa um perfume que se mete no nariz das pessoas até lhes fazer mirrar o cérebro de inveja. Guia um Jaguar antigo e obra-prima que é do pai, mas que o pai empresta, não vá a menina ter de conduzir um Porsche, que é parolo.

A mulher senta-se e ao cruzar as pernas quase que nos dá com a biqueira do sapato, caro e de tacões agulha, nos queixos. É claro que mesmo alapada fica da nossa altura. Somos todos baixotes de pêlo cerdoso, daqueles de pata curta e de orelhinha murcha, em frente dos punhais traçados das suas maviosas pernas.

Vive num sítio onde é preciso vender as jóias da família para poder dar uma espreitadela e ficamo-nos pela cozinha, que na sala se só entra de brasão para cima. Usa bijouteria assinada e adereços gigantes que se estivessem pousados em cima de nós durante mais de uma hora tínhamos de ser levadas ao ortopedista, depois de desencarceradas.

É muita humilhação para uma rapariga só.

Estas mulheres, que felizmente são uma deslavada minoria, fazem uma rapariga do mais banal que há, de cabelo vermelho desgrenhado, de jeans entradotes e botitas tinhosas, sentir-se uma minorca gorda e sebosa.
Parece que nos esturricam!
Deviam ser todas expulsas. Deviam ser todas de papel. Devíamos todas poder pintar-lhes bigodes com marcadores grossos, desenhar-lhes cornos na testa e colorir-lhes um dente de preto.

Foi o que a Gaffe fez, mas cá para dentro, quando a mana insinuou que se esta rapariga pobre despir os jeans que usa invariavelmente por aqui a pele vai sair colada. A vedeta afastou-se depois, mas já com pêlos nas pernas, uma unha do pé encravada e com barba de dois dias e aposto que a partir de agora nenhum galã de morrer de lindo, saído das fitas de cinema, lhe vai apalpar tão cedo aquelas mamas perfeitas pintadas de verde vomitado.

E mais nada. 

A Gaffe no Douro

Rui Pires

Quando se abre a janela do quarto fechado, o Douro entra de rompante, soberbo, gigantesco, arrecadando o respirar dos que surpresos nunca o tinham visto daquela forma vertiginosa, daquele ângulo que o faz um golpe de prata na paisagem, um profundo golpe aberto ou uma veia cheia, curva, serpenteada. A esmagadora força com que o rio, o golpe, entra nas almas, transforma em silêncio o ar que chega sempre frio.

A manhã esmorece pausada no ténue reflexo do arvoredo baixo e a terra ergue lento o clamor da água, erguendo a prumo o corpo furibundo dos socalcos.

Quando se abrem janelas sobre o Douro, Deus existe parado a ver.

16.1.22

A Gaffe pelo caminho


A manhã entra pelos interstícios das árvores e das pedras.

Madruga a neblina.

Era usual, de braço dado, caminhar com a minha avó pelos trilhos das camélias e dos bichos. Íamos postas em sossego. Às vezes, anotávamos as banalidades da terra. Uma flor que entretanto abrira, um pássaro que rasava a água, ou a gota de orvalho que gelava no cálice das mãos de uma estátua de pedra. Nada havia de transcendente nestes caminhares. Eramos terrenas e vulgares e era Inverno. Bastava.

Hoje caminhei com a minha mãe pelo trilho das camélias e dos bichos.

Há uma quase religiosidade na brandura com que a o braço me é dado, um milagre que filtra a decomposição do mundo, que revela apenas a luminosidade da floração do espaço, na forma tranquila, pacífica, provavelmente submissa, com que a minha mãe se move e me acompanha.

É nesta bonomia etérea que se revela a negação do poder. A minha mãe nunca possuiu a capacidade de subjugar, de exigir, de manipular ou de se edificar como matriarca. Nunca foi mais do que a senhora de um silêncio longo e apaziguador, nunca ambicionou ser mais do que a pausa no respirar de um texto e nesse cumprir de desiderato tornou-se a mais doce das criaturas que esvoaçam.

A imagem que retenho é a deste caminhar.

Um casaco de malha grossa, largo, de jacquard - cristais de neve beges e castanhos, sobrepostos, que a agasalham num cruzar deformador -, as calças cigarrete, os sapatos rasos, picotados, masculinos, de cordões, a camisola de gola alta – turtleneck, insiste -, o colar e o lenço de seda de cor queimada num nó desengonçado, alisam o conforto que reavemos depois das trovoadas.

Vou pelos interstícios das árvores e das pedras, como outrora de braço dado à minha avó. A mesma onda no cabelo, os mesmos brincos de pérolas, o mesmo olhar o voo dos pássaros a rasar a palma das estátuas.

Terrena e vulgar, então percebo que nunca caminhei tão perto da mais rara das origens do silêncio. O amor pelas coisas mais pequenas.

15.1.22

A Gaffe no palheiro


Não creio que se deva ou se possa impedir alguém de alcançar uma vitória ou atingir determinado objectivo, apenas porque é portador de determinada característica que potencia as hipóteses de sucesso ou que, de ânimo leve e consciência limpa, se possa anular a candidatura à vitória do que possui um dado específico ou eventualidade genética que o coloca de imediato na linha da frente dos pretendentes mais lógicos.

Não afastamos, por exemplo, ninguém da competição, com desdém e sobranceria, apenas porque o indivíduo em causa mostra que tem um inato e descarado talento, um incontornável e descontraído virtuosismo, perante um outro, menos genial e menos bafejado pela sorte ou pela lotaria dos genes, mesmo que este arraste consigo um sistemático esforço, um constante labor, um suadíssimo e encarniçado trabalho de bastidor.

A beleza, feita de carne e de imaginação, é um factor gratuito que chega sem contar para nos colocar nos lugares onde a vitória é mais previsível, mas que cobra esse privilégio sem qualquer tipo de condescendência.
O preço é real e muitas vezes inclui o retorno inflamado daquilo que é dado e, ao contrário do esperado, quem o costuma pagar é o vencedor.
É uma arma que dispara do mesmo modo que o talento, a inteligência ou o mais elaborado dos esforços e, como tal, deverá ser considerado legítimo o seu uso na procura eventual da vitória e abertamente aceite o seu efeito potenciador de sucesso.

Pode não usar o mesmo gatilho usado pelas outras, mas supera-as muitas vezes no resultado obtido.

Não é de todo condenável que se use consciente e deliberadamente na guerrilha da vida as armas que nos foram entregues pelos genes.
O uso do poder de atrair, a pele e o sorriso, podem emudecer as mais argutas análises, podem calar as mais estudadas e sapientes conclusões que contra nós afiam dentes e navalhas.
O uso da capacidade que a beleza tem de se tornar obstáculo aos mais matemáticos estudos, às mais complexas equações, aos mais racionais argumentos, às mais límpidas demonstrações que nos negam e reprimem, não pode ser proscrito.
O uso da evidência do que é belo preso em algodão macio para destruir o que nos impede de morder maçãs proibidas, não é de descurar.
O uso da agilidade de todos os músculos que temos para domar a rigidez das decisões que não interessam, deve ser considerado como viável e certeiro.

A beleza funciona assim e desta forma como uma alavanca, um impulso consciente, um corte de caminho, para que às nossas mãos chegue aquilo que desejam.

Nestes processos é condição essencial - quando as armas que empunhamos são por norma as que maldizem -, que seja divertida a consciência desse uso e aguda a certeza de que o fazemos bem, sem escrúpulo algum, sem nenhuma espécie de demagógica moral, sem ética pindérica, sem benzida noção de decência ou de beato decoro.

Apenas dessa forma a beleza que utilizamos é uma outra espécie de inteligência. A inteligência que se pode espreitar, pecaminosamente, maliciosamente, pela fechadura do desejo. A agulha no palheiro.

O absolutamente exigido é que nunca nos coloquemos à venda e perceber que temos somente a perspicácia de apenas fazer com que alguns encontrem os seus preços.

14.1.22

A Gaffe de Saruman


Se nos atrevemos a declarar inocentemente que somos obrigados a ir ao Continente, ao Pingo-Doce, ao Intermarché para, por exemplo, comprar umas coisitas banais e baratas imprescindíveis à nossa higiene pessoal, somos olhados com o mais profundo e sobranceiro desprezo pelo pessoal que por aqui, sofisticado, só se desloca a Grandes Superfícies.

Fomos então, eu e a minha prima, à Grande Superfície comprar cereais e algodão, desodorizante e sabonete Patty de que a minha costela parisiense tem saudades.

Encontrado o desejado - embora tenha havido filosófica, assanhada e desabrida hesitação em relação à marca do desodorizante a escolher -, descobrimos que a caixa destinada aos clientes que trazem no cesto nada mais do que dez unidades estava atulhada por um carrinho a vomitar produtos pelas grades, rodas, frinchas e interstícios.

De saco de arroz carolino nos dentes, com os dedos enfiados na ranhura da moeda, rabiava uma criatura daquelas que parecem ter saído do chão do Senhor dos Anéis para atacar o Castelo. Uma anã horripilante, medonha, feia, disforme e maldosa.
Com voz de macaco de ventríloquo, aquela coisa má e cabeçuda, de pernas arqueadas e braços mesquinhos, arreganha os dentes e tenta morder:

- A gente sabemos como bocês soindes! Ambas as duas com a mania cas finas chêgo e puode tudo. Num bale a pena armar-vos aos cágados qu’eu tenho dois pares d’olhos e ninguém se ponhe à minha frente!

A anã esgadanhava o ar a rosnar furiosa com os olhos raquíticos cravados nas minhas rótulas.

Pensei dar-lhe um chuto nos dentes ou espetar-lhe os dedos nos quatro olhos e arrumar o assunto, mas a minha prima, mais presa pela surpresa do que por distinção fleumática, tentou mostrar-me que havia uma caixa livre e solta alguns produtos mais à frente. A nojenta criatura que ficasse desonesta e insultuosa a ocupar lugares a que não tem direito.

Hesitei, mas não transigi, não condescendi, não tolerei.

A anã estava escandalosamente a usar armas inconstitucionais. Percebi que o facto da mulher ser um cangalho feio e disforme, saído directamente do Senhor dos Anéis para servir no exército de Saruman, estava a ser usado para provocar uma espécie de piedosa compreensão, permissividade e condescendência perante a prepotência nata, ofensiva e intrinsecamente maldosa, independente do facto do tamanho do bicho não ser o da Naomi Campbell - igualmente cabra.

Se é para sacar da artilharia ilegal, eu também tenho algumas surpresas proibidas e MUITO TREINO no uso de reles artimanhas.

Perante a estupefacção da minha companheira de infortúnio, atiro o mais rasgado, encantador, fascinante e sedutor sorriso ao menino da caixa das dez unidades e num lance bem sujo levo o dedinho à boca, amuadita e indefesa, suplicando ao jovem cavaleiro da máquina registadora que soltasse o herói desconhecido que bem no fundo lhe cavalga o peito e que defendesse a ruiva prisioneira do dragão raquítico.

O menino da caixa abana as melenas e as crinas do cavalo no interior e já de Távola Redonda, ralha esganiçando espadas disposto a despejar tudo no carro da anã:

- Estas meninas assistezes-lhes a razão. Esta caixa é só para menos de dez unidades.

- Eu sou menos que dez unidades, Toninho. Tu bias isso, mas já num tiras os olhos de dois pares de mamas finas que de dez unidades também num bejo nada – grunhe a anã dos olhos invejosos.

De soutiens humilhados, com os pares referidos mais ou menos embaraçados, rumamos à caixa quatro, quatro pares de carrinhos à frente.

Há treinos que apesar de pequenos são mais intensivos e bem mais eficazes que os meus.

A Gaffe sem pressas


Uma rapariga esperta e cosmopolita odeia correr.

A Gaffe não se refere a atletas do calibre ilustrado, como é evidente. Fala das urbanas elegâncias dispostas a sacrificar pontualidades se estas implicam distorcidas corridas pelas avenidas das cidades usando uns deslumbrantes Jimmy Choo.

Os rapazes estão livres desta aversão.

Há, no entanto, alguns requisitos a ter em consideração.

Um homem pode sentir-se desesperado com o atraso que traz, esbaforido, esguedelhado, suado e de calcanhares a atingir o rabo, pode ficar arroxeado de tanto apertar o que só ele - exclusivamente ele -, pode fazer, pode bater recordes de salto em comprimento para conseguir alcançar o avanço dos ponteiros do relógio, MAS não deve fazer transparecer e fazer-nos perceber o que se está a passar.

A pressa e a velocidade com que se luta contra o atraso devem ser minimalistas.

Não se admite sobrecarga de peças inúteis. A viagem é sempre deslocação do essencial, nunca do acumulado.

Daí ser permitido a um rapaz esperto e digno de nos provocar, a nós, raparigas desprevenidas, atrasos incomensuráveis, apenas o uso de peças básicas, minimais, desprovidas de complexos dispositivos que amordaçam quem se quer olimpicamente apressado, fáceis de despir se a aceleração aquece e de apertar se no rosto bate a neve em Nova York.

Correr a favor da pontualidade não é o mesmo que sofrer as agruras do náufrago que tenta em desespero salvar manuscritos épicos. É um acto absolutamente racional e, como tal, meus caros, apresentem-se, se não for a horas, capazes de fazer com que se ignore o atraso.


13.1.22

A Gaffe avermelhada



Há já alguns anos, à saída do aeroporto, Pequim na mira, fui abordada por dois chineses velhíssimos que excitados suplicavam que tirasse ao lado deles uma fotografia.
Acedi.
Percebi pela alegria gestual das milenárias criaturas que era o facto de ser ruiva a razão do alarido. Provavelmente seria como captar uma imagem ao lado de um unicórnio ou, mais prosaicamente, de um orangotango aos caracóis que ruivos deveriam ser também. A verdade é que, em contrapartida, os obriguei a posar comigo, numa recordação só para mim. Não podia perder a oportunidade de registar o momento em que me cruzei com duas múmias da dinastia Ming.

Não há muito tempo, na Irlanda, passei despercebida.

Um país absolutamente indiferente à minha cor, porque é o local do planeta onde existe a maior concentração de ruivos por metro quadrado. Mais uma, menos uma, é coisa de pipocas.

Para além de ruivas e de ruivos - há que respeitar todos os blocos -, a Irlanda tem cavalos, ovelhas, cães, muita erva e um tempo desgraçado. A conjugação destes factores provoca saudades da China, onde pelo menos encontramos alguma excitação a tentar não atropelar ninguém no meio da cortina de névoa envenenada.

É esplêndido porque nos faz vislumbrar que no meio da paisagem irlandesa apetece muito e é tão bom poder encontrar dois velhíssimos chineses para lhes suplicar uma foto em conjunto.

Este confronto com tão diferentes conceitos de normalidade deixa-me siderada.
É maravilhoso o modo benigno como neste planeta a diferença é às vezes olhada!

É extraordinário perceber que é apenas a lei das maiorias a definir a regra e, em consequência, a provocar o preconceito - origem básica de todo o erro do julgar -, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de acolher quase de forma divertida a fuga aos que dela escapam.

É encantador compreender que nos portamos todos como tontos num planeta povoado pela diferença, como somos ingénuos e teimosos quando incensamos o nosso umbigo fornecendo-lhe o estatuto de vedeta e de modelo único e que, ao mesmo tempo, ali bem perto, consideramos que uma fotografia ao lado da dissemelhança merece ser mostrada aos netos como triunfo sobre o quotidiano.

Às vezes as minhas avenidas são brancas. Outras vezes reflectem-se nos olhos e ficam com as cores de quem as olha, mas serão sempre ruivas quando dentro delas há gentes a cantar as cores que dentro da amizade eu consigo encontrar.

Foi informada por uma das minhas mais importantes amigas, que o dia de ontem foi dedicado internacionalmente à gente ruiva. Foi dia de beijar uma destas maravilhosas criaturas.

Esta rapariga admite que não fazia a menor ideia.

Espero que o vosso beijo tenha também a cor ruiva daqueles que festejam a diferença.

12.1.22

A Gaffe nos Recursos Humanos

Kai Carpenter

Quando ouço falar da Guerra dos Sexos encontro sempre aliada a esta questão o problema da beleza feminina como adversária ou auxiliar importante no campo de batalha. Embora, na realidade, não considere existir um conflito incontornável, assumo que a inteligência é quase sempre indirectamente maculada pelo facto de, por estereótipo, se considerar que uma mulher bonita tem o cérebro mirrado, talvez porque o sangue não o irrigue convenientemente, tão disperso está pelo comprimento das pernas deslumbrantes.

A beleza, sobretudo a feminina, é não raras vezes um entrave ao sucesso muitas vezes garantido ao homem sem que este dê provas de qualquer capacidade para o merecer, porque impulsiona e eleva as expectativas depositadas no feminino, colocando a fasquia de tal forma alta que a falha pode ser inevitável.

De uma mulher bonita espera-se que prove, com maior grau de exigência, a sua competência, eficácia e inteligência. Parte-se vulgarmente do princípio que a loira platinada, de corpo digno de figurar no catálogo da Vogue, vertiginosamente atraente e ondulante, não pode ter o cérebro povoado a não ser por futilidades e métodos de fisgar um milionário. A loira burra, com todo o seu esplendor e perfeição anatómica, é quase sempre objectificada, considerada um troféu ganho pelo macho ou, na melhor das hipóteses, a protegida do Presidente. Terá de dobrar o seu esforço para solidificar o lugar que ocupa e provar que pensa.

Parte deficitária.

Para ilustrar o dito - e reconhecendo que a juventude/velhice são premissas de importância capital no conceito actual, e ocidental, de beleza -, recorramos a duas ilustres senhoras de um tempo já ido para não melindrar ninguém:

De Carla Bruni não se esperava nada, a não ser que subisse os degraus do jacto privado com os rasos sapatinhos Prada, que miasse de quando em vez e que cruzasse os pezinhos como bailarina bem comportada na presença de Sua Majestade Isabel a segunda. Embora seja evidente a inteligência astuta e poderosa da modelo, terá de se esfolar dolorosamente ou apresentar ao mundo um renovador tratado de filosofia política para se tornar credível. De Manuela Ferreira Leite não nos espantamos que tropece na subida, sapatos pelo ar e saiote desfraldado, com todos os tratados comunitários e estudos económicos agarrados aos dentes, porque a inteligência não colide com a beleza e portanto não nos permitimos duvidar da sapiência da ilustríssima senhora.

Evidentemente que se pode e deve contornar este percalço estereotipado.
Uma mulher inteligente jamais abdicará do facto de ser considerada bonita. Usa-o.

Os homens podem desbravar caminho abdicando dos seus princípios ou de irrepreensíveis comportamentos éticos. O Presidente Executivo da Empresa pode ter sido um sacana, um pulha e um patife ou ter bebidos uns copos com as pessoas certas no seu percurso até à liderança e ser reconhecido pelos pares como aquela criatura invulgarmente inteligente que soube atingir o topo à custa de muitas feridas que lhe ensanguentaram as mãos. A Presidente Executiva da Empresa se for ao mesmo tempo um modelo de Dior é, muitas vezes, a cabra que dormiu com toda a gente.

Partindo deste pressuposto, a mulher inteligente reconhece que a Beleza não pode ser asfixiada em nome de um estereótipo com origem no entendimento masculino do universo. Usa - e tem obrigação de o fazer -, o fascínio que é capaz de produzir com a mesma eficácia com que os homens se esventram com um Power Point elaboradíssimo que aniquila a concorrência.

A beleza feminina é uma arma poderosíssima ao serviço da inteligência. Ninguém mentalmente saudável inutiliza, ou despreza como reprováveis, os dados favoráveis que possui e com que pode jogar na vida.

Se o vislumbre do soutien que protege a beleza insuperável consegue defender aquilo que consideramos justo bem melhor do que a catrefa inútil de gráficos coloridos que serão ignorados por completo, que se prenda então a papelada imprescindível à renda de uma alça.

Ganhamos nós, mulheres, e ganha a Empresa.

11.1.22

A Gaffe sem glamour


Há mulheres que só com o perfume nos humilham. Provocam-nos um colapso nervoso ou desencadeiam uma depressão profunda quando passam por nós, que somos raparigas espertas, mas sem uns trocos jeitosos na carteira para poder lavar a alma com umas compras muito Jackie O.

Normalmente olham para nós como se tivessemos obrigação de lhe ter lido o CV antes de lhe fazer a vénia.

O que mais impressiona não é a maquilhagem. Uma mulher elegante deve parecer que não usa desde a adolescência tola um pingo de make-up - sejamos internacionais -, um pincel de sombrear os olhos ou um bâton, mesmo daqueles que nos fazem empenhar o apartamento para os comprar, e no entanto estar empapada em blush e encharcada em rimmel, com a balança em desequilíbrio por causa do peso do eyeliner.

Também não causa grande intriga o tailleur ou o colar, ambos verdadeiras jóias e ambos de arrasar o ordenado de uma miúda banal, mesmo daquelas que se estafam no trabalho. Uma mulher elegante pode ter a veleidade de empenhar seja o que for em nome de Dior.

O que causa espécie, como diria a minha avó, são as meias e os sapatos!

Há mulheres com pernas magníficas! Duas esculturas que quase lhes chegam à garganta e que terminam, nos lados que ficam perto do chão - digo perto porque mulheres daquelas só flutuam - nuns sapatos pretos simples, bastante fechados, com uns tacões agulha, do tipo usado nas urgências para espetar adrenalina no coração dos mortos.
Fica uma rapariga a pensar que daria tudo, era capaz até de emprestar o homem dos seus sonhos, por ter um par igual. Não de sapatos, mas de pernas. Depois, já com mais calma, a rapariga simples repensa o caso e acaba por concluir que, e para aquilo funcionar sem gastar muito, teria de andar de gatas pelas lojas das meias, à procura de um par mais baratito e pedir à Nossa Senhora de Fátima - padroeira dos equilíbrios, sobretudo em cima de oliveiras - ajuda para se poder manter segura naquelas duas torres gémeas, pretas de verniz.

A elegância genuína é cara. Não é contraditória a afirmação. É complementar.

Podemos nascer de diadema, com um allure de arrasar parola, snifar diamantes e espirrar caviar ou ter o charme indiscutivelmente francês de Jackie O, mas se não formos amantes dos Onassis desta vida, ou de família que reine em qualquer lado, acabamos cheias de olheiras, a trabalhar à bruta e à maluca, para poder no fim do mês comprar umas chanatas - chiques, mas chanatas mesmo assim - e largar as meias que mais se parecem com arraiais minhotos de tantos foguetes.

Sejamos felizes, portanto. Há mulheres elegantes que só têm o érrima porque têm carteira.

A Gaffe futebolística

Ruben Loftus Cheek

Não gosto de futebol, mas em contrapartida adoro futebolistas. É agradável ter por perto um rapaz musculado e vigoroso sem necessidade nenhuma de estar atenta ao que ele diz, porque sabemos de antemão que, salvo raríssimas excepções, não dirá nada que valha a pena ouvir.

O interessantíssimo é constatar que a imprensa portuguesa - toda ela -, vai olhando e transformando o debate político actual num torneio de bolas - como diria Zezé Camarinha -, apoiando-se em definitivo numa semântica futebolística e numa alinhamento igual ao dos jogos desta tão badalada modalidade desportiva. Determinada equipa, ou determinado político, perde ou ganha ou empata e comenta-se depois o jogo até à exaustão num interminável número de rubricas, de programas e de peritos, sempre tendo em conta e bem presente as bandeirinhas.

A ideologia, assim como a verdade, é agora apenas uma questão de opinião, de certeiro pontapé, de cabeçada mais rija ou mesmo do sentir clubístico do comentador que se segue.

Em relação a este problema, a Gaffe francamente não encontra gravidade. É tudo uma questão de bolas. O enormíssimo inconveniente é percebermos que não havendo necessidade de ouvir o que dizem, pois que não dizem nada que valha a pena ouvir, deixamos de ter razão para assistir à jogatina, sabendo-se que de rapazes musculados e vigorosos este campeonato eleitoral é lance de bola parada.


A continuar assim, não haverá vitória que nos salve.

10.1.22

A Gaffe num caninho de medo


Há no Douro uma mulher madura e opulenta, com os dedos gretados a cheirar a alho esmagado e nádegas roliças que senta no banco comprido, à mesa, depois dos homens terem devorado o que ela cozinha e abalado.
Tem na frente uma malga de azeite com alho triturado, sal, cebola em rodelas finas e salsa esmagada. Vai molhando dentro pedaços de pão de milho. Atenta e sossegada.

- A menina quer um caninho de pão?

Um caninho!
Um caninho de pão e eu com medo. Medo de não gostar do caninho de pão. Medo que ela descubra que fui eu a pecadora que no ano anterior atirou para dentro da cisterna a fatia de pão embebido em leite e polvilhadas com açúcar e canela.

- Mais outra, menina? Tire mais outra! Se comeu uma tão depressa é porque gostou. Tire outra e não se acanhe.

Eu acanhada a retirar outra, com o primeiro pedaço da primeira a empapar-me o palato, a nausear-me. Medo de não saber olhar para a mulher. Medo de a ver apenas como quero, de lhe entregar o que não é dela. Um lenço escarlate com rosas escuras e franjas sedosas ou um avental a cheirar a frutos com bolsos folhados. Ela que tem cabelo preto e encardido, preso na nuca por dois ganchos velhos e uma bata ruça aos quadrados azuis e verdes, a apertar à frente. Cheira a estrugido. É feia. Tem braços gordos e dedos papudos com gretas castanhas e a cheirar a alho, os gestos a cebola, e eu tenho medo de não gostar do caninho do pão molhado em azeite e de não saber porque tenho medo, aqui.

Não sei porque roubo e escondo pedaços deste espaço e me espanto porque o que fica me parece tão roído sabendo que recortei esquinas e refiz imperfeições de modo a que nada altere a medida do certo ou conspurque a elegância do brando, para que nada incomode o lugar onde fico, de maneira a que tudo seja compreendido, compreensível, sem o inquietamento, sem o desconforto, sem o inssossego do que não se entende. O modo como fico, o modo como o faço, é dócil, é aquietado. Não existe a arquitectura inquieta do desconforto. Fico como se entra numa casa que não deixa memória e onde nada vem connosco quando saímos e deixamos que a porta bata atrás de nós.

Tudo é tão leve assim como uma frase feita ou um cliché. O que fica é tão plano e liso como o tampo da mesa onde a mulher pousa a tigela.

- A menina quer um caninho de pão?

Não. Não quero.

Tenho um caninho de medo do que roubo.


A Gaffe "heroína"

06/01/2019


Peter Turnlay

A enfermeira com olheiras permanentes e cantos da boca descaídos, antipática, rabugenta, impaciente e severa, diz-me, enquanto expira o fumo do cigarro mal fumado, que já tem quinze horas seguidas e duas maçãs de trabalho no lombo.

Veio só respirar um bocado, informa-me à laia de desculpa, como se aquele intervalo lhe pesasse na consciência e a tornasse culpada de negligência.

Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas.

A enfermeira olha para mim. No meio de uma baforada, os seus olhos piscos de lágrimas. Encolhe os ombros.

- Somos heróis o carago. Borro-me de medo. Ando aqui toda apertadinha e, para ser sincera, só me apetece desandar daqui para fora. Cagões, é o que somos todos. Entende-se porque se esgota o papel higiénico.

O barulho das palmas afugenta o medo. O deles, que o nosso está aqui e não arreda um palmo.

Dizem que batem palmas aos heróis.

Dizem que nos batem palmas.

Falam-nos de guerra.

As metáforas bélicas ficam sempre bem nas intervenções institucionais em quarentena patética e nas exortações do facebook.

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!

Alguém me disse um dia que um herói é o cagaço com armas nas mãos. A definição poderia ser forçadamente agustiniana, não fosse o pretenso vernáculo a macular o meio literário. Não fosse a inexistência das armas. Não fosse a pandemia do pânico que subverte e decompõe e desmuda e desordena a indiferença que cresce e que se instala ínvia nos habitáculos do tempo em que a paz é tida como certa.

Um país que precisa de heróis para sobreviver, talvez não mereça ser salvo.  

Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas. É provável que no som dilatado de todas as palmas juntas se não descubra ainda o propósito da vida, que não se encontre a essencial pergunta e a imprescindível resposta.

A coroação do tão propagandeado estilo de vida ocidental - que se tenta expandir a Oriente - como inexorável modelo global com capacidade para se impor ao periclitante equilíbrio civilizacional, idolatrando a trepidação que ignora o sentir da terra, e a pesadíssima coacção que é exercida sobre aqueles que não conseguem encontrar a fuga dos paradigmas de consumo, de exigências mundanas, de êxitos financeiros e de todos os soberanos lobbies que esmagam e calcificam a alma, são colocados em causa por medo maior, mais evidente e lógico, ou pelo mais comezinho e patético que seja possível sentir, com origem num dos mais contagiosos vírus existentes no planeta.

A questão a formular deixa de ser a tradicional e esconsa viela sem retorno ou saída. Já não é possível perguntar quem somos, ou o que queremos, ou para onde vamos. Há que encontrar a resposta a uma das mais perturbadoras das perguntas, que é também aquela a que é possível dar final:

De que fugimos nós?

De que tentamos escapar quando somos confrontados com a nossa intrínseca debilidade, com a nossa implacável fragilidade, com a nossa humilhante condição de caça miúda perante um predador que de tão ínfimo nem sequer se vê?

De que fugimos quando em desespero desejamos tudo?

Quando soubermos responder, talvez então não se fale de heróis, por apenas haver gente.


Gente que abra as suas tumbas de egoísmos pequeninos e tarecos e perceba também que as ruas desertas passam e erguem de forma cada vez mais acelerada as tragédias de quem é arrastado para a miséria, para a pobreza e para a ausência de olhares dos outros mundos.
O isolamento de eventuais infectados e círculos adstritos decretado sem nexo e sem qualquer método organizativo ou organizacional, sem bases lógicas ou científicas, perceptíveis e inteligíveis e o arrastar das vidas em espera, adiadas como os mortos dos poetas, os apelos sem vergonha à aniquilação do lazer e ao cancelamento da cultura enquanto se esmaga gente nos trabalhos apinhados e nos futebolísticos torneios eleitorais, é descrédito, é cansaço, é desobediência, é inevitável recusa e é a forma mais vil e egoísta de proteger a nossa vidinha.

Olho e ouço as criaturinhas cerradas e cegas por pequeninos medos caseiros a vociferar, a insultar, a arrasar e a condenar os que têm de viver lá fora, os que não podem e não querem ficar de mãos atadas, de cérebro inactivo, cancelado, os que se riem, os que festejam, os que exigem, os que não podem exibir o luxo mediano do isolamento profilático cujo conceito vai variando ao sabor das nuances de luzinhas que baixam do poder sobre as massas, enquanto vai crescendo a vaga de ignorância, de desinteresse, de imbecilidade, de ausência de pensamento crítico, de vontade de agir e sobretudo a falta de necessidade de questionar o tido e dito como oriundo do Grande Inevitável que já produziu tantos e tamanhos abusos e mentiras.  

É provável que este emudecer temeroso, este embrutecer arrasado pelo medo e pela vontade de trucidar o que escapa do ghetto, esta ausência do pensar externo ao já dito e repetido, este aumento descomunal de incapacidade de questionar ordens que balançam ao sabor do interesse alheio à comunidade, tenha contribuído para a alta taxa de vacinação do país. Honra lhe seja feita. 

Gente aterrorizada torna-se, mais cedo ou mais tarde, egoísta, mesquinha, ignorante, cega, muda e obediente.


9.1.22

A Gaffe regressa a casa

09/01/2014

Daniel Merriam

1.º Andamento
No fim da alameda, ela espera.

A guardiã do eco, dos grãos de pó, das janelas fechadas, das cortinas corridas, condenadas. Aquela que ficou a envelhecer. A que me chamava do fim do corredor sempre que havia espaço para os meus olhos nos reinos das senhoras. Eu chego agora e fico a olhar para dentro com as mãos pousadas nas crostas do portão. No fim da alameda, a que ficou à espera, no exacto lugar em que a minha avó a deixou, a escolhida para zelar por tudo, à minha espera.

Estava sempre a bordar! Lembras-te, avó?

Uma grande tela branca que ela ia picando e colorindo. Espetava-lhe ramos recurvos, folhas retorcidas e flores emaranhadas. Mal acabava uma rosa, vermelha como uma chaga de Cristo, cravava-lhe junto uma outra qualquer espécie botânica, prolongando o sofrimento do pano. Não ia acabar nunca aquela dor barroca! É certo que de raízes pouco ou nada existia no seu jardim de linhas. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido. Os dedos da mulher acabaram substituindo os subterrâneos apêndices, afinal, era através deles que se nutria a flora descoordenada que espalhava no regaço.
Debruçava-se, encostando os olhos à agulha e injectava um fio de sangue para plantar mais rosas e um outro sangue afluía ao dedo picado.
Cinderela a lamber a polpa do dedo, maçã de outra história, ou uma das Parcas, a que corta fios?

A casa, avó, adormeceu nesse bordado.

2.º Andamento

Não chores quando eu me aproximar. És tão pequena e tudo é já tão grande. Eu entro devagar e é tudo tão depressa. Deixa-me passar e não me fales. Sorrio uma vez só e olho para ti. Gosto de ti. Sempre gostei. Tinhas aventais repletos de aromas que eu já não conheço. Trazias flores no teu regaço, madressilvas, malmequeres e lírios. Flores a rodearem a cinta, a treparem pelas abas do avental. Cheiravas a lavado, fazias leite-creme e vinhas comigo, a arrastar os pés, quando eu tinha medo do escuro do meu quarto.

Defendeste a casa a tiro de espingarda? Bordaste-lhe o jardim? Correste com aqueles que cortaram as memórias e que deixaram secar as sardinheiras nos canteiros do jardim? Fechaste tudo, até o pó da tarde em que te deixaram só, de modo a que eu encontre o mesmo pó?

- Lembraste de mim?
- Não haveria eu de lembrar?! A minha menina pequenina! A menina dos olhos de prata.



Agora que pisei a minha sala já podes descansar.


3.º Andamento

Não há sons. Já não existem os teus sons, avó. Mesmo o ranger do soalho, ainda encerado de quinze em quinze dias, parece diluído. Pesa de perfume o ar que não respiro agora, mas que me entra baço nas narinas e há escuro desperto nas rajadas de luz que entram pelas janelas. É Primavera. Não há vento, mas sinto as folhas esbaforidas a rodopiar. Estou cá dentro e sinto frio, como se tivessem aberto as portas todas e as correntes do ar enfurecidas viessem galopar o meu espaço. Onde fiquei? É mesmo aqui que existo?

Talvez agora entre na luz filtrada azul e madrepérola.
Talvez suba as escadas.
Talvez consiga abrir gavetas e tocar no tempo que parado olha.
Talvez releia as tuas cartas, avó, que já sei de cor e pare por instantes na frase em que se ouve:

- Esteja onde estiver, hei-de aqui voltar. Mesmo se morrer hei-de ficar aqui. Assim, tu vens e habitas-me.

Talvez consiga então descerrar os olhos, cegar e emudecer todos os móveis e pousar os livros.
Talvez desça depois e devagar agarre a minha chave. Aquela que tu deste à senhora do bordado.
Talvez me deite na terra já despida e neste chão cave uma cova com os lábios, língua e dentes, como quem beija amantes ou estios.
Talvez deixe tombar lá dentro a minha vida.
Talvez lave com terra, depois, as minhas mãos, até a minha pele ficar de lama. Só depois.
Talvez mergulhe a dor de dentro dos meus olhos, como um lanho, na água da cisterna até acordar o minúsculo coração que respira um barco, o Douro e o vento Norte.

Talvez consiga isto e muito mais.

Mas não consigo, avó, deixar de ter saudades.

A Gaffe em casa

 

Entro em ti como num corpo.

8.1.22

A Gaffe voltada a Norte

Il Trionfo della Divina Provvidenza - Pietro da Cortona


A varanda voltada a Norte precipita-se sobre o rio como se o uivo do vento por entre as garras de ferro se tivesse unido ao silvo do chicote da água, em baixo, serpente a rastejar.

O meu céu é este.

Lanhos de rio erguidos nos socalcos. Chumbo e prata a pesar no granito de frio que trepa os troncos das árvores e as rugas do espaço permitido suportar pela saudade.

O meu céu é este rio cinzento que brilha como um fio de prata no pescoço da terra.

O meu céu pulsa como corre o rio.

Trago os pés gelados para pisar o céu. Todos os céus são rios que descalça toco, que descalça troco, porque a inversão da paisagem existe na lâmina da varanda voltada a Norte que duplica o frio dos meus pés que pisam água e céu e terra, tudo junto.

Trago vestido o ar que vem do Norte.

O meu céu é este rio cinzento dos socalcos e o precipício da varanda onde me debruço sobre a nudez da terra e emudeço no uivo do vento nos ferros e no silvo da água que caminha sobre o meu vestido.

7.1.22

A Gaffe muito feminina

Qistina Khalidah

Sempre considerei que uma mulher que luta pela igualdade entre géneros, é uma mulher sem ambição.

Nunca foi minha intenção ser igual aos homens. Jamais foi meu plano equiparar-me ao senhor que na minha frente bate com os joelhos na barriga quando cruza as pernas, de rabo alapado na poltrona dos poderes. Não quero a igualdade apregoada pelas caricaturas do feminismo que grassam nas redes sociais, que se cruzam comigo nas ruas e me conspurcam o sossego límpido da minha pacatez segura pelos ferros do que quero e pela certeza de que o machismo - e mesmo a misoginia - é apenas mais uma ferramenta de trabalho que nos é entregue e que pode servir os intentos das mulheres bem melhor que um panfleto feminista de pacotilha.

Sou indiscutivelmente uma mulher. Quero ser mimada, apaparicada, protegida da chuva, levada ao colo para atravessar a lama, receber gigantescos ramos de flores no amanhecer de um pequeno-almoço de lençóis de linho, ser considerada frágil demais para mudar um pneu que suja imenso as minhas mãos angelicais, ter asas que despertam a Poesia e - entre o mais que me cansa descrever - ser defendida das bestas por um musculado gigante bem barbudo. Não quero que se descartem estas obrigações masculinas em nome de uma igualdade de pantomima. Não quero sentir as obrigações, os deveres e as regras instituídas que fazem a tradição do macho/cavalheiro, esbatidas ou diluídas, porque sou mulher e logo igual e imediatamente tratada como se tivesse uma pila no cérebro antoniodamasiano.

Não quero.

Quero, isso sim, que os meus direitos solidifiquem. Poderão eventualmente distar daqueles que a mulher do quinto esquerdo decidiu que seriam os dela, mas convém que os dela recebam igual deferência e reverência.

Quero - à laia de exemplo -, ter o direito de usar o véu islâmico no centro dos que sabem em Paris, apenas porque me fica bem ou porque me converti; quero que a senhora do andar de cima use saias terríveis e apertadas sem que lhe digam que sabia para onde ia quando foi atingida pelo escarro das palavras do troglodita da esquina; quero levar para a cama todos os amantes que desejar sem me sentir, através dos outros, maldita, mal dita e culpabilizada; quero ser virgem o tempo que quiser, quando e enquanto assim o decidir; quero mover-me sem peias nas decisões que deslocam montanhas, sem que os ratos paridos o sejam por mim; quero ser livre sem que me aborreçam com a treta da liberdade que acaba quando começa outra, como se existissem liberdades à toa capazes de anulação mútua. 

Não quero ser igual aos homens. Não quero ter os mesmos direitos. É um tédio. É limitado. É circunscrito. A falta de ambição levada ao extremo.

Quero ter os meus direitos. Se os adquirir e preservar, com certeza que contribuo para a preservação e solidificação dos alheios.

É evidente que encontro abrolhos.

A beleza de uma mulher e o poder que adquire - sobretudo o simbólico -, são demasiadas vezes engulhos que contradizem e negam de modo ínvio os direitos que reivindica - e estes direitos são sempre subjectivos, metamorfoseando-se e amadurecendo de modo diferente em cada uma de nós -, e é quase circense, de uma mediocridade quase trágica, apercebermo-nos que são demasiadas vezes outras mulheres que negam e boicotam a Mulher e lhe arrimam a primeira pedra, embora seja polido e eivado de moral e bons costumes esconder a mão.

Os casos que vão surgindo e que nos informam da miríade de atentados, assédios, violações e estupros cometidos por machos - hollywoodescos ou não -, sobre mulheres belíssimas e detentoras de um capital simbólico significativo, são subvalorizados, porque - li eu, escrito por mulheres - uma grande parte das ofendidas sabia para onde ia. As vítimas destes crimes são assim prostitutas - e a prostituição é sempre uma violação consentida -, pois que apenas as prostitutas sabem para onde vão quando permitem uma violação em troca oportunista seja do que for. A beleza, o talento e o poder feminino são desta forma usados para incriminar e produzir sentenças que rastejam disfarçadas de bom senso, lógica e evidência, aos pés de um qualquer acórdão coadjuvado por um qualque juiz mumificado da Relação do Porto.

Implica este silogismo torpe que apenas as mulheres feias, miseráveis, pobrezinhas, órfãs da sorte e marcadas pela fatalidade e fado maldito, são vítimas reais - as que vivem nos antípodas são oportunistas que sabiam para onde iam -  e dignas de se fazer ouvir, mesmo que a queixa seja apresentada séculos depois do crime cometido, como se o tempo, o espaço, a circunstância, o medo, a culpa, a vergonha, a sobrevivência - a multidão de razões dramáticas que induzem o silêncio quase eternizado -, não fossem as mordaças de todas as mulheres sofridas e violentadas.

Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres.

Escolho ser um sedutor ramo de flores nos braços de um homem, garantindo que no meio delas há sempre uma carnívora.


A Gaffe não chora em português

Henri Cartier-Bresson

Por amor chora-se demais.

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.

É só fazer as contas.



A Gaffe das lágrimas
03/11/2015


Às vezes a Dor é um punho na garganta que rasga e nos arranca os órgãos. Transbordamos, porque nada sobra a não ser água na esvaída carcaça que ficou.

As lágrimas são a nossa mais ínfima ligação ao mar.

O choro das mulheres faz-me sentir criança que se perde na tarde de uma praia plena de um Agosto de guarda-sóis que escondem o retorno, mas é o choro dos homens que me faz parar na inquietude de me ver chorar ou na memória de um choro que foi meu.

Olho um homem a chorar e sei-o do esvair, da água em vez da alma.

Os homens choram ossos.

Ou talvez não. Talvez seja verdade e um homem não chore. Talvez seja um deus que se desfaz.