31.5.24

A Gaffe manipuladora


Todas as raparigas espertas possuem a maquiavélica capacidade de manipular o desejo dos homens.

Não está facilitada esta potencialidade. Todas temos um limite de manipulações estabelecido de acordo com o espécime que temos na frente e desconhecemos o número exacto que nos cabe em cada caso, mas, se não nos distrairmos com os pormenores mais atraentes, conseguimos reconhecer as nossas fronteiras e esperar que o tempo faça um reset na predisposição do rapaz para que o vejamos de novo aceitar uma dose renovada de subtis submissões aos nossos caprichos mais tontinhos.

Nesta deliciosa manipulação, importa a perspicácia e a inteligência de nos mantermos alerta a todo o sinal de saturação que chispa nos olhos da nossa vítima tão querida. O vislumbre de um franzir de sobrancelhas pode constituir um aviso de perigo e uma queda fatal na nossa actividade criminosa. Nestes casos é importante saber contornar as esquinas mais abruptas e angulosas.

O essencial em todas as manipulações que se querem bem sucedidas é reconhecermos que é sempre útil fazer acreditar que são eles que nos oferecem sempre o que é do nosso desejo, mesmo quando sabemos que fomos nós as artesãs da oferta.

O sim dos rapazes nunca foi difícil de obter. O problema está sempre no modo como formulamos a pergunta.

A Gaffe mal acordada

Acordei com a manhã fria e chuvosa nos olhos.
Considerem-me irritada sem qualquer razão que o justifique.
Tal significa que a primeira criatura que me afronte, seja qual for o sexo do desafio, acabará desfeita.


Há alvoradas em que os tigres fêmeas acordam com garras prontas a esfacelar inocentes e com os músculos tensos a esticar o ataque, farejando o sangue que corre escondido nas veias. Quando a manhã acorda um grande felino sem lhe aquecer as listas com o mel dos dedos, não há nada a fazer.

O dia terá de esconder as crias.

30.5.24

A Gaffe com gémeos


Ao folhear uma revista, a Gaffe depare com uma fotografia de moda onde duas gémeas se abraçam e se acariciam sem propósitos nenhuns - diria a santa - perante o olhar esfomeado de um quarentão muito apelativo.

Se naquela fotografia fossem substituídas as gémeas esqueléticas por um belo par de gémeos observados por uma mulher, depressa haveria gente com ambições de beatificação que a consideraria uma porcaria escabrosa.

Uma rapariga esperta não dá valor a estes julgamentos precipitados.

A Gaffe admite, embora hesite, que uma das fantasias eróticas femininas mais protegidas e acarinhadas é aquela que nos coloca na frente - e atrás - dois garbosos gémeos verdadeiros para depois obrigar a dupla a acariciar-se como se o amanhã não existisse.
Uma rapariga esperta sabe exigir o seu quinhão de felicidade em dose dupla ou os seus pares de quinhões, já que falamos de gémeos.

A Gaffe, é certo e seguro, será acusada de promiscuidade por publicar fotos de rapagões lindos de morrer, imbuídos de muito BOAS vontades e com uns paninhos exíguos a tapar as pilas. A confiar no dito, o leito da Gaffe é  a camarata do 5.º Regimento dos sapadores bombeiros ou o da Infantaria 9 do quartel da cavalaria.



Por muito que lhe custe, a Gaffe terá de assumir que não corresponde à verdade o leito com os paraísos indicados.

Salvaguardando - é evidente -, o facto de não ser parva, esta rapariga é mesmo muito tímida, reservada e criteriosa em relação à escolha dos matulões que partilham as suas fantasias menos públicas. Admite que gosta mesmo muito, muito, muito, de homens e que não faz questão de ser canonizada ou sagrada protótipo de virtude que faz ter um paupérrimo sexo infeliz - deixa esta miséria para juízes mais pudicos.

É certo - e pobre - reconhecer o que é uso classificar um homem promíscuo como um D. Juan, um excelso conquistador potente, sedutor e sabido, um valente maroto que sabe da poda - embora possa não dominar as grafias mais ultrapassadas - e que uma mulher com as mesmas características é tida por um estafermo possuído por um mafarrico libidinoso capaz de a fazer esbardalhar nos confins de uma sexualidade desenfreada e descontrolada, mal vislumbra um rabo de calças.

Atirar pedregulhos a um pobre e doce feminino que se vai divertindo publicando, de quando em vez, estampas onde a testosterona é um foguetório digno de se ver, é a mesma coisa que entrar em êxtase percorrendo fotos de mulheres de mamocas a furar o monitor e rabos que se empinam enquanto as donas olham como se tivessem um vibrador encastrado e a funcionar a todo o gás.

É imbecil.

Às críticas e julgamentos condenatórios, a Gaffe aconselha uma noite libidinosa com os gémeos poderosos referidos no início desta sua perdição. Podem salvar casamentos que de tão harmoniosos, reservados, beatos, puros, sacros e belos já deixaram crescer folhinhas de louro em redor da piloca e hera no pipi dos que se dedicam a espreitar escandalizados os homens que por aqui lhes causam inundações cerebrais.

A Gaffe sacerdotiza


Os deuses devem ter um arquivo gigante onde guardam os ficheiros dos mortais. Um arquivo poeirento e carcomido, cheio de estantes a ruir de velhas, onde só entram quando querem acrescentar uma palavra à toa a um qualquer dossier tirado à sorte.
Os ficheiros de tão manuseados ficam sujos. Desordenados, frágeis, sem nenhum sentido. De tão riscados deixam de ter espaço para o traçado de linhas mais perfeitas. Serpenteiam todas no papel e não são rectas, porque já colidem com outras já desalinhadas e vincadas. Os deuses entram a tossir poeira, agarram um ficheiro e despachando aquilo vão rasgando as pontas, amarfanhando as margens, enxovalhando o resto.

Depois de esgravatar, é Cupido o único que deixa nas páginas cortadas um risco de estrelas.

 


Na foto - Matt Merrell 

29.5.24

A Gaffe nos armários


É evidente que todos temos esqueletos nos armários. Faz parte da condição humana recolhermos no escuro das prateleiras pedaços de pecados que não gostaríamos que fossem do conhecimento público.

Sempre que estes ossos se vão amontoando, a possibilidade de vermos rebentar fechaduras aumenta exponencialmente. Nada é tão ilusório como querer conservar intactas e desconhecidas as maleitas que trancamos. Mais cedo ou mais tarde, somos apanhados pelos nossos escondidos ossos. Sermos capturados pelas nossas próprias vidas é do pior que existe.

Pessoa tinha razão quando ansiava que a sua alma fugidia não o apanhasse.

Acredito que os meus esqueletos ainda são em número demasiado escasso para chocalharem de forma audível. Não tenho idade para grandes ossadas. Vão espreitando, de vez em quando, mas acabam sossegados, amordaçando o inevitável destino que os fará desandar, desarticulados, pela minha vida fora.

Enfrentar esta cambada é ponto assente. Não adianta muito tentar ignorar a capacidade que estes doidos arranjam para nos assombrar o juízo e esperar que adormeçam embalados por contos de fadas e cantigas de sonhar.

Não há nada melhor do que um valente par de estalos para por os ossos no lugar. Sobretudo aqueles que se deslocaram.

A Gaffe imaculada


 - Olha 'more! antes isso c'andar na droga.

A Gaffe não gosta


... de mulheres rentes ao soalho, com cabeleiras ossificadas, sorrisos miudinhos, convencidas que são fadas, de alfinetinhos sempre prontos a tentar furar a vida dos outros, que usam casaquinhos de malhinha demasiados justos e sapatinhos de meio-tacão, que escrevem cuesia dedicada ao Outono e que não deixam de marcar presença em saraus literários onde uma catrefa de cuetas, de cuetisas e de cumancistas fazem de conta que se dedicam às letras.

A Gaffe sabe que escondem estampas pornográficas nas folhas dos missais. 

Aproximam-na dos abismos da irritação e esbardalham-lhe a paciência. Sobretudo aquelas que usam um broche na lapela - um sítio onde é desagradável ver um broche - e nos olham depois com aquele ar muito digno e muito ausente de quem não mexe nunca numa palha... ou numa pila. 
Gaffe - 2016

28.5.24

A Gaffe regressa ao faduncho


Aqui
os rastos desta dor são como vidro
onde resta o rosto já partido
da terra ou o das águas por findar

Aqui
tudo é previsto ter uma parede
e a cal escalda branca só de sede
na noite de uma casa sem luar

Aqui
é só na minha dor que eu estremeço
apenas nesta seda onde não teço
a madrugada dos lírios por cortar

Aqui
o dia que se verte sobre a asa
magoa esta saudade a voar rasa
no céu de uma raiz quase a chorar

Aqui
será de novo teu o que florir
a raiz que erguer o que há-de vir
quando o meu chão doer no teu voltar

Aqui
hás-de voltar para ti
fingir que foi de outra o que eu sofri
ao lancetar a ferida que é lembrar

Aqui
eu sou a que faz falta ao teu voltar
o lanho que se esquece de sangrar
na minha vida ferida só por ti

Aqui
hás-de voltar a ti


A Gaffe tablóide


Ela lembrava-se do modo como cicatrizavam os lanhos do amante. Como os lambia até se transformarem em traços ou rastos de gaivotas sobre a areia.

Vinha pedir guarida e ela guardava-o.
Santuário.

Lençóis erguidos, góticos, erectos.

Sangue atrás de sangue, ferida a ferida, lambia unindo os bordos do rasgado até surgir a linha rosa de carne e cicatriz. Lanho a lanho, noite em noite, de solidão em solidão, ela cosia os rasgões que ele trazia.

Muda. Mais muda. Sempre mais muda. Como se o seu silêncio pudesse crescer interminável, como se tombasse no negro e se transformasse nele, como se logo atrás da mudez existisse o vácuo.

Ela tinha o sabor dele na boca, como palavras dela.

Matou-o. Foi a única forma de falar que ela encontrou.

27.5.24

A Gaffe doseada


Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

A Gaffe ceramista


A cerâmica portuguesa tem pequenas manigâncias que deixam a Gaffe perplexa.

Na cozinha antiga, nas paredes de pedra, há anos velhos que existe um prato vidrado, de bordo florido de azul-cobalto, onde sempre se leu:

 

Não fiques com tanta mágoa

Que tu por casar não ficas!

Segue o conselho: bebe água

Na fonte das duas bicas.


A Gaffe confessa que sempre considerou a mimosa quadra um bocadinho perversa. Um incitamento a uma loucura bastante condenável na época que deu brilho à redonda insinuação e, simultaneamente, uma belíssima demonstração de abertura e de uma certa lassidão de costumes, sem os preconceitos em vigor.
Poderá, em contrapartida, ser de uma inocência filosófica incapaz de penetrar na endurecida marotice desta rapariga destravada, embora a hipótese se torne vaga perante o piscar de olho travesso da velha e sabida cozinheira.

Seja como for, a Gaffe nunca compreendeu de modo claro o alcance do conselho azul e pérola e talvez por isso sempre a tenha irritado o duvidoso alvitre.
Decidiu portanto remodelar a decoração, cravando na parede o que nos tempos que correm significa basicamente o mesmo.

Uma rapariga tem de acompanhar o século em que vive.

26.5.24

A Gaffe a balançar


As minhas mãos passam despercebidas, cambaleando sonâmbulas no som que os pássaros soltam de ramo em ramo.
As minhas mãos são ruivas e nem a ferruginosa cor das minhas mãos permite a inacabada antítese da paisagem do meu corpo.
As minhas mãos ruivas não são mais do que o rasto que fica, como a ferida de um fruto que se acaba de morder. Um fruto vermelho, uma romã, uma cereja, ou a mordida feroz no coração da tarde ou no meu, que entardece no som despercebido das minhas mãos sonâmbulas.
As minhas mãos ruivas são desiguais a mão que digo amar e é nesse dizer do amor que sinto não sentindo que as minhas mãos balançam na mão que digo amar, porque em mim o amor é sempre o oscilar das cores com que as aves fazem ninho.

Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.
Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

- São como as grades do portão. Fecham e abrem o que quiseres dentro de ti.

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos.
Assim aconteceu.

Tenho as mãos feias, mas é Primavera.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.

A Gaffe em Rafah


As palavras crescem raquíticas nos muros da surdez e todos os gestos que começam tarde matam açucenas.

No entanto tudo está certo. Recto como um fio no abismo.
Ninguém exige o rosto dos culpados. Ninguém pergunta pela gravidez das árvores.
Mas tudo está certo e pela rua jorram assassinos.

Resta a morte para alimentar os vermes.
Fotografia - Noor

25.5.24

A Gaffe fofinha

A Gaffe sabe que aqueles que teimam em vestir a pele de cordeiro, acabam sempre no prato dos lobos.

A Gaffe elementar


Ocultamo-nos como conseguimos no meio das chamas. O desequilíbrio faz-nos tombar sobre a lâmina e o interior do lume corrói as pedras que amontoamos em castelos de cartas.

Todo o abismo deve ser atravessado com um salto apenas. Não há lugar para dois passos pequenos, mas existe a lâmina, a falha das sandálias de Mercúrio ou o calcanhar do herói que ninguém é.
Protegemo-nos, ou com o corpo, erguendo dele e nele a fortaleza que suplicamos no interior de nós que seja inabalável, ou escudamo-nos com o Pensamento erguido pelos Sábios, construindo nele o pensamento nosso, como se nele e dele houvesse salvação.

Podemos encontrar o poço mais fresco do deserto e mesmo assim a sua água não nos matar a sede.

Mas quando um peixe se move, turvam-se as águas. Quando um pássaro voa, uma pena. A erva cresce e não damos por isso. Colhemos flores e as nossas mãos ficam perfumadas.
Mas basta a nossa mão de terra em concha recolhendo a água para que a lua nos tombe nos dedos.

Porque somos a água, o ar e a terra sobre o fio de uma espada.

24.5.24

A Gaffe detective


A Gaffe suspeita que é pelos lanhos da alma que a luz entra.
O frio também.

 

Foto - Fernando Alan Silva

A Gaffe por aí adiante


O que destrói irremediavelmente a imagem de um quarentão - ou cinquentão, ou por aí adiante -, é a condenada frase iniciada pelo no meu tempo eu era, seguida da descrição pormenorizada da apelativa excelente forma física e dos encantos saudosos perdidos para sempre.

Nada melhor para nos fazer acreditar que a memória do cavalheiro é um facto e que, no momento em que o ouvimos, existe apenas a carcaça do passado glorioso. Nada melhor para nos fazer crer que o presente é uma múmia daquilo que se foi no passado.

Não é necessariamente verdade e irrita.

Um quarentão - ou um cinquentão, ou por aí adiante -, devia ser obrigado por Decreto-Lei a manter silenciada a patética saudade do passado jovial e juvenil.
É medíocre o lamento daquele que se proclama envelhecido e podre, sem qualquer hipótese encantatória, incapaz de sedução e isento de charme.

Meus caros quarentões - e cinquentões e por aí adiante -, o charme é também a inteligência - e o talento -, amadurecida que trespassa e flui pelos poros - mais abertos, é certo -, e capaz de fazer pasmar e render a mais renitente das resistências femininas.

A partir deste momento esbofeteio o primeiro rapagão com mais de quarenta anos que choramingue os idos tempos em que era capaz de saltar à vara, sem a vara ou sem se preocupar com a altura em que a dita é colocada.


São os homens inteligentes - e talentosos - os únicos capazes de provocar alguma instabilidade numa empedernida e astuta rapariga esperta.

São naturalmente homens maduros, trintões ou quarentões, ou por aí adiante, desesperantes.
O talento é lapidado com as mesmas ferramentas que o tempo vai usando para aguçar a inteligência, inevitável cúmplice de qualquer dom. Os jovens rapagões são apenas espertos. Os velhos são podem ser geniais.

O cuidado displicente que uma rapariga deve ter com os homens banais não se aplica aos talentosos. Deve ser dobrada a atenção e deve duplicar a vigilância com que se evita os ténues fios de seda com que nos envolvem de repente.
A inteligência – e o talento - actua como um bruto TGV que quase nos trespassa quando na gare vemos passar apenas os regionais. Somos atraídas, contra o seu corpo acelerado, pela deslocação do ar provinciano e parco em aventuras.
Embora seja difícil resistir a um homem talentoso, não é de todo impossível identificar o modo como os mecanismos que lhe fornecem a capacidade de criar abismos de sedução estão activos. Alguns são de imediata detecção e transformam-se em sinais de alerta, minúsculos faróis acesos no cume da negrura dos rochedos:

1 - Rodeiam-se inevitavelmente de um cardume de mulheres que, fascinadas e rendidas, guardam a secreta esperança de se tornarem únicas, senhoras do senhor que as subjuga imperceptivelmente.

2 - Insinuam, ao ouvido de cada uma delas, sombras de promessas ambíguas onde a elevação ao lugar de eleita está implícita, sem nunca assinarem o decreto.

3 - No escuro dos cantos onde a vida dorme solitária, procuram fazer crer que estão rendidos aos lugares-comuns, às patetices, à poesia de cordel, de mel e malmequer, que cada uma delas vai atirando às rodopiantes águas onde pesca.

4 - Fazem acreditar que, no meio do cardume cintilante, existe apenas uma truta que querem para a sua brasa e vão nadando à volta de todas as escamas, procurando não desfazer a totalidade prateada do conjunto.


Cedo ou tarde, o homem talentoso desilude. É nessa altura que percebe que, no meio do cardume de sardinhas, nadava uma sereia que escapou. É nesse instante que desfralda a maldita nostalgia do seu tempo.

23.5.24

A Gaffe parlamentar


Existia, para uso dos seus oradores encartados, uma lista de termos insultuosos destinados a classificar o inimigo capitalista, aprovada pela antiga Alemanha de Leste, que incluía:

Bajuladores, paralíticos, estéreis traidores da humanidade, servis imitadores de comedores de cadáveres, covardes e colaboradores, bando de assassinos de mulheres, turba degenerada de parasitas tradicionalistas, soldados boémios e janotas presunçosos.

Felizmente que o muro de Berlim foi derrubado e a lista se perdeu debaixo das pedras.
Não há notícia de ali constar qualquer referência maldosa a parlamentares, como, por exemplo:

Histriões de sangue morto com complexos de superioridade; afectados e enfatuados com a mania que conquistaram terra ao mar, mas que ainda não perceberam que não devem ferver toda a comida - incluindo o pão -; toiros metafóricos, inchados e insinuantes, de ossos gelatinosos, que carregam nos dorsos as suas colecções de imbecilidades, de racismo e de misoginia; chimpanzés pálidos e babões que tossem e espirram preconceitos cheios de egoísmo, de importância própria, de compaixão própria, de interesse próprio, ou seja, invadidos pelos aspectos mais negativos das aves de rapina diplomática que cheiram à distância os cadáveres de ideais mortos.

Não há disto nota na lista abandonada.

Sentimo-nos tão felizes!

Ficamos, no entanto, limitados ao que nos é dado observar.
Podemos então concluir que há determinados deputados distribuídos por três tipos físicos bem distintos que se acumulam no extremo dos salões:

- Os pequenos, corpulentos e corados, como o queijo Edam;
- Os mais estreitos, pálidos e maiores, como o queijo Gouda;
- Pesados e duros, sem casca lavada, como o Beaufort.

Estas características fazem da histriónica bancada onde resfolegam a cloaca de uma vacaria e, em consequência, da Assembleia onde folgazam, a senil vaqueira que vai apenas a empurrar sem cajado os bramidos de alguns bezerros lamacentos.

22.5.24

A Gaffe de repente


De repente passa por mim espampanante a sinuosa mulher de corpo denso e rotundas curvas, roliças esquinas de carne potente perfumada por perfume quente e passo compassado para apoiar a amiga que quebradiça a segue cega e calada pela fúria da carteira cara que bamboleia nos braços robustos da indignação ruborizada que desarvorou ao lado.

- Tu bem que me abisastes aqui á uns tempos atrás.

Aposto que aquele não tinha h.

E prontus.

A Gaffe no Continente

A pátria de um porco é em toda a parte onde haja bolota.

F. Fénelon

A Gaffe cúmplice


 Gosto de manhãs de nevoeiro denso sobre a copa das árvores.

Gosto de me aproximar da janela sonolenta do meu quarto e ver ao longe os dois.
O envelhecer galopante do meu pai torna-o deslumbrante. Branco e esguio, magro, cada vez mais magro, cada vez mais longe e mais pacífico. Uma haste erguida frágil no sossego dos caminhos ou um livro fechado no regaço das águas.
Adormece facilmente. É bom ficar sentado a vê-lo assim dormir. Parece morto e nesse simulacro é imortal.
Às vezes senta-se na poltrona da sala que prefere, a virada a Norte e àquilo que é mais frio, e deixa-se ficar de mãos cruzadas. Imóvel e discreto. Depois, e de repente, vai-se embora, como se tivesse dito tudo ou nada mais houvesse para ser visto.

Gosto destas cavernas de silêncios pálidos.

O meu irmão que lhe segura o braço, ao lado dele, torna-se ainda mais terno e meigo e afectuoso.
Tem trigo nos cabelos, o meu irmão, e olhos diluídos pelas árvores.

Vão recolhendo nas manhãs as minhas névoas.

21.5.24

A Gaffe de cinzento


Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.
Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.
Fotografia de Alexandre Trauner - 1940

A Gaffe adornada


As mulheres adornam-se desde tempos imemoriais. Os objectivos são inúmeros e as razões variadíssimas. Ciclos de fertilidade, etapas de crescimento e de maturidade, ritos iniciáticos ou ondas de sedução, religiosa ou pagã, tornaram o corpo, preferencialmente o feminino, num palco de excelência.

Neste metamorfosear de fascínios, a arrogância masculina chamou a si a possibilidade de o adorno ser a homenagem da mulher que se objectifica através do somatório de atavios, marcas, signos, enfeites ou adereços, submetendo-se à capacidade de domínio do macho, contrariando a mais habitual forma de seduzir das outras espécies em que é o macho que se enfeita.

Na esmagadora maioria das vezes, esta certeza é um dos masculinos momentos de ilusão, porque não tem em conta que se nós, raparigas, sobre o corpo colocamos os mais extraordinários signos de beleza, fazemo-lo sobretudo porque a nossa pele exige que nela sejam acolhidas todas as joias que inventamos.

Adornamo-nos sobretudo para nós. O resto são despojos. 

Grande parte do poder de sedução de uma mulher, das ciladas que ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância – ao contrário do que se pensa -, mas exactamente na pouca importância que atribui aos atavios.

Um zoólogo que por aqui passou e deixou na Gaffe tenazes e animalescas recordações falou-lhe - não sei se lhe mentiu, mas se o fez foi por causa forte -, no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios se lhes dedicarmos atenção e lhes respeitarmos o perigo. 
A genética que lhes apagou erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.

A Gaffe suspeita que a mesma genética que apagou o ouro dos felinos, dissolveu nas mulheres a capacidade de atribuir demasiada importância aos homens que desejam ou àqueles que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas de com atavios ronronantes que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.

E como gatas que somos damos pouca importância ao tempo das coisas e um homem é sempre como um acessório. Adorna na perfeição o corpo da mulher, mas tem a durabilidade da estação que quisermos.     

20.5.24

A Gaffe depila-se


Uma rapariga esperta depila-se.

Comigo os pêlos - os pelos, a penugem, a nuvem, o sonho, o oásis -, não têm tempo para crescer. Faço meia-perna e axila, diz a minha esteticista, como se eu fosse perneta e no lugar de um braço tivesse um apêndice ligado directamente ao tronco sem aquela covinha tão atraente que uma rapariga esperta gosta de beijar quando a encontra perfumada e apensa a um guerreiro de fazer perder a alma.

Para meu pasmo, quando decidi que a minha meia-perna parecia um porco-espinho, ouvi uma das propostas mais intrigante da minha curta vida. Perguntou-me a madame J., Coiffure & Esthétique, salon Iver & Spa - inventei agora, porque sou discreta -, se eu queria retocar os meus pelinhos da púbis (sic)!
A minha púbis tem muito pouco para retocar, mas o espanto foi tamanho que não resisti a questionar a proposta. Sou informada que há uma imensidão de meninas que solicitam os prestimosos serviços de madame J. que, com imensa perícia tenho a certeza, lhes vai desenhando, com cera depilatória, estrelinhas, luas, rodinhas e mickeys onde o amoroso diabinho deles jamais poderá esquecer as botas e sobretudo os afins.
Para complemento da minha surpresa fiquei a saber que esta liberdade artística já tem seguidores masculinos. Há rapazinhos que gostam de ver a vergonhosa encimada por um belíssimo dragão ou por, quiçá, uma reprodução da Mona Lisa em tons carne e pêlo - pelo, penugem, floresta, matagal, degredo ou ermitério -, correspondente aos seus tipos físicos.

Fico abismada.

Sou uma rapariga esperta, mas assumo que há dentro de mim uma estúpida ingénua pronta a saltar assustada e a abrir a boca de espanto perante modernices deste teor.

Infelizmente não tenho matéria-prima para semelhante arrojo. Acabo por lamentar. Gostava de ostentar um tigre da Malásia a abocanhar a Torre Eiffel com iluminações de Natal ou, em alternativa, um pequeno tesouro publicitário como o que foi um dia encontrado por um querido amigo:

 

Se não sabes o que queres, entra. Eu tenho.

A Gaffe de mulher antiga


Amamos e somos delicadas.

Delicadamente nos tornamos ideais. Resguardamos os compartimentos anteriores a nós por onde a alma do amado vagueia nas tardes dos sentidos que não acompanhamos por termos acabado de chegar. Damos lugar ao gato, ao periquito e à iguana, mesmo quando somos arranhados pelo felino desgrenhado, mesmo quando se nos inflamam as articulações ouvir o timbre do pequeno pássaro ou mesmo quando nos repugna até ao vómito a textura do réptil.
Somos ideais e retiramo-nos da alma da criatura amada quando as portas se abrem às investidas do passado onde não estivemos e que, por respeito, não queremos conspurcar com os nossos passos trémulos, mesmo percebendo que é impossível atravessar aquele espaço saltando sobre as mesas com os tacões dos sentidos já despertos.

Emudecemos, civilizadamente, enquanto os outros recriam a multidão de sons que ensurdecem.
Obedecemos aos semáforos.
Atravessamos as ruas quando há passadeiras.
Não espirramos no centro de uma ópera.
Não tombamos cadeiras nas palestras.

Por amor, somos delicadas e mesmo quando os beijos que damos à criatura amada deixam de ser o que por nós respira, somos educadas, correctas, dignas, respeitáveis e inventamos um choro à parte, um choro disfarçado, um uivo no bico de um pobre periquito.

A farsa convincente e oportuna, civilizada, urbana, culta, cortês, gentil, polida.

Amamos e inventamos um espaço que supera e invade e substitui aquele que é o nosso por direito. Um lugar de delicadeza irresistível onde o Amor não é um animal, um instinto básico, um cataclismo bruto e natural, um turbilhão de carne e de pedaços de alma e mesmo sabendo que Amar é como cometer um crime e não fugir - para não ter de voltar - da alma onde acontece. Escolhemos a cortesia de forrar as armas com veludo.
Não atacamos. Ficamo-nos pelo esgrimir de facas protegidas pela bainha de uma inventada ladainha cómica, patética.
Acabamos irremediavelmente a chorar dentro do espaço desenhado a prumo pelo nosso pulso, com rigor amável e elegante, delicado, ou próximas de um sketch bastante convincente, porque lhe entregamos uma verosimilhança vagamente perturbante que confunde aqueles que olham apenas o que recriamos.


Par délicatesse, j'ai perdu ma vie. É Rimbaud que se revê nesta comédia.

19.5.24

A Gaffe a olhar

O Amor é igual em todo o lado e em todo o lado se pode ser pateticamente apaixonado.
Ficar parada e sozinha, onde tudo se torna mais tristonho é uma como flutuar numa esplanada de Inverno. Ficamos com os olhos presos aos movimentos mais ínfimos que fazem ondular a superfície branda onde pousamos.
O casal, o único sentado à minha frente, está fluvialmente apaixonado. Molha-nos com a água que lhes vidra os olhos.
Se usarmos todos os insuspeitos trunfos, todos os mais escabrosos estratagemas, todas as mais vis e malignas insinuações, todas as mais planeadas promessas, das mais subtis às mais desavergonhadamente descaradas, não os afastaremos um do outro.
O rapaz tem colados os olhos no rosto da mulher que traz todos os planetas pendurados nas pestanas.
A rapariga, mais tímida, afasta brevemente o olhar do centro do Universo, no ponto exacto onde se vê reflectida, para logo a seguir procurar de novo os espelhos dos olhos do homem.

Será que o Amor de tanto se olhar, se transforma em Narciso?



A Gaffe de bicicleta


A Gaffe acha um exagero a vozearia, a algazarra, o alarido e todos os outros sinónimos que quisermos, em relação à bicicleta de Ronaldo. É expectável, é admissível, é compreensível - tendo em conta que a maioria dos homens normalmente chuta de triciclo -, mas há que reconhecer que outros bem melhores pontapés de bicicleta ficam sem história, entalados nas paredes, à espera que uma de nós lhes investigue o estado das rodinhas.

Foto de Mladen Blagojevic

18.5.24

A Gaffe parada


O homem colocou os sacos no chão. São de plástico e abrem-se quando escorrem os pacotes de arroz e de açúcar, pesados. Abrem-se lentamente como se derretessem. O homem é velho. Tem uma samarra com uma gola de pêlo daninho e calças de fazenda suja. Tem meias de lã grossa e chinelos de quarto acabados e rotos.
Espera o autocarro e não sabe que eu o estou a ver a apanhar do chão uma beata que o homem que esperava o autocarro anterior cuspiu ao entrar. Acende um fósforo que se apaga. Está frio. Não sabia que o frio apagava fósforos. Pensava que só o vento que vem do mar consegue apagar as chamas. Depois, um outro fósforo. Desta vez, com a mão em concha, o homem reanima o pedaço de tabaco. Suspira ou penso que suspira. Talvez seja apenas o movimento do sorver do fumo.
Quando chegar o autocarro, o homem vai lançar a beata ao chão depois de arrancar uma última baforada. Vai apanhar os sacos que se abrem e arrastar os pés enfiados nos chinelos de quarto roto e suspirar. Desta vez tenho a certeza, vai ser um suspiro. Vai empurrar a mulher de saia azul e blusa de malha castanha que está junto dele. Vai empurrá-la para chegar primeiro. Vai subir curvado de samarra com gola de pêlo rançoso e espalhar no banco ao lado do que escolheu para se sentar, os sacos que se vão outra vez abrir e derreter. Vai ficar calado e olhar pela janela. Tossir de vez em quando ou escarrar para um lenço encardido que traz no bolso. Vai cheirar mal. Ele e o arroz dos sacos.

Quando o autocarro chegou, o homem segurou os sacos, cuspiu a beata e empurrou a mulher de azul e de castanho. Quer chegar primeiro. Ao subir, curvado e de samarra com pêlo desfeito, perdeu um dos chinelos de quarto. A meia de lã grossa tem uma cor cinzenta. Voltou a descer e a mulher de azul e de castanho ultrapassou-o.
O homem deixou partir o autocarro. Pousou os sacos no chão, sentou-se e suspirou.

A Vida é a paragem do autocarro.

17.5.24

A Gaffe muito atenta


Insistem macios que a vida acontece. Cabeça a acenar um sim quase pio, olhos comovidos e coração despido, repetem que a vida acontece. A todo o momento, a vida acontece.

Acredita-se.
A vida acontece.
Seja.

Corremos demasiado depressa pela vida e a vida exige paciência.
A tragédia não é desacreditarmos que a vida possa acontecer a qualquer momento.
Trágico é perdermos demasiadas vezes o milésimo de instante em que a vida surge.

A banalidade são as outras letras.

A Gaffe no trapézio


Todas as manhãs madame Renard dava migalhas aos pombos. Inclinava-se na varanda e entregava aos bicos vorazes pedaços de pão esfarelado. Todas as manhãs a via, velha, de cabelo branco, de bata de porteira e meias grossas metidas nos chinelos, debruçada sobre os pássaros escuros.

Todas as manhãs, na esplanada do café em frente à livraria, debicava à mesa com vista para os títulos, o croissant adocicado do costume.
Todas as manhãs o tempo era um copo com sumo de laranja feito ali e o rapaz que passava com livros e sem nome, mas que apetecia fazer com que eu inclinasse o corpo nas grades do desejo e atirasse grãos de olhar para o passeio.

Todas as manhãs, madame Renard atirava migalhas aos pombos e eu esperava sempre que eles chegassem, esbaforidos e medonhos, em debandada e cheiro adocicado e nauseante. Esperava sempre madame Renard e os seus pombos e imaginava um rasgão invadido de cor de circo na parede e tentava ouvir a voz do homem da cartola estridente:

Mesdames e Messieurs:

LA DAME AUX PIGEONS NOIRS!

Depois vinha madame Renard debruçar-se nos ferros da varanda coberta de asas pretas, bicos abertos como flores carnívoras e circulares olhos vermelhos, a atirar lantejoulas e confetis enquanto os pombos tenebrosos se viam no oscilar do trapézio de grades.

Todas as manhãs, esperava ver passar sobre as migalhas do croissant, na esplanada do café em frente à livraria, o rapaz de preto a esvoaçar com livros.

Numa destas manhãs gostava tanto de ser outra vez a adolescente do trapézio!

Foto - André Gamma

A Gaffe a divagar


A sombra das árvores encharca-se de pássaros como quem veste uma camisa branca.
Pousa no silêncio a cor das fontes e a crina das raízes rasas de água.
Chove nos vidros de cetim dos olhos dos lagartos, no sono dos sapos, no risco dos insectos sobre a cal cega de frio.
A chuva é uma rosa branca aberta nos meus braços. Nua escorre rumo ao rio.

16.5.24

A Gaffe assassina


A arma mais eficaz contra o medo é um horário de trabalho que às quatro da manhã de um Sábado nos deixa de gatas à procura da saída e do carro que nos aconselham a deixar estacionado na garagem e nunca nas imediações, porque há imenso assaltos.

Saio a arrastar os pés, desgrenhada, pindérica, esgotada e a sentir os joelhos na nuca. Procuro não adormecer no elevador, fazendo de conta que ando à procura das chaves na carteira que parece pesar duas toneladas e evito tombar para o lado encostando-me à parede enquanto o maldito desce sem parar.

Saio muito devagarinho para não me desfazer e de chave em alerta máximo ouço o carro a dar sinal de si num PIIIIIIII que me arrasaria os nervos se ainda os sentisse.

Caminho já curva, com as mãos a arrastar no chão e de língua de fora.

Ao longe, três carros depois do meu, atrás de um pilar, enfiado na penumbra, adivinho um vulto, parado, quieto, um bocadinho sinistro. Consigo perceber que é um homem, de mãos nos bolsos e careca. Nunca hei-de perceber como soube que o mafarrico era careca.

Tão segura a garagem!

Vou no mínimo, ser assaltada. No máximo apunhalada. Comigo não há estádios intermédios. Imagino o perito forense debruçado sobre o meu cadáver - coberto por um lençol imaculado, caracóis escapando rubros, misturados com o sangue que brilha à luz dos focos da ciência e sapato Manolo Blahnik abandonado perto do meu corpo - banhado em lágrimas:

- Quem foi o monstro capaz de fazer isto a um anjo tão lindo como este?! 

Naquele instante o que interessou foi enfrentar o demo que não sabia que o anjo lindo prestes a assassinar tinha saído de um inferno monumental onde se manteve de pé horas a fio, enfrentado multidões ensandecidas de criaturas traumatizadas; tratando da saúde a umas outras tantas; corrido corredores sem fim à procura de apoio de urgência; esbardalhando raspanetes a torto e a direito por dar conta que lhe faltava material - quase esmagando o que estava apenso a um belíssimo rapagão que inocente se meteu à sua frente -; enfrentando dois polícias que lhe vieram trazer um tarado teimando em deixá-lo ao seu cuidado - Nem pensar, meus caros. Se tiver de ficar com alguém, prefiro um de vós. Saudável, musculado, sóbrio, com um hálito dentro dos limites estipulados pela Lei e com o apito em condições; espetando bisturis em tudo o que se movia sem autorização e apanhando dois esgrouviados nus a correr pelas salas de espera do piso onde tudo acontecia sem que ninguém - sublinha-se ninguém - se apercebesse que o que traziam ao léu, a dar-a-dar, não merecerá nunca uma capa da Cristina.

Posto isto, será bom de ver o que esperava o careca maldoso, atrás do pilar com ar de assassino de ruivas cansadas.

Verifiquei a biqueira de um dos sapatos e o salto do outro. Tudo em ordem. Não me tinha esquecido de os calçar. Lamentei a sorte do meu substituto que, mal chegado, teria de acudir aos tintins de um rufia saído de um filme negro sem categoria, e já pronta e desperta, sem réstia de medo ou cansaço, desafiei a morte certa como uma ruiva o deve fazer: em frente, que já se faz tarde e isto não chega aos netos.

A sorte do imbecil careca foi a bocarra do elevador se ter abreto para expelir uma data de dois matulões - valiam por muitos - a quem tinha dado uma hora antes um raspanete digno de um império. Não me reconheceram por estar à paisana – dou graças, porque de contrário suspeito que os meus sapatos não davam conta de três pares de tintins -, mas afastaram por sugestão minha o careca mal-encarado.

Se me voltam a aconselhar o estacionamento na garagem, transformo-me em sniper.  

Gaffe - 2017

A Gaffe agricultora


Depois de se ter irritado de uma forma muito pouco bucólica nestes dois meses presidenciais, a Gaffe decide desviar os olhos do palácio de S. Bento, que se transformou num Taj Mahal parolo, pindérico e de pacotilha, onde estão depositados os restos inadmissíveis de um presidente sem legumes no sítio do costume, e procurar pintalgar a paisagem com hortaliças viçosas e dignas de figurar no grande piquenique da sua exígua superfície.

Parece notória a dificuldade que este valentão terá em descalçar a bota, mas a Gaffe diz, aos seus botões já libidinosamente desapertados, que neste exacto momento há botas muito mais nauseabundas e putrefactas enfiadas nas cabeças de gente que apenas consegue dar nós cegos nos cordões.

15.5.24

A Gaffe de enxurrada


Vou ver a minha terra de enxurrada.

Vou pelo alagado ardor das laranjeiras, ao mais alto trilho das cabras.
Quero ver as nuvens como bandeiras mortas desabarem.
Vou encharcada de sol, de água e pedra, de queixume das folhas e de inquietude parada dos bichos, de corpo líquido e de coração de enxurrada. Vou ser maior do que eu e não ser nada. Vou de nuvem a escorrer-me pela boca, a entrar-me nos olhos para me secar a sede. Vou ver a minha terra de encardida lama. Terra que se morde no coração das casas. Terra de rastos a cheirar a púrpura. Terra de campa rasa prestes a parir. Terra que me vem lamber as mãos e morde de repente. Terra a latejar.

Lentíssimo relâmpago.

A Gaffe num sopro


Quando a Primavera tem raiz, na hora parda que alastra a cor acidulada reflectida nos espelhos da água da cisterna mais pequena, na face Norte da casa, no lugar mais frio, nasce uma brisa que sentimos quase verde. Desce as escadas de pedra e percorre todo o labirinto esguedelhado do jardim, entra pelas portas e janelas, corre corredores, afaga os móveis e as louças, sacode a poeira breve dos tapetes, confunde a ordem dos ponteiros dos relógios, despenteia jarras, inclina quadros na parede, desfaz a simetria das cortinas, obriga as mulheres a compor os lenços que usam traçados no peito, desarranja todos os recantos e canteiros, para depois voltar ao lugar onde nasceu, no lado Norte da casa, perto da cisterna mais pequena, e desaparecer por entre a imperceptível ondulação da água.

Dizem os homens que não é a brisa sorrateira e branda a nascer ali, que não é o vento a estender um braço de sono e a recolhê-lo depois de o espreguiçar.

Dizem as mulheres que todas as Primavera, em maio que chega, vem do fim da água um anjo condenado por se atrever a amar aquela que guardava e que em brando desespero procura o que por tanto desejar deixou desamparado.

Ao fim da tarde, depois, volta a morrer, porque se perde constantemente a vida quando sabemos que o nosso amor, de tanto, desnuda e aniquila os que desmesuradamente nós amamos.

14.5.24

A Gaffe atraída


Os homens mais atraentes que conheço não desfilam - pavões inexpressivos -, nos tapetes do glamour, de brilho impávido nos olhos vestidos pelo deslumbre de uma griffe. Cruzam-se comigo em cada rua, banais, quotidianos, corriqueiros, cansados dos lugares onde procuram arrancar das pedras pedaços de vida e trazem nas mãos a nudez completa dos que trocam por sonhos o esplendor da glória.

São homens banais, heróis já quase feitos apenas de cansaços ou palavras.

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.
São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros.
Há uma invulgar espécie de criaturas em que o tempo toca de modo feiticeiro e lhe entrega o incontestável poder de metamorfosear a inexorável conquista do passar da vida, na potente capacidade de nos proporcionar o fascínio das madeiras antigas que, rugosas e agrestes, repletas de atritos e de farpas, conseguem manter a esperança nos veios erodidos, e através dela, nos conceder o milagre de tocar nas arestas já tão gastas como palavras pela ruas.

Às vezes trazem peixes verdes nos olhos e acreditamos, perto deles, que todas as coisas são possíveis.

Há homens de papel.

Parecem atravessar as ruas e as praças com a mesma impunidade com que pisam areias movediças. A luz que os vem aveludar é coada e mansa, quase embaraçada e tímida por se quedar na perfeição rival. Deixam no espaço um perfume de frésias esmagadas com um travo amargo de madeira exótica e pisam o que é deles, apenas por chegarem.

Parecem atravessar as ruas e as praças como se atravessassem cortando corações.

Há homens que tropeçam nas pedras do caminho, iluminados por uma luz que finda e que renasce pela manhã, na mais banal das séries; que trazem os aromas dos lugares caseiros, de cães, de chuva, de areia arrasada pelo vento, de árvores de fruto, de sonhos triviais, de ilusões e choro, de risos imbecis, mas a saber pela vida.

Trazem um Poeta no passado dos corações e fazem-nos sentir que temos tudo para dar e que tudo neles nos pede água.
Atravessam as ruas e as praças, mas param sempre ao lado de um coração qualquer.

Existem homens que trazem no corpo os rastos mais felizes das histórias que viveram. Usam-nos para encanto nosso e com a dignidade silenciosa do inevitável. Só a tranquilidade de uma maturidade plena e consciente os faz encantadores da serpente fugidia da atenção de uma mulher. Apenas a sóbria capacidade de se ornamentarem com as cores da exuberância que lhes povoa a vida nos faz render aos seus majestáticos perfis de sábios e de poetas.

Há homens que não são maus. Não sabem sê-lo. Também não sabem ser bons. Existem e pronto.
Almas assim podem ter o condão de nos esfacelar os nervos, mas é impossível ver esses gigantes de olhos abertos, mudos e surdos, sem rezar baixinho pedindo a alguém para os salvar do mundo. São pesados colossos mais leves do que eu.
Mas há neste grupo, homens que se desfazem em estrelas minúsculas para que a luz não falte no espaço onde estamos.
Esses devem ficar perto de nós. Cada gesto nosso, ao lado dos seus, suga toda a força que trazem no corpo.
A vida também é isto: O uso matreiro de seres como eles para complemento de inúteis legendas.
Há credibilidade em grau bem maior quando nós falamos com um lobo aos pés.

Há homens que nos consomem.

Há homens cuja capacidade de sedução é equivalente à eficácia de um garfo a tentar espetar uma gota de mercúrio.
Ocupam-nos à revelia da nossa vontade e mesmo reconhecendo a toxicidade dos patifes somos incapazes de os substituir por uma qualquer panaceia transformada em jóia.
Esquecemos com demasiada frequência que deles dependemos apenas porque recusamos assumir que se nos matam com o fumo dos seus encantos sacanas, somos nós que a cada momento lhes avivamos a chama.

São como vícios.

De que são feitos os homens?

Os que nos querem e os que queremos realmente; aqueles que nos fazem indiferentes a qualquer libertação feminista, porque a deixam sem sentido, inútil e escusada; os que nos abraçam como se nos fizessem entrar em catedrais ou em cabanas onde as traves do tecto e do soalho são de madeira cortada, polida e cravada com a própria alma, que depois nos entregam para que a guardemos dentro do peito; os que nos trazem gargalhadas para casa, sonoras gargalhadas, trovejantes gargalhadas, e que não tremem quando trazem lágrimas; aqueles que nos dizem que não leram Pessoa, Eco, Proust ou Lobo Antunes, mas que nos desassossegam sempre que demoram, perdidos no tempo que buscam em nós, entrando tão depressa por essa noite escura, e que sabem de cor, de coração, os nomes de todas as rosas; os que dão nome aos nossos cães e atravessam temporais para os fazer correr atrás da chuva; os que não falam de amor, porque nos deixam acabar todas as frases; aqueles que nos abrigam quando há escuro e monstros dentro dos armários e se deixam recolher nos nossos braços depois do medo que sentem com um ranger de portas carcomidas.

Os que sabem que é a terra, a água e eu as três únicas claridades que conhecem.

De que são feitos os homens que nos amam?

Foto - Richard Prince, 1999

A Gaffe por aí


- Ai, qu´aquelas bolinhas pretas dos peixes caros sabe-me a sardinha crua.

- Ai, que se me saísse o euromilhões abria um canil e aquela coisa p’ós gatos.

- Ai, qu’ela é uma mulher que não sabe estar.

- Ai, que vou meter um plástico em cima do tapete, qu’assim não suja.

- Ai, qu'isto é assim, qu'isto é assado e ninguém sabe de nada.

- Ai, coitado! e eu que se soubesse fazia-lhe uma canja.

- Ai ,qu'aquilo foi um ar que se te deu.

- Ai, qu’ele com aquela barba marca a diferença.

- Ai, qu’eu estive mesmo para lhe dizer das boas.

- Ai, que está um calor do caraças.

- Ai, qu’está mas é um calor do crl, filha.

- Ai, qu’ela é como um pai p´a mim.

- Ai, qu’eu até já to tinha dito.

- Ai, qu'isto dos incêndios é da mãe criminosa.

- Ai, qu'ele entrou ali apertado que raspou-me aqui no meio.

- Ai, qu'ela não é certa.

- Ai, que não vale a pena, qu'a gente não leva nada p'á cova.

- Ai, que na minha opinião pessoal, tu já foste c'os porcos.

- Ai, qu’a gente não deixamos cá ficar nada.

- Ai, qu’eu nem te digo, nem te conto.

- Ai, eu por mim punha-a mais curta.

- Ai, que s’eu quisesse era só apitar.

- Ai, vais linda, vais, nesses preparos.

- Ai, mas olha que bem disse o outro.

- Ai, qu’ele é um merdas, não desfazendo.

- Ai, que não tarda, corre mal.

- Ai, não corras, não, e depois o bacalhau tem pinhas.

- Ai, és tu qu'arranjas o cabelo em casa!

- Ai, olha, só te digo.

- Ai, leva uma malhinha, qu’isto de noite arrefece.

- Ai, qu’aquilo foi meu dito, meu feitio.

- Ai, p’ró que me deu!


13.5.24

A Gaffe a lamber envelopes


A repartição dos correios está praticamente a explodir de gente.

Uma fila medonha de criaturas resignadas de retângulo de papelinho amarelo na mão olhando de quando em vez o número que lhes saiu em sorte. Tentam passar o peso do corpo de uma perna para a outra, mascando o tédio ou a impaciência enquanto vão erguendo a sobrancelha quando um olhar se cruza com o do vizinho.

À medida que o tempo se arrasta, manobrado com a lentidão dos vermes pela única funcionária, senhora oxigenada de lábios sumidos e sombra azul celeste nas pálpebras cansadas, as conversas baixas vão erguendo um burburinho morno e sonolento.

Ao meu lado, uma jovem mãe, moçoila robusta e de boas cores, de avantajadas e roliças curvas e mamocas redondas a asfixiar dentro da blusa justa, é puxada pela criança que tenta atingir a pequena estante onde estão pousadas bugigangas e alguns livros coloridos. A menina é irritante, inquieta, irrequieta, impaciente. Não tem mais do que seis anos e é minúscula. Parece um rato desgrenhado e feio. É provável que se pareça com o pai, pois que a mãe tem a beleza alourada e florida das minhotas e uma sensualidade contida pela força das mansidões aprendidas ou impostas.

Não consegue estar sossegada. Procura tocar nos livros e nos tarecos de plástico em forma de bichinhos, com uma pequenina corrente para pendurar. A mãe agarra-a. Exige que pare, que esteja quieta.

A miúda desobedece.

Puxa-lhe a saia, agarra-lhe nas mãos, torce-lhe os dedos, cola-se-lhe às pernas. A mãe começa a desesperar, empurrando-lhe a insistência com um solavanco e um beliscão no braço. A criança continua mesmo assim. Quer desesperadamente um livro com dois ursinhos na capa. A mãe recusa. A menina ataca. A mãe nega. A menina teima. A mãe rejeita-a. O ratinho morde.

Creio ser só eu a observar a cena. Os meus restantes companheiros de infortúnio encetaram entretanto as conversas de ocasião com que esperam iludir a espera.

Dura há já algum tempo a embirração.

A criança dispara com um berro de repente a derradeira bala.

- Não dás? Não dás? Então vou dizer a toda a gente que lambes a pila ao pai.

Faz-se silêncio. Aquele que é o melhor. O absoluto.

Sinto que algures ocupando o espaço paira um búfalo morto e que toda a gente está ali para apresentar condolências à família.   

Ficou no chão um papelinho amarelo com o número que antecede o meu.

Já não tenho ninguém à minha frente.

Fotografia - Hong Jang Hyun